Crônica: a semana de moda de Paris encontra The Tudors

Modelo desfilado por Kenzo
Modelo desfilado por Kenzo Foto: Michel Euler, AP

Passei a última semana assistindo aos desfiles nas passarelas de Paris e lendo Wolf Hall, de Hilary Mantel. Poderia se pensar em um contraste saudável: em uma mão, o mundinho da semana se moda com garotas magricelas bebericando champanha e, na outra, 650 pesadas páginas de trapaças tudorianas pelo poder. Pelo menos era o que eu esperava. E foi por isso que trouxe o livro comigo – isso e o fato de eu achar superútil ter à mão um livro bem pesado de capa dura durante a semana de moda, quando resta apenas um par de calças tamanho médio na loja de Vanessa Bruno e faz-se necessária uma arma para nocautear temporariamente suas compradoras rivais.

Mas no fim mal há um fio de cabelo de distãncia entre os dois mundos. Nos corredores do Ritz de Paris, assim como nos da corte dos Tudors, só se fala no preço dos tecidos e se fofoca sobre quem está em ascensão e quem está em queda. E nisso surge a questão sobre como as mulheres usam sua sexualidade como moeda de barganha, com estilistas e conselheiros reais fazendo com que isso pareça algo bonito e ganhando a vida levantando uma bandeira feminina. Substitua o shantung de seda desta estação por veludo vermelho vivo e uma má crítica na Women’s Wear Daily por um feitiço na Torre de Londres e, sinceramente, o resto é igual.

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De fato, Ana Bolena teria amado esta estação. Talvez ela ficasse um pouco confusa com as bermudas ciclistas de Comme des Garcons, mas teria entendido Christian Dior e Jean Paul Gaultier num instante. Após anos de moda que os homens não entendem, temos uma estação que definitivamente eles vão sacar. Paris trouxe sexo esta semana. E não do tipo agressivo com visual sadomasoquista para todos os lados, que parece sexy na passarela mas é assustador demais para fazer bonito na vida real. Estou falando da falsa timidez de trenchdresses (vestidos inspirados em sobretudos) de cintura marcada, que quase revelam o que há por baixo deles, e o suave contraste como o da pele contra o lençol de rosas com marfim, caramelo com creme. O tipo da coisa que fala uma linguagem universal. (A glória alardeada do “espartilho de gravidez” convexo de cetim que Gaultier fez para a modelo britãnica Jourdan Dunn, grávida, transformando-a em uma deusa da fertilidade ambulante, também teria sido bem captada pelas damas de Henrique.)

Como em qualquer meio em que haja dinheiro e poder a serem conquistados, as facções do mundo da moda são divididas e complexas, mas uma tribo em particular vem ascendendo nos últimos anos. O visual Vogue francesa, chamado assim por causa das editoras da revista, consiste em ser um pouco cool e durona e ao mesmo tempo ser capaz de encarnar calças dobradas e ankle boots de um jeito que faz a mulherada querer chorar num cantinho. A influência deste nicho fica evidente pelo quanto ele é copiado. Pode-se praticamente comprar esse look nas araras da Zara agora mesmo: calças com barra dobrada, blazer de ombros estruturados e um sapato pesado.

O que vimos esta semana foi que, agora que esse visual se popularizou, sua versão mais moderna foi a extremos, quase uma paródia: tivemos o Vogue francesa versão Jornada nas Estrelas no desfile de Balenciaga (calças skinny em cores neon com saias de couro recortadas) e Vogue francesa versão viciada em crack no desfile de Balmain (minúsculos, angustiantes pedacinhos de nada em forma de vestidos, que apesar disso você precisa estar disposta a roubar sua família para poder comprá-los).

Há uma área importante, entretanto, em que o excelente romance de Hilary Mantel ficou muito atrás da semana de moda de Paris. O livro não fala nada sobre sapatos. E, em Paris, os sapatos atualmente são de outro mundo (bolsas não se comenta, elas não são sexy). No desfile de Yves Saint Laurent, as opiniões se dividiram quanto ao visual camponês chic, com direito a morangos bordados em algodão branco, mas a plateia inteirinha grudou os olhos com luxúria nas incríveis sandálias de plataforma.

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