Culto ao bronzeado dificulta conscientização sobre os riscos do sol no Brasil

Micoses, insolação, manchas, envelhecimento precoce podem ser o saldo do descuido

O problema, segundo os médicos, é que brasileiro admira uma pele bronzeada e se considera mais saudável e atraente quando pode exibir o corpo dourado
O problema, segundo os médicos, é que brasileiro admira uma pele bronzeada e se considera mais saudável e atraente quando pode exibir o corpo dourado Foto: Genaro Joner, Divulgação/hagah

A estação mais quente e esperada por aqueles que não abrem mão de curtir férias na praia ou na piscina é também o período do ano mais temido pelos dermatologistas. Diante das altas temperaturas, dos dias ensolarados e da empolgação típica de quem tem o lazer como compromisso, a proteção adequada contra a radiação solar e os fatores que comprometem a saúde da pele parecem ficar em segundo plano. As recomendações são conhecidas. Mas, ainda assim, nem todos driblam ou escapam dos danos que o sol e a umidade do verão costumam provocar. Micoses, insolação, queimaduras, manchas, envelhecimento precoce e câncer de pele podem ser o saldo do descuido.

Apesar dos alertas e das campanhas informativas ? atualmente até as crianças estão a par das mazelas decorrentes da exposição solar ?, o sol e o calor continuam fazendo vítimas. A questão, segundo os médicos, é que moramos em um país tropical, o brasileiro admira uma pele bronzeada e se considera mais saudável e atraente quando pode exibir o corpo dourado. No entanto, os efeitos dos raios UVA e UVB são cumulativos e a fatura pode chegar antes do que se espera.

? O calor reduz a imunidade da pele, favorecendo infecções por vírus, como o da herpes por exemplo. Algumas verrugas também provocadas por vírus são muito comuns no verão ? observa o dermatologista Gilvan Alves.

Com o clima úmido e calorento, os fungos ficam livres para agir e surgem as micoses, conhecidas popularmente como impingens, coceiras e frieiras.

? Alguns fungos são importantes para manter o pH da pele, mas no verão eles encontram condições ideais para proliferação e infecção da pele. Aquelas manchas brancas, chamadas de pano branco, são causadas por fungos. O tratamento não é difícil, mas é importante buscar o atendimento dermatológico porque cada infecção micótica demanda um medicamento específico ? pondera o médico.

A areia da praia e as bordas de piscina podem estar infectadas por fungos e protozoários que também causam micoses.

Já as manchas nem sempre são fáceis de tratar. O transtorno é sempre desencadeado pela exposição solar. O fator hormonal, o contato com frutas cítricas e a própria predisposição genética são fatores que colaboram para o aparecimento delas, que acometem principalmente o rosto e as mãos. Os dermatologistas indicam clareadores para remediar as manchas estimuladas pela radiação utravioleta. As peles morenas são mais propensas a elas. O laser, muitas vezes, se faz necessário na remoção do sinal.

Queimaduras aumentam risco de câncer

As queimaduras são, sem dúvida, o mal que mais preocupa os dermatologistas no verão. Decorrentes da exposição excessiva ? por tempo prolongado ou não ?, dependendo do tipo de pele, elas podem causar bolhas e edemas. Algumas pessoas apresentam febre, fraqueza e podem até entrar em choque. O risco de câncer de pele é potencializado em pessoas que sofreram queimaduras solares ao longo da vida.

As chances são ainda maiores em quem tem pele clara como a da professora de arte Tereza Hercília Teixeira Farias de Abreu, 56 anos. Depois de anos tomando sol constantemente sem qualquer tipo de proteção, ela foi diagnosticada com um câncer do tipo melanoma próximo ao cotovelo direito. A doença foi descoberta por obra do destino.

? Apareceu uma pinta que não dei importância. Um dia, porém, machuquei a região e resolvi ir ao dermatologista. O médico prescreveu a imediata retirada do sinal. A biópsia comprovou a malignidade e indicou a necessidade da remoção do tecido que circundava o melanoma ? lamenta.

Apesar de ter feito enxerto, o braço de Tereza guarda a lembrança da doença. Fazem 18 anos desde o dia que o tratamento foi iniciado. Ela diz não ter dúvida de que colocou a saúde em risco.

? Para ficar morena, passava óleo de avião no corpo. Na época, não tínhamos acesso a tantas informações. Precisei ir a São Paulo tratar o problema. A cirurgia demorou mais de seis horas e até hoje vou ao oncologista uma vez ao ano. Tive sorte, o câncer estava avançando.

O dermatologista Erasmo Tokarski explica que as pessoas estão cientes dos danos que o sol pode causar, mas nunca acham que podem ser atingidas. O tratamento do câncer de pele é cirúrgico. A quimioterapia se faz necessária para tratar melanomas que se alastram.

? Os efeitos do sol são cumulativos. Uma queimadura hoje pode virar um câncer amanhã. As pessoas que tiveram melanoma são propensas a terem novamente. O protetor solar é indispensável e deve ser aplicado com generosidade de duas em duas horas. A pele deve receber o produto meia hora antes da exposição solar.

O médico reforça que quanto mais clara for a pessoa, maior deve ser o fator de proteção usado. O uso de chapéus e bonés é indispensável também.

? A garotada nunca deve tomar sol após às 10h. Nos pequenos, a insolação pode ocorrer de forma rápida e queimaduras de áreas extensas colocam a vida das crianças em risco. Bronzeadores jamais devem ser aplicados ? aconselha Tokarski.

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