Da família, Beatriz Dreher Giovaninni recebeu a sua maior paixão: fabricar bebidas com tradição e alegria

Uma conversa com a herdeira da Família Dreher, proprietária da vinícola Don Giovanni

Foto: Adriana Franciosi

Ela nasceu em berço de vinho. E de espumante, e de conhaque. Não tem memórias da infância que não estejam ligadas ao cultivo de uvas e à produção de bebidas no negócio da família. Viu seu sobrenome, Dreher, virar uma das marcas de conhaque mais famosas do país. E precisou abrir mão de tudo isso, quando a empresa foi vendida. Até que readquiriu a propriedade da sua infância e reergueu o ofício de seu pai. E hoje, Beatriz Dreher Giovaninni vive de novo em berço de vinho, de espumante…

O avô imigrante trouxe, em 1910, o gosto pelo cultivo das uvas e a fabricação de bebidas. A receita do brandy, que se tornou mais tarde o conhaque Dreher, veio com ele. Na propriedade instalada em Pinto Bandeira, no interior de Bento Gonçalves, ficava a fábrica e também a área dos parreirais.

As instabilidades do mercado brasileiro, somadas às mortes de familiares que eram peças fundamentais na administração da companhia, acabaram estimulando a venda da Dreher para uma empresa americana em meados da década de 1970. Era o fim do contato de Beatriz com o seu universo. Até mesmo o produto, receita de seu avô, já não era mais o mesmo. Mudanças na legislação permitiram alterações na fórmula do conhaque, que já não se parecia com o brandy original.

? Quando vendemos, a família saiu totalmente do negócio. A propriedade da minha infância foi junto. Não ficamos com nada – revela Beatriz.

Bem resolvida com a decisão familiar, ela tocou a vida, que a esta altura tinha as suas urgências, como a casa, os filhos e o trabalho. Mas demoraram apenas dois anos para que a quinta em que se fazia os vinhos e o brandy e onde floresciam os parreirais voltasse às mãos da família Dreher Giovaninni. Beatriz e o marido, Airton, viram a oportunidade e adquiriram de volta a propriedade. No local, hoje está instalada a vinícola Don Giovanni.

O marido, aliás, é um parêntese necessário para contar o desenrolar dessa história. Proprietário de uma metalúrgica em Bento, Airton nunca teve qualquer contato com o mundo do vinho. O que conhecia era uma certa menina de grandes olhos verdes, a quem encontrava na companhia dos pais, nos bailes do Clube Aliança.

? Ele passava na rua e dizia que queria casar comigo.

?  Mentira, tu é que corria atrás de mim!

Risos. Muitos risos.Assim nasceu uma história de amor e parceria que dura 47 anos. Com o entusiasmo de Airton, Beatriz acreditou na possibilidade de retomar a propriedade da família. Fim do parêntese. Mas jamais o fim da história.

? Nós não tínhamos intenção de voltar a trabalhar com vinhos e brandy. Queríamos somente a casa e o terreno para ser nosso refúgio de campo, aos finais de semana.

Eles queriam um ponto de descanso, um lugar para levar os filhos e fazê-los conviver com a natureza.

Porém, ao encontrarem, no topo de uma colina, os parreirais antigos, plantados no tempo do pai de Beatriz, o casal decidiu preservar o que havia de vinhedos no local. Daí até buscarem novas cepas, aumentarem a área cultivada e voltarem a fazer vinhos foi apenas questão de tempo.

? Pensamos em fazer, no início, somente um vinho para o nosso consumo e para presentear amigos. Era uma diversão – diz Beatriz.

Hoje, a vinícola produz 120 mil garrafas de espumante, além de vinhos tintos e brancos. Um dos rótulos já foi eleito pela revista Gula como melhor do Brasil.

? Começamos a ser reconhecidos pelos produtos. Não paramos mais.

Um dos maiores orgulhos de Beatriz é ter recuperado o brandy feito pelo avô, na época da fundação da Dreher. Brandy (também chamado de conhaque) é um destilado de vinho que envelhece por, no mínimo, 12 anos antes de poder ser consumido. Sua graduação alcoólica chega aos 40% e ele tem um gosto adocicado e marcante. As garrafas gordinhas do Brandy Don Giovanni e as barricas em que ele envelhece são exibidas com pompa, em local de honra da vinícola.

Além de retomar a produção de bebidas, o casal transformou a velha casa em pousada, com capacidade para poucos hóspedes e muito aconchego.

? Queríamos dividir com as pessoas a felicidade que sentimos aqui.

Ao sentar-se à mesa para brindar, Beatriz afirma que, na época, não imaginava-se seguindo os passos da família. Até porque a empresa, que havia sido fundada pelo avô e o pai, já não existia mais. Mas ao contemplar a paisagem que cerca a vinícola e ao ter na taça uma bebida fabricada ali mesmo, por ela e pelo marido, sente-se recompensada. Por ter atado as pontas da sua história, por estar ali, no lugar que sempre foi seu, e por estar cada vez mais apaixonada pelo velho ofício da sua família.

Apelido na garrafa

Voltar a fabricar vinhos, espumantes e o brandy não foi um plano, mas revelou-se uma fonte farta de felicidade. Beatriz resolveu então deixar registrado todo o seu gosto por aquele trabalho.

? Queria ter um espumante com o meu nome. Mas não era aquela coisa de homenagem, sabe? Queria mesmo era desfrutar dele enquanto estou viva e saudável.

Nasceu assim o Dona Bita, o produto premium da vinícola, batizado com o apelido de infância de sua idealizadora. O espumante é um corte de chardonnay e pinot noir, feito pelo método champenoise – o mesmo utilizado para a fabricação da champagne – que matura por, no mínimo, 48 meses antes de chegar ao consumidor. Oferecer uma taça dele aos amigos é das coisas que mais envaidecem Beatriz. Quando acompanha algum visitante à cave de envelhecimento, faz questão de mostrar as garrafas da sua bebida.

Presente em todas as partes do empreendimento, a história da família invade também a cozinha da pousada. Da mãe, Beatriz herdou o gosto pelas panelas e o talento para criar pratos. Inspirou-se então nos risotos maternos e criou a iguaria pela qual é famosa: o Risoto de Alcachofra acompanhado de Frango na Cerveja. Detalhe: as alcachofras são fresquinhas, plantadas ali mesmo, na horta, pelas mãos da própria cozinheira.

Já nos primeiros minutos de conversa, Beatriz vai rapidamente se transformando em Dona Bita, uma mulher otimista, forte e cheia de delicadeza. É terna ao recepcionar toda a gente em sua casa. É enfática ao defender os produtos gaúchos e não admite quem chega lá dizendo que vinho bom só pode vir de fora.

? Vinho nacional na nossa taça é comida na mesa do produtor rural. Temos que pensar nisso.

Para se divertir, o programa preferido são as viagens – com vinho e boa gastronomia, claro. Mas também adora leitura e cinema, temas que ocupam boa parte das conversas dela com Airton. Mas o mais divertido, mesmo, é quando reúne os filhos, os amigos e visitantes para um brinde.

Saúde, Dona Bita!

As últimas do Donna
Comente

Hot no Donna