De Aristóteles a Woody Allen, livro reúne três mil anos de frases machistas

Para Salma Ferraz, a publicação dá uma ideia do que os homens pensam sobre as mulheres

Ilustração do livro Dicionário Machista - Três mil anos de frases cretinas contra as mulheres
Ilustração do livro Dicionário Machista - Três mil anos de frases cretinas contra as mulheres Foto: Reprodução

Não há quaisquer dúvidas quanto ao efeito que as três grandes ondas feministas causaram: o mundo mudou. As relações de gênero, e os próprios gêneros, cada vez mais são submetidos à nova concepção (são pouco mais de 40 anos da revolução feminina), ainda que óbvia, de que somos todos diferentes mas iguais. Para isso, foi preciso ser radical.

No recém- lançado livro Dicionário Machista – Três mil anos de frases cretinas contra as mulheres, a doutora em Literatura Portuguesa Salma Ferraz concorda com esse radicalismo. Mais do que isso, afirma que, em pleno 2013, ainda há muito a ser conquistado. Dicionário… é uma compilação de frases machistas que vão desde citações de Aristóteles a dardos preconceituosos de Woody Allen, passando por frases de algumas mulheres, inclusive. É uma coleção de barbaridades distribuídas ao longo dos sombrios tempos de subjugação feminina, não há dúvida.

– Achei que, reunindo as frase num dicionário, poderíamos ter uma ideia mais seletiva do que os homens pensam sobre as mulheres e até mesmo do que as mulheres pensam sobre si mesmas. Mas o principal motivo é mostrar a estupidez e a irracionalidade do machismo – explica Salma.

Em entrevista ao DC por email, ela diz que “evoluímos em termos de direitos, mas ainda temos dois tipos de escravidão: a burca e a bunda”. Enquanto nos países onde o uso da burca é obrigatório essa prisão é visível, no Brasil temos uma escravidão mais subliminar, de mulheres dançando com o rosto para a parede e o derrière para plateia. É o que Salma chama de “hiperbunda midiática”, momento em que essas mulheres perdem a identidade, passam a ser designadas pelo formato de suas curvas baixas (“Mulher Moranguinho”, “Mulher Melancia”) e viram apenas um pedaço de filé.

O designer Diogo Rinaldi concorda quando Salma diz que existe um “machismo cordial” no Brasil, que disfarça as ações e as palavras. Ele passou oito de seus 32 anos morando nos EUA, e vê claras diferenças entre os comportamentos dos dois países.

– A sensação diluta de justiça no Brasil parece criar um campo, um limbo, muito maior do que nos EUA, onde o assunto beira a ilegalidade. Aqui parece existir uma bolha nas ações e falas cotidianas que soam como um passaporte diplomático. Nesse “diplomático” entram tanto a cordialidade quanto a imunidade legal – ele diz.

Os dados mais do que reafirmam esse machismo. Segundo um estudo do Conselho Nacional de Justiça apresentado em março desse ano, cerca de 44 mil mulheres foram assassinadas em todo o mundo na última década, representando um aumento considerável da violência contra a mulher desde os anos 90. O Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking mundial dos países com mais crimes praticados contra a mulher. Isso mostra que ainda é necessário estabelecer leis de proteção e promover mais intensamente a mudança na educação de gêneros. Mas ao mesmo tempo em que esse horror se desvela em pleno 2013, há gerações de mulheres que nasceram nesse contexto de maior igualdade e vivem uma experiência completamente diferente. A mestranda em Literatura Pollyana Niehues, 29 anos, namorada de Rinaldi, é taxativa:

– Não sou feminista, sou apenas mulher. Acho que foi um movimento de época, bonito e necessário naquele momento, mas acho que machismos e feminismos são vícios bobos de pessoas que se escondem atrás de alguns conceitos para legitimar responsabilidades ou irresponsabilidades.

Liberdade de escolha

São tempos diversos, em que dicotomias andam de mãos dadas. E talvez seja por isso que o livro de Salma, ao mesmo tempo em que caiba como crítica feroz ao machismo visível, seja também simplista demais ao abordar essas questões tão complexas. Grande parte das frases compiladas vem de séculos – e concepções de mundo – já muito distantes. A falta de qualquer análise ou proposta mais aprofundada na obra faz perguntar: a discussão já não está mais avançada do que isso?

A questão é que, hoje, muitas mulheres desfrutam da total liberdade de escolha. Algumas já clamam pelo ” direito de ser mulherzinha”, inclusive – com o espaço profissional conquistado e vivendo em círculos mais igualitários, elas exigem a liberdade de serem femininas sem serem tachadas de ignorantes.

É nesse contexto que Machistas… tem a proposta um tanto quanto parada no tempo. Se, para Selma, ainda é importante sublinhar tais pérolas, talvez para o avanço da discussão de gêneros seja mais importante pensar que a Mulher Melão teve liberdade de escolha – e decidiu ganhar a vida como um pedaço de filé no açougue.

Diz Rinaldi:

– Não sei se esse tipo de questionamento ( as frases do livro) vale alguma coisa. Dá sempre para avançar no diálogo. Eu não usaria o livro como referência para nenhum debate real e interessante.

A frase parte de alguém criado em um ambiente relativamente livre de machismos, como ele mesmo explica, e pode representar apenas uma das visões dessa grande salada. Mas vale como exemplo de um grupo de pessoas que querem mudar a marcha da conversa. Estudiosa e autora de manifestos e artigos sobre o assunto, Salma com certeza entende essas questões. Só não deixou transparecer na sua obra.

Pollyana ainda faz outro questionamento, intimamente ligado a essas mudanças:

– A mulher tem um desejo inalcançável, e me parece que a mulher moderna está tão infeliz quanto aquela que passava o dia no fogão. Talvez mais.

Mas essa é uma discussão para outro texto.

Serviço:
Dicionário Machista – Editora Jardim dos Livros – 176 páginas – R$ 19,90.

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