De passagem: as histórias de vida em um aeroporto

Espaço de encontros e despedidas, oportunidade para observar o comportamento alheio, motivo de tédio...

Foto: Ricardo Chaves

O mundo cabe em um aeroporto. Não apenas sua diversidade de sotaques, cores e estilos: os pequenos e grandes dramas humanos se desenrolam ali a todo instante. Não poderia ser diferente. Trata-se de um espaço idealizado para despedidas e reencontros, que combina sentimentos profundos, como medo da morte, saudade e desejos para o futuro, com aspectos comezinhos da vida contemporânea, pressa, filas, atraso, burocracia, espera.

Cada viagem pode ser a última. E também a mais inesquecível. Com a missão de registrar esse universo, o filósofo suíço Alain de Botton fez uma imersão no aeroporto de Heathrow, em Londres, que resultou no recém-lançado livro Uma Semana no Aeroporto. Donna desembarcou com essa mesma proposta no Aeroporto Internacional Salgado Filho, de Porto Alegre: bastaram duas tardes, no início e no fim do feriado, para registrar cenas e personagens com emoções à flor da pele. Leia as histórias a seguir como um convite: da próxima vez que você for a um aeroporto, chegue mais cedo. A viagem começa ali.

Espaço de encontros e despedidas, oportunidade para observar o comportamento alheio, motivo de tédio… O que o universo dos aeroportos significa para você?
:: Confira os depoimentos de artistas e personalidades e deixe sua mensagem no mural!

Passageiro: Beto Bruno, vocalista da banda Cachorro Grande
Escala: Porto Alegre, um dia antes de embarcar para Curitiba

“Não tenho mais nenhum romantismo em relação aos aeroportos. Estamos sempre viajando pelo país para tocar, e as pessoas pensam que é a vida de artista é maravilhosa: na verdade, o que conhecemos das cidades por onde passamos são os aeroportos e hotéis. Perdemos muito tempo nos aeroportos e, nos principais do país, acabamos conhecendo todos os donos das lojas de discos, as gurias que atendem nas livrarias, quem atende no McDonald’s, e sabemos dizer quais são os melhores restaurantes também. É supercansativo, não fosse essa amizade que a gente criou com essas pessoas.
Mas há ainda uma história meio pesada. Nós tínhamos passagens compradas para embarcar naquele voo que caiu em Congonhas, e aí fomos convidados para um programa da MTV um dia antes. E fomos, para São Paulo, no mesmo voo, no mesmo horário, só que um dia antes. Mas muitos (que não sabiam que eles haviam embarcado antes) chegaram a achar que a gente tinha morrido naquele acidente. Tenho guardado ainda os tickets do voo que caiu: toda vez que a gente entra naquele aeroporto, pensa que poderia ter estado lá naquele dia. Até hoje não havíamos divulgado isso para não parecer que estávamos nos aproveitando da história, ‘a banda que poderia ter morrido no acidente’. Era um momento de muita dor, e não queríamos isso. Ficamos muito mal com tudo que aconteceu.”

Passageiro: Tatata Pimentel, apresentador de TV
Escala: sua casa, em Porto Alegre

“Hoje, aeroporto não tem mais glamour: a quantidade de gente, de voos, de correria, de atrasos… Antes, tinha gente que nunca havíamos visto na vida. Eu passei dois anos estudando em Dakar, em 1961 e 1962, uma época em que só se ia para a Europa fazendo escala lá. E era um programa ir ao aeroporto à noite, ou mesmo de madrugada, porque o pessoal da alfândega deixava a gente passar para ir cumprimentar parentes e amigos que estavam em conexão para a Europa. Lembro também do aeroporto de Beirute, para onde fui duas vezes. Numa madrugada, chegou um jumbo da Air India e chegou todo mundo vestido a caráter: não havia ninguém com uma roupa ocidental. Se eu não podia ver o mundo, podia ver o mundo passando no aeroporto. Nesse tempo, aeroportos eram uma aventura, mas minha relação com o aeroporto foi mudando.
Na minha última viagem a Paris, em 2004, perdi o avião para o Brasil de propósito. Li que o voo era às 22h, mas era às 10h. Cheguei no aeroporto, soube que o avião já havia partido e fiz cara de surpresa. Paguei a multa e marquei a passagem para o dia seguinte. Então, passei 24 horas no aeroporto. Tinha hotel, tinha dinheiro, mas quis ficar. Queria a aventura. Achei que seria um entra e sai de pessoas. Mas não. Na parte da Air France, era apenas eu. E tudo fechou às 22h. Fiquei sozinho no aeroporto. Desligaram a calefação, e ficou muito frio. Fiquei sentado, lendo, não se ouvia nem o barulho de pássaros, porque era inverno. E ainda havia bruma: um filme dos anos 60 de Godard. Às 10h da manhã, tudo abriu novamente, e uma grande multidão entrou ao mesmo tempo, como se saída de um jogo de futebol.
O aeroporto mudou, porque o mundo mudou.”

Passageiro: Cristóvão Tezza, escritor
Escala: Roraima, onde acabara de chegar para participar de uma Feira do Livro

“Toda a minha experiência se limita a desenvolver técnicas de sobrevivência em espera de aeroporto. Sou meio paranóico com a ideia de perder tempo. Preciso aprender a fazer nada. E espera de aeroporto é fazer nada _ daí a leitura. Na verdade, tenho lido muito ultimamente em aeroporto e em avião, muito mais do que na vida real. Sempre levo dois a três livros. Começo a ler imediatamente depois de sentar diante do portão de embarque. Mesma coisa depois que me instalo no avião. É um modo de não pensar na viagem. Talvez para fugir do medo de avião.
Só tenho um temor: que o passageiro do lado me pergunte com o que eu trabalho. Quando eu era professor, era fácil. Agora sou só escritor, mas temo dizer a verdade porque isso vai complicar a sequência de perguntas e respostas. Só uma vez eu disse que era escritor, e o homem me olhou como a um extraterrestre, buscando desesperadamente alguma coisa para dizer em troca. No mais, tudo é espera.”

Passageiro: Zuenir Ventura, escritor,
Escala: Aeroporto Internacional Salgado Filho, rumo à Feira do Livro de Porto Alegre

“No aeroporto, tem a coisa do congraçamento, que é legal, mas tem o negócio das malas, que é muito chato: é uma relação de altos e baixos. É bom chegar, rever as pessoas, mas não é por acaso que quando alguém é chato, é chamado de mala.
Tem uma questão, para quem é escritor, de olhar as pessoas e ficar imaginando a vida de cada um. Minha última crônica foi sobre o uso do celular no aeroporto. Descrevi um personagem que falava tão alto que as pessoas foram deixando ele sozinho. Ele negociava com o Canadá e fala tão alto ao telefone, que eu achei que ele nem precisaria do aparelho. Acompanhei todas falas dele, até a bronca na filha…
Então, aeroporto rende crônicas.”

Passageiro: Nei Lisboa, músico
Escala: na fila do táxi do Aeroporto Internacional Salgado Filho, recém-chegado de São José do Rio Preto

“Aeroporto não é nada tão poético. Depende muito do que vem pela frente: se é um início de viagem promissor ou um retorno em um voo com atraso. Ultimamente, torço muito para que o equipamento chegue inteiro (há poucos dias ele havia enfrentado problemas com um violão que chegou totalmente danificado). Graças a uma rede de solidariedade que se fez, a empresa aérea teve de chegar a um acordo em relação ao violão e o substituíram por outro. Para mim, o melhor do aeroporto é chegar em casa.”

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