Dependência emocional de outras pessoas causa transtornos na vida pessoal

Veja o que os especialistas aconselham em determinados casos

Problema causa tristeza e tem origens na baixa auto-estima
Problema causa tristeza e tem origens na baixa auto-estima Foto: Stock Photos, Divulgação

Por se sentirem fragilizados, muitos indivíduos estabelecem uma relação de dependência com outras pessoas ou até mesmo objetos. Essas “muletas psicológicas” podem trazer conforto, mas, às vezes, são sinal de que algo vai mal. Nesses casos, a terapia é o tratamento indicado
 
Da mesma forma como as pessoas que têm alguma dificuldade para andar necessitam de algum suporte, como uma bengala, ao deparar-se com uma situação difícil, o ser humano procura se firmar em algo ou alguém para conseguir superar a fase complicada. Assim como o bastão, essas “muletas psicológicas” amparam quem não consegue seguir a vida com as próprias pernas.

Por encontrar-se emocionalmente fragilizada, a pessoa tem dificuldades de tomar decisões por conta própria, criando uma relação de dependência com esse fator externo que a faz se sentir mais segura. De acordo com a psicoterapeuta Márcia Mossurunga, o artifício é, até certo ponto, válido, pois representa um conforto psicológico. No entanto, se a alternativa encontrada para superar um sentimento traz constrangimento social ou cria um julgamento negativo a respeito de si mesmo, é sinal de que algo está errado. E, aí, é bom procurar ajuda de um profissional.

? O grande diferencial entre uma crise e uma situação contínua é quando você percebe que o poder de decisão está relacionado com outro, um objeto ou uma instituição ? diz Márcia.

Laura*, 49 anos, é um exemplo de como a relação de dependência com um fator externo pode passar do limite saudável. Durante a maior parte de sua vida, ela viveu em função do ex-marido.

? Fui dona de casa durante 20 anos. Não tive experiência de vida. E meu marido era muito presente ? conta.

Como vivia sempre dentro de casa, ela não tinha coragem de sair para a rua depois das 18h.

? Sempre tive medo de gente. Se meu marido estivesse por perto, eu sentia que estava firme, mas não conseguia ficar sozinha nem por meia hora.

O tratamento mais indicado para lidar com problemas como o de Laura é mesmo a psicoterapia, de acordo com a diretora do Conselho Regional de Psicologia da 1ª Região, Ana Paula Pongelupe.

? Por meio dela, a pessoa consegue analisar de onde surgiram os problemas, a insegurança e a dificuldade de lidar com as frustrações ? explica.

O tratamento, no entanto, não é imediato. Desprender-se da muleta psicológica de uma hora para outra não é fácil, porque, assim como alguém com problemas de locomoção pode cair ao soltar sua muleta, a pessoa emocionalmente abalada pode sofrer muito se perder seu apoio de uma hora para outra.

? Para ela não se sentir desprovida de repente, é preciso um trabalho de fortalecimento de personalidade, um resgate natural da autoconfiança. Assim, é possível que ela deixe as dependências, seja do álcool, das drogas ou do companheiro, por exemplo ? descreve o psicólogo Alberto Maury.

Segundo ele, como meio de identificar se a dependência está excessiva, é bom estar atento aos comentários dos amigos e familiares sobre os atos. Isso ajuda a pessoa a perceber se as atitudes estão avançando para um estágio fora do comum.

Transtorno
Em alguns casos, essa relação de dependência é tão grande que pode representar o que os especialistas chamam de transtornos obsessivos-compulsivos (TOC). Segundo explica Ana Paula Pongelupe, o TOC é a necessidade de contar com coisas externas para alcançar segurança interna.

? Elas transferem a necessidade de autoafirmação para outra coisa ? diz.

Autor do livro Vencendo o transtorno obsessivo-compulsivo, o psiquiatra Aristides Volpato esclarece que, enquanto a “muleta” é um atraso de desenvolvimento psicológico, o TOC é um distúrbio psiquiátrico, caracterizado pela presença de obsessões e/ou compulsões.

? Obsessões são pensamentos, imagens e ideias que invadem a mente contra a vontade. Então, para aliviar o medo ou a aflição, a pessoa se vê obrigada a tomar certas atitudes, que são as compulsões ? afirma.

Ele pontua as manifestações mais comuns: lavar as mãos o todo tempo, conferir portas e janelas para se sentir seguro, juntar objetos que poderiam ser descartados e ter pensamentos repugnantes, agressivos e impróprios.

Cordioli esclarece que o tratamento para a doença, além de terapia cognitivo comportamental, onde os pacientes entram em contato com os medos para, aos poucos, conseguir encará-los, há medicamentos inibidores da recaptação da serotonina, neurotransmissor que reduz os sintomas dos transtornos.

Ajuda necessária

A necessidade de precisar de algo ou alguém passa dos limites e torna-se dependência quando:

» As atitudes causam constrangimento social, prejuízo à personalidade ou julgamento negativo por parte de amigos e familiares

» O poder de decisão está relacionado com outra pessoa, um objeto ou uma instituição

» A pessoa apoia-se demais em amigos ou familiares para tarefas que deveria realizar sozinha

» O indivíduo não tem autonomia para agir

» A baixa autoestima inibe decisões

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