Dependência virtual prejudica crianças e jovens, alertam especialistas

Cyberdependência pode desligar o sujeito do mundo real, provocar lesões e cortar o elo com a vida social

Pais devem prestar atenção em como os filhos estão usando a web e os videogames
Pais devem prestar atenção em como os filhos estão usando a web e os videogames Foto: Divulgação

O tempo em que os pais se esgoelavam para fazer com que os filhos não ficassem na rua até tarde da noite já passou. Por incrível que pareça, hoje, o principal desafio de mães e pais é tirar as crianças de casa.

– Se deixar, ele fica em frente ao computador o dia inteiro, não vai brincar, não para nem na hora das refeições – conta a economista Isabella Pimenta, 30 anos, mãe de Diego, 9.

O menino faz parte de uma geração de crianças que, literalmente, nasceu com o computador na sala de parto. Especialistas alertam que o uso abusivo da web pode atrapalhar o desenvolvimento dos jovens e fazer com que eles não se preparem para viver a vida real.

O sinal amarelo deve acender quando a criança passa muito tempo livre conectada.

– Mas o tempo em si pode ser uma referência relativa. Vamos supor que o menino fique três horas por dia no computador. Se nesse período ele usa o messenger, faz pesquisa para a escola, baixa uma música, isso não é negativo. Ele está fazendo um uso amplo da ferramenta, acrescentando coisas para a vida dele – afirma a psicóloga Rosa Maria Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Ela explica que o uso das máquinas para o mesmo fim merece um alerta dos pais.

Se a criança usa o computador só para conversas instantâneas ou para jogar games online, pode começar a preferir o canal virtual a qualquer outra coisa.

– Não são os conteúdos disponíveis que mais ‘viciam’, mas sim o propósito que a pessoa tem na internet. Se está sempre buscando alguém para se relacionar apenas no mundo virtual, pode perder a capacidade de lidar com eventos do cotidiano – diz Cristiano Nabuco, coordenador do grupo Dependência de Internet, que funciona no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Há dois anos, o hospital atende pessoas viciadas (1) na rede mundial de computadores. Eles se reúnem uma vez por semana com especialistas para fazer o tratamento em grupo.

– No começo, achamos que essas pessoas teriam um grande interesse em material online de sexo. Mas observamos que o interesse nisso é bem menor se comparado ao foco nas redes sociais – destaca Cristiano.

Para meninos e meninas, esse tipo de situação é ainda mais prejudicial.

– Relações sociais mantidas somente por essas redes fazem com que os adolescentes fiquem cada vez mais refugiados, perdendo habilidades que só são desenvolvidas no dia a dia – ressalta o psicólogo.

O excesso de mundo virtual impede que a pessoa ganhe a capacidade de criar espaços de manobra em uma conversa, ou, até mesmo, perceba situações de perigo.

– O usuário da internet tem o controle total da situação, é só apertar uma tecla e fechar a janela. Essa sensação de poder acaba virando um desserviço para a formação dos jovens – aponta Cristiano.

Sob controle

Mas computadores e videogames não são vilãos. O problema, afirmam os especialistas, é a forma como as crianças utilizam os recursos eletrônicos.

– Toda vez que surge uma nova tecnologia, aparecem os mensageiros da desgraça dizendo que a novidade vai fazer mal. Foi assim com o carro, com o telefone, com o videogame, com o computador. Essas coisas vieram para ficar. As crianças estão apenas utilizando um recurso que está à disposição delas desde que nasceram – lembra o neuropediatra José Salomão Schwartzman, um dos maiores nomes do país em neurologia da infância e da adolescência.

Schwartzman afirma que há jogos para o desenvolvimento de jovens. Crianças com deficit de atenção podem usar os games para aprender a se focar em uma única atividade.

– Alguns jogos são feitos para crianças. Eu até prescrevo para os meus pacientes – diz o especialista.

O neuropediatra ressalta que é essencial aos pais saberem exatamente o que os filhos estão fazendo na frente do computador e do videogame e falar abertamente sobre os riscos do ambiente virtual.

Fuga do tratamento

No mês passado, jovens chineses fugiram de um reformatório para viciados em internet. O grupo amarrou o instrutor da instituição, que funciona com práticas militares, para não precisar participar do treinamento intensivo. A polícia prendeu 14 deles e 13 voltaram para o reformatório.

Um alerta

O neuropediatra José Salomão Schwartzman lembra que a “condenação” dos eletrônicos é uma fuga.

– Se eu deixo o meu filho só no PC porque não tenho tempo para estar com ele, o que faz mal não é o aparelho, mas a falta do pai, certo? – questiona.

Entre as características que marcam o perfil do viciado em internet, destacam-se o excesso de preocupação por estar distante do computador, pensamento fixo em jogos ou em conversas virtuais, desligamento do cotidiano, a ocorrência de sonhos com as máquinas. O usuário que utiliza em excesso a rede corre o risco de ter lesões por esforço repetitivo (LER), tendência à introspecção e prejuízos à vida social e profissional, advertem os especialistas.

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