Descubra como é a vida dentro de um spa

Passamos dias de hóspede no Kur Hotel e no Spa do Vinho, na Serra, para descobrir por que eles são referência no Brasil

A caminhada contra a corrente ativa a circulação das pernas (Kur Hotel)
A caminhada contra a corrente ativa a circulação das pernas (Kur Hotel) Foto: Leonid Streliaev

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1º Dia
A chegada ao Kur Hotel, em Gramado, estava marcada para domingo. Apesar de ter estado anteriormente no spa e saber que é considerado o sexto melhor do mundo pela revista Spa Finder, confesso que temia pelos dias de fome que estavam por vir. Meu consolo era de que seriam quatro dias de descanso em uma casa estilo colonial muito confortável e localizada em meio a um bosque na Serra gaúcha.
Já no check in, descubro que as coisas não seriam como eu previra. Munida de uma sacola de tecido com meu nome, garrafa plástica para água e a chave, fui encaminhada ao quarto, amplo e confortável. Na recamier, aos pés da cama, um pequeno baú de madeira trançada guardava um roupão e chinelos. Sobre a pia, creme para o corpo e espuma para o banho. Nem bem havia me instalado, o telefone toca. Do outro lado da linha uma voz me dá as boas-vindas e oferece um pequeno lanche. Lanche? Às 15h, em um spa? Preferi recusar e aceitar apenas um chá, que foi trazido junto com uma planilha que investigava meu histórico de saúde, nos mínimos detalhes, e o cardápio para que escolhesse o que comeria no dia seguinte. Três opções para cada uma das sete refeições do dia, muito além do que faço diariamente, mesmo na minha função de editora do caderno Gastronomia. O cardápio não inclui carnes vermelhas e há sempre uma opção com soja.
Outro telefonema me avisava que tinha uma consulta médica às 17h. De posse dos muitos exames solicitados anteriormente, lá me fui.
O diagnóstico do médico foi da necessidade de tratamentos contra estresse e para emagrecimento (800 calorias diárias). Dali, direto para o instrutor físico que faria minha programação de exercícios. Mal dá tempo de subir, tomar um banho e descer para o coquetel. Coquetel? Sim, espumante sem alcóol, sucos, canapés do tamanho de laranjas kinkans e ameixas pretas. O cardápio do jantar é comum a todos (sopa de aspargos, salmão ao molho de maracujá, batata assada com queijo, ervilha e milho e, de sobremesa (tem sobremesa), musse de iogurte. Na saída, uma mesa com chá encerra as atividades. De volta ao quarto, encontro duas folhas com toda a programação da segunda-feira. Às 21h30min, um garçom chega com a ceia: uma compota de frutas.
Não tenho o mínimo apetite, parece que não parei de comer desde que cheguei. Deve ser o efeito de umas pílulas à base de fucus vesiculosus, uma alga marinha que, uma vez no estômago, vira uma gelatina volumosa.
O efeito engana o cérebro e ajuda os pacientes a não se sentir esfomeados.


Chef de cozinha ensina os hóspedes a preparar receitas com baixas calorias para a manutenção do peso fora do spa

2º Dia
Todas as pessoas me chamam pelo nome, me sinto paparicada. São 120 funcionários, 25 deles da equipe médica, o que seria uma média de dois funcionários para cada paciente, se o spa estivesse lotado, mas somos apenas 15 hóspedes. Então, há sempre alguém querendo saber se dormi bem, se estou feliz, se meu intestino está funcionando perfeitamente ou se preciso de algo. Em qualquer dos ambientes há chás, quentes e gelados, à disposição: para relaxamento, para emagrecer e diuréticos. A recomendação é de consumir muita água. Menos durante as refeições.

Só no final do dia, exausta, percebi quantas atividades tinha feito. Comecei às 7h10min, com a ida ao ambulatório, de abrigo e tênis, para medir a pressão. Às 7h20min, café da manhã (pão integral, geleia, suco de abacaxi e café com leite) em mesas coletivas. Às 8h, saída para uma caminhada de uma hora. Na volta, o mais difícil: mesmo com a temperatura de 4ºC, andar descalça no caminho das águas, na área externa. Passei a entender o que sentem as focas ao mergulhar naqueles buracos de água supergelada no Polo Norte. Não servia de consolo a garantia do professor de que ativaria a circulação e evitaria qualquer dor muscular.

Sem tempo para me recuperar do choque térmico, corri para a aula de dança. Na verdade, uma aeróbica comandada por um professor ligado em 220 volts. A diversão era ver os homens, nada chegados naquela prática, tentarem coordenar os braços com um rebolado quase comprometedor. A saída é direto para um ambiente aquecido com lareira, onde é servido o primeiro lanche do dia (sopa de legumes). Uma conversa rápida com os colegas, a troca por roupa de banho, o famigerado roupão e os chinelinhos e me lanço à piscina para a aula de hidroginástica. Mais 45 minutos de exercício, banho rápido e almoço (mix de folhas verdes, repolho, peixe com molho, beterraba assada e outra sobremesa, abacaxi com molho de morango).

Sabe aquela sesta? Não tem. Às 13h30min, nutricionista. Às 14h, avaliação com a fisioterapeuta. Às 14h20min, mais um médico. Às 14h45min, uma avaliação corporal por imagem (um exame que revela a quantidade e a localização das gorduras). Que medo. Às 15h, lanche (uma rodela de abacaxi com raspas de limão). Nos lanches da tarde, não importa onde você estiver, um funcionário vai encontrá-lo – por telefone, na academia, no centro de estética – e servi-lo.

Saio dali direto para uma conversa com a psicóloga, que me fala de um programa de técnica cognitiva para o emagrecimento. Uma espécie de treinamento que mudaria a forma de lidar com o processo de emagrecimento, algo cerebral. Meia hora depois, avaliação com a dermatologista. Às 16h, massagem. Às 17h, lanche. Dessa vez, duas míseras castanhas-do-pará. Os olhos das colegas já começam a cobiçar o pacotinho de castanhas dos homens, que desgraçadamente para nós, têm um metabolismo corporal que lhes permite comer bem mais. Mas, sem tempo para pensar no assunto, vou para uma salinha onde mergulho em uma banheira de hidromassagem fantástica. Dá vontade de dormir. Mas não há tempo, às 17h30min já estou conversando com a esteticista. Às 18h, um aparelho (pedilúvio) em que mergulho alternadamente as pernas em água quente (sete minutos) e em água gelada (30 segundos). Para ativar a circulação. Meia hora depois, em uma sala com música e pouca luz, recebo placas quentes nas costas e nos ombros para combater o estresse. Confesso que cochilei. Um banho rápido antecede o jantar (sopa de ervilha, soja à primavera e pera com calda de laranja).

Por baixo da porta do quarto, chega a programação da terça-feira: a manhã é sempre reservada aos exercícios físicos, à tarde, relaxamento e cuidados com a estética, são 10 tipos de massagens diferentes.

3º Dia

Os encontros com os outros hóspedes são sempre rápidos, devido às diferentes atividades. Só caminhadas, aulas de ginástica e de dança são feitas coletivamente. E, mesmo assim, dependendo do programa escolhido. Na hora do almoço, o assunto preferido à mesa é comida, e calórica. Tem gente magrinha fazendo dieta, contando calorias e se lamentando. O dia começa com uma nova maratona: pressão, café da manhã (mamão, granola com iogurte no lugar do pão e café com leite), caminhada, circuito de caminhada na água gelada, aula de dança, lanche (sopa de beterraba), hidroginástica e, antes do almoço, uma aula de culinária. O chef de cozinha ensina o preparo de um salmão com palmito. Uma mulher faz chantagem e amaeaça desmaiar de fome. Não tem paciência para aprender a receita e quer almoçar logo. Só ao final da aula o almoço é servido. O meu é composto de sopa de cenoura, frango com cogumelos, legumes e frutas assadas no papillote com vinho.

A seguir, mais um médico, uma atividade numa tal de cadeira de harmonização, lanche (kiwi), uma série de tratamentos no circuito das águas (banho de iodo, de sal, caminhada contra a corrente, banho gelado de espuma com creme), placas quentes nas costas e nos ombros, outro lanche (só dois damascos e duas avelãs), pedilúvio, sauna e jantar (sopa de abóbora, codorna recheada com cenoura e repolho, folhas verdes e flan com calda de ameixa). Às 20h, uma aula de dança de salão muito divertida. As mulheres também formam pares. São apenas quatro homens para 11 mulheres. A noite termina com a tradicional ceia: duas fatias de laranja.

4º Dia

O humor das pessoas começa a mudar. Já não são vistos tantos sorrisos. Há quem reclame de insônia, de fome e de tédio. Fico pensando em como serão os próximos dias. Só eu sairia na quarta-feira. Os demais ficariam até domingo. Três jovens, entre elas uma gordinha paulista, resolvem cabular atividades e ir passear no centro de Gramado. Recusei o convite de acompanhá-las, preferi me manter fiel à programação. A gordinha volta com um abrigo rosa novo e caixas de chocolate (para presentear os funcionários). Uma senhora pergunta, chocada, se é permitido entrar com chocolate no hotel. Descobre, então, que não há proibições. Afinal, ninguém vai pagar um pacote (o mais barato custa R$ 3.960, por quatro dias), para comer chocolate.

Repete-se a maratona. Pressão. Café da manhã (pão integral, uma pastinha de gosto indefinido no lugar da manteiga, suco de goiaba e café com leite), caminhada, a tortura do caminho de água gelada, aula de dança, lanche (sopa de espinafre), uma massagem chamada Cléopatra (coisa de rainha, com esfoliação, óleo e leite de cabra quentinho, corpo envelopado com papel alumínio e um cobertor).

Saio com a pele lisinha e brilhante. Depois, hidroginástica, almoço (salada agridoce com kanikama, frango com legumes e um creminho de abacaxi), as placas quentes, o pedilúvio, lanche (espetinho de frutas), massagem, banheiro de hidromassagem, hidratação facial com fio de seda, lanche (duas ameixas e duas nozes) e yoga.

Como minha saída estava marcada para aquela quarta-feira, passei pela avaliação médica e ganhei um jantar especial mais cedo (sopa de abóbora, peixe com espinafre e creme de laranja). Me ofereceram para levar a ceia. Recusei. De volta para casa, 1,4 Kg mais magra e com 2cm a menos nas medidas, começo a ter respostas para a pergunta que me levou ao Kurhotel: por que artistas, VIPs e até quem não é tão abonado gasta tanto dinheiro (um pacote pode custar R$ 12 mil) para passar uma semana em um spa onde a comida é racionada.

O primeiro trunfo do Kur é que os pacientes não sofrem com a falta de comida. São sete refeições, quatro pequenos lanches. O segundo, as pílulas fitoterápicas que reduzem a sensação de fome. A terceira é que os pacientes têm tantas atividades que sobra pouco tempo para pensar em comida.

E conta, ainda, o fato de os funcionários darem a impressão de que cada pessoa é única, um rei ou rainha com 120 súditos para servi-los.

Bem-estar para todos

A maioria das pessoas que escolhe hospedar-se no Hotel & Spa do Vinho Caudalie, no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, não tem como objetivo perder peso. Nunca vi serem servidos tantos croissants quentinhos, logo besuntados de manteiga, em um só café da manhã. E o cardápio do restaurante, com muitas tentações da gastronomia francesa, desafia a boa forma. Tudo porque é grande o número de pessoas que utilizam o complexo apenas como hotel.

É estranho cruzar nos corredores ao mesmo tempo com executivos engravatados que vão à região para realizar negócios e pessoas de roupões brancos e chinelos que circulam entre sessões de massagem e tratamento facial ou um banho na piscina térmica de água natural. Os que frequentam o spa estão em busca de mudanças estéticas, mas não necessariamente de peso, e recebem um atendimento cinco estrelas no primeiro franqueado na América Latina do spa e laboratório francês Caudalie, com franquias em seis países. É importante ressaltar, no entanto, que o Spa do Vinho, ao contrário do que pode parecer, não utiliza a bebida de Baco nos tratamentos, e sim os polifenóis extraídos do mosto da uva após o processo de vinificação. Estariam nessas substâncias as propriedades terapêuticas. Com elas, muitos cremes, esfoliantes e óleos aplicados no rosto, no corpo, durante a vinoterapia.

O espaço destinado à vinoterapia tem acesso distinto do utilizado pelos hóspedes do hotel. Na recepção, também separada, é possível fazer uma avaliação e a escolha dos tratamentos detalhadamente explicados. Nos intervalos entre uma prática e outra, é hora de relaxar no solarium com a bela vista panorâmica do Vale dos Vinhedos, degustando uvas frescas, chás e água aromatizada.

São diferentes formas de acesso aos programas do spa. No Menu à La Carte, a escolha é por cada uma das técnicas. A massagem Pulp Friction, por exemplo, dura 50 minutos, custa R$ 170 e é feita com um esfoliamento com uvas aquecidas e óleos essenciais. Outra possibilidade é a Carte du Jour, que dá livre acesso pelo período de um dia, recomendado para quem deseja usufruir de terapias específicas, e os Programas Vinoterápicos, de um a seis dias, que seguem uma sequência personalizada.

Um exemplo é o Sommelier (R$ 570), programa de um dia dedicado aos homens, que oferece um banho vinoterápico com massagem craniana, esfoliação, massagem, tratamento facial e almoço. Outro, também de um dia e seis diferentes tipos de tratamento (banho, envelopamento, esfoliação, massagem, tratamento facial e massagem especial), custa R$ 900.

Quem deseja se desintoxicar e perder um pouco de peso pode optar por terapias, que incluem desde drenagens até o combate à celulite. Esses programas exigem pelo menos dois dias de estadia e tratamento. Por dois dias, o custo é de R$ 2.140, e por seis, R$ 6.420. Se a opção for de sexta a domingo, haverá um acréscimo de 25% nos custos. Depois de um período de estadia no Spa, que confesso foi acompanhado de almoços, jantares e degustações de vinho, não tive a coragem de me pesar. Mas que saí de lá com uma pele macia e brilhante e totalmente relaxada, ah, isso saí.


O Spa do Vinho não utiliza a bebida nos tratamentos, mas polifenóis extraídos do mosto da uva após o processo de vinificação

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