Dia da Mulher: emancipação da mulher reflete-se na configuração familiar

Veja entrevista sobre o tema com Carlos Dias Lopes, da entidade ParticiPais

Em caso de separação, os pais devem reestabelecer os limites regularmente
Em caso de separação, os pais devem reestabelecer os limites regularmente Foto: Júlio Cordeiro

A maior parte das separações judiciais no Brasil (76,2%) ocorre de forma consensual. Nos casos não consensuais, a maior parte dos pedidos de separação é feito pelas mulheres (71,7%), segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).Os dados se referem ao ano de 2008.

Tais dados são reflexo das mudanças na sociedade especialmente em relação à emancipação feminina. Tal nova postura gera como consequência um maior número de separações e, portanto, filhos de pais separados. Saiba mais sobre o assunto na entrevista a seguir com Carlos Dias Lopes, um dos fundadores da ParticiPais (Associação pela Participação de Pais e Mães Separados na Vida dos Filhos) e atual diretor da associação. A entidade é sediada em Brasília, formada por pais e mães que vivem separados dos seus filhos e buscam uma participação efetiva na criação de sua prole.

Pergunta ? Que comportamentos (ou mudanças de comportamento, ou ainda leis que alteraram comportamentos) foram marcantes nos últimos anos no que diz respeito a família e filhos?
Carlos Dias Lopes ?
Na base, houve a saída da mulher do lar, a chamada emancipação da mulher. E isso, além de reflexos econômicos, tem, claro, outras implicações. A mulher hoje que é independente financeiramente do marido não pensa duas vezes em dar fim a um casamento que não lhe satisfaça. É estatística: elas pedem mais a separação do que os homens. Se antes a mulher tinha que “aturar” um casamento porque não havia opção, hoje elas têm opções ? e as buscam. Como resultado, há muito mais crianças e adolescentes vivendo na condição de filhos de pais separados. E, por consequência, um aumento no volume de problemas advindos dos desentendimentos do ex-casal e também maior empenho na busca por soluções. Nesse ambiente, se inserem soluções recentes que vieram para equilibrar as relações e os direitos sobre os filhos para mulheres e homens separados. A lei da guarda compartilhada, a lei que pune aquele que deliberadamente afasta o filho de um dos pais (a chamada alienação parental), as regulamentações regionais (no Distrito Federal existe uma) que exigem que a escola envie ao pai que não vive com a criança informações sobre a vida escolar dela são as mais notórias. Mas há mais, como o artigo do novo Código Civil que determina que em caso de separação o filho do casal fique com aquele pai que melhor tenha condições de cuidar dele. E não podemos deixar de citar também o próprio surgimento de associações como a ParticiPais, da qual atualmente sou diretor, onde homens e mulheres com o problema comum de repentinamente se verem afastados dos filhos pelo fim do casamento se juntam para buscar soluções, tanto simples quanto sofisticadas, para poder continuar acompanhando a vida da prole.

Pergunta ? A ParticiPais tem números recentes sobre guarda dos filhos de pais separados? É possível compará-los com estatísticas mais antigas? O que se pode concluir?
Carlos ?
 Não temos números. Mas pelo que podemos acompanhar na prática, ainda é bastante reduzido o número de filhos menores que estão sob a guarda formal de pais homens. Por outro lado, também com base na prática, podemos notar que os homens se apresentam cada vez mais interessados em estabelecer regimes de companhia mais equilibrados com os filhos depois da separação. Ao menos aqueles homens mais esclarecidos têm procurado fugir do tradicional um fim de semana a cada 15 dias para estar com os filhos. O novo pai se informa e, junto com a ex-mulher, tenta chegar a arranjos mais racionais em termos de tempo e qualidade de convivência com os filhos. Quem ganha é a prole.

Pergunta ? Como vocês veem hoje a família brasileira (responsabilidades, educação dos filhos, planejamento, distribuição de tarefas etc.) e como acreditam que ela será caracterizada daqui, digamos, 30 anos? Já há indícios de algum tipo de comportamento que deve se desenvolver mais adiante?
Carlos ? 
Em primeiro lugar é perceptível que as famílias estão migrando dos espaços públicos abertos para os shoppings, dos esportes coletivos para os jogos eletrônicos de matança, da colaboração nas lições e compromissos escolares para a terceirização total da Educação. Isso posto, o cenário que se avizinha não seria dos mais auspiciosos. O que vemos são pais e filhos cada vez mais afastados mais cedo na vida. Como exemplo dessas distorções, posso citar o famoso intercâmbio. Às vezes, os filhos nem querem ir estudar no exterior, mas são obrigados pelos pais porque o filho do amigo está fazendo intercâmbio no Canadá, EUA ou onde quer que seja. Ok, vamos admitir que essas sejam contingências inescapáveis da vida moderna. Mas não podemos fugir de nossas preocupações como responsáveis por seres que vão levar 18, 20 anos de vida, ou até mais, para amadurecer. Assim, para que o papel da família continue relevante dentro de 20, 30 anos (para além do papel de mera provedora material em que está se transformando), seria importante nos focarmos como pais em preparar a prole para ter escrúpulos. Então vejo o pai e a mãe de família como pessoas que devem chamar a atenção dos filhos para esteios de comportamento e convivência que precisariam se manter sempre em evidência, como respeito pelo próximo, responsabilidade, consciência dos atos, cuidado com a própria integridade e com a do próximo, amor à natureza. Focar o filho em ter escrúpulos deve ser uma labuta diária dos pais de hoje e do futuro.

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