Dicas para decidir quando e onde fazer cirurgia plástica

Consórcios podem banalizar os procedimentos e aumentar complicações

Fernanda, 25 anos, economizou durante seis meses para pagar a plástica
Fernanda, 25 anos, economizou durante seis meses para pagar a plástica Foto: Tadeu Vilani

Dez meses depois de ter o segundo filho, Maria Cristina Schroder Hailliot, 40 anos, voltou a procurar um médico. Desta vez, não estava preocupada com os cuidados da saúde da caçula, mas com a ideia fixa de ter de volta o corpo – ou pelo menos parecido – dos tempos pré-gravidez.

O alvo será o abdômen. Maria fará uma completa cirurgia plástica para tirar as estrias e os excessos. Apesar da complexidade da operação, está tranquila. A preocupação veio apenas na hora de escolher um médico. Resolveu seguir a experiência e consultar o mesmo profissional que fez a primeira cirurgia, há nove anos, após o nascimento do primeiro filho. Para chegar ao profissional ideal, a funcionária pública pediu referência para outros médicos, amigos, parentes e buscou a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

– Como não senti dor alguma na época, vou continuar com o mesmo médico. Fiquei muito feliz com o nascimento da Vitória, mas não com as consequências sofridas pelo meu corpo. Quero dar um jeito – explica Maria, que atuou como modelo de passarela em sua adolescência.

O roteiro seguido por Maria para escolha do médico é saudado por especialistas e deve ser cumprido para evitar as temidas complicações após intervenções estéticas. Além do mau resultado de plásticas que podem deformar em vez de embelezar, a preocupação dos especialistas com a segurança dos procedimentos recebeu um ingrediente adicional com a recente decisão do Banco Central que incluiu as cirurgias plásticas no rol de serviços que podem ser pagos por meio de consórcios. A alternativa deve ampliar a procura por correções estéticas, e cirurgiões temem uma banalização da técnica – e um possível aumento do número de complicações e mortes no pós-operatório.

– Muitos consórcios forçam os pacientes a serem atendidos apenas por poucos médicos credenciados. Acaba que se fica sem a liberdade de escolher os profissionais mais competentes e experientes – critica o cirurgião André Hermann, do Hospital Moinhos de Vento.

Hermann também teme que o acesso fácil intensifique a realização de cirurgias desnecessárias, feitas apenas para reparar problemas muito sutis ou que podem ser resolvidos por outros meios.

– Lipoaspiração não é dieta. É indicada para retirada de gordura localizada. Muita gente pode resolver seu problema mudando a alimentação ou com exercícios físicos – afirma o cirurgião.

Para quem realmente precisa de uma ajuda da cirurgia plástica deve prestar atenção em alguns pré-requisitos antes de se render ao bisturi. O vice-presidente da SBCP, Carlos Uebel, alerta que os pacientes fiquem atentos às condições do local onde o procedimento será realizado.

– Deve-se confirmar se o local tem sala de recuperação, esterilização, equipe com anestesista, assistente médico e equipe de enfermagem de alta experiência e capacitação. Nunca faça cirurgia em consultório. Faça em clínicas bem equipadas ou em hospital – orienta.

Paciente deve ser livre para escolher o cirurgião

Quem deposita nos consórcios a única esperança de acertar o nariz, tirar a gordura extra ou esticar a pele encontra nos empresários do setor os grandes defensores da ideia. Eles garantem que a alternativa não trará riscos aos pacientes.

O presidente regional da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), Marco Aurélio Müller, acredita que os consórcios vão democratizar o acesso às cirurgias plásticas nos mesmos moldes que ajudaram muita gente a ter o primeiro carro ou a primeira casa e rebate as críticas dos especialistas receosos com a nova forma de pagamento. Ele assegura que as administradoras não vão limitar as alternativas de médicos para os clientes. Segundo ele, o dinheiro poderá ser usado para realizar a operação em qualquer profissional.

– Pode ser até no Pitanguy (Ivo Pitanguy) se a pessoa quiser. Na verdade, ela vai escolher a quantia que precisa, vai entrar no consórcio que mais lhe agrada e, quando for contemplada, vai pegar o dinheiro e ir onde achar melhor – defende.

Para evitar que a inclusão das cirurgias plásticas nos consórcios comprometa a saúde dos brasileiros, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) protocolou, em fevereiro, um pedido ao Banco Central (BC) para que sejam feitas garantias e exigências para que as administradoras não limitem o número de profissionais, mas deixem o cliente livre para escolher o médico de sua preferência. O debate, porém, não deve impedir a organização dos consórcios que, apesar de autorizados, devem começar a oferecer a opção a partir do mês que vem, em Porto Alegre.

– Há algumas décadas, quando começaram os planos de saúde, as discussões e controvérsias foram as mesmas. Hoje, a maioria das pessoas tem o seu convênio e se consulta com os médicos de sua escolha – lembra o cirurgião plástico Carlos Uebel.

Enquanto a opção dos consórcios não é lançada, o cirurgião plástico André Hermann, do Hospital Moinhos de Vento, sugere que pessoas sem condições econômicas para custear uma operação estética à vista busquem financiamento no banco ou reserve parte do salário mensalmente. A segunda sugestão foi adotada pela contadora Fernanda Prüfer, 25 anos. Em 2007, ela resolveu fazer uma cirurgia estética para melhorar a autoestima. Como não poderia fazer o procedimento por meio de convênio médico, reservou um pequena parte do seu salário durante seis meses.

– Era algo que queria muito. Não deixaria a questão financeira me atrapalhar. Então, me planejei, fiz a cirurgia e agora estou feliz com o resultado – comemora.

Soropositivos recorrem ao bisturi

Cirurgia plástica não é apenas uma questão de vaidade, mas uma aliada para quem convive diariamente com o preconceito. É o caso de pacientes portadores do vírus HIV, que começam a frequentar os consultórios de cirurgiões para readquirir a autoestima combalida pela doença. O assunto será um dos da mesa redonda no 10º Simpósio Internacional de Cirurgia Plástica, que será realizado em São Paulo, entre os dias 20 e 22 de março.

Apesar de serem os grandes responsáveis por prolongar a vida dos soropositivos, os retrovirais trazem graves problemas estéticos. Um deles é a lipoartrofia da face, que deixa o rosto com aspecto esquálido. Muitos infectados deixam de lado a vida social de lado, comportamento que pode levar à depressão, por causa da aparência do rosto. Esse efeito que pode ser devastador pode ser revertido com uma cirurgia.

– Faz-se uma lipoescultura da face com enxerto de gordura, obtido do próprio paciente, extraído da região do abdômen ou parte interna dos joelhos. Essa gordura é injetada no tecido subcutâneo e modelada de acordo com as depressões sofridas nas regiões das bochechas e das têmporas. Com isso, podemos devolver o contorno natural da face – explica o cirurgião plástico Carlos Uebel, coordenador do simpósio.

Nas regiões da nuca e do abdômen ocorre o inverso do efeito no rosto. Em vez do aspecto de magreza, há um acúmulo de gordura. Nesse caso, a cirurgia indicada é lipoaspiração. Porém, portadores de HIV requerem cuidados especiais. Devem estar bem de saúde, com a coagulação normal, sem a infecção aguda e não podem ser diabéticos.

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