Djavan confessa: “Eu canto mesmo é sobre a mulher dos outros”

Em seu mais recente álbum, Djavan canta sobre aquilo que mais conhece, o amor

Foto: Tomás Rangel

Em 1999, eu havia completado 18 anos, acabara de entrar na faculdade e conseguido tirar carteira de habilitação. Estava, portanto, no início daquele dolorosa transição de adolescente para adulto. E talvez por isso ou além disso , cultivava uma ansiedade quase patológica que me trazia uma série de problemas. O maior deles, claro, era no trato com as mulheres. Desprovido de atributos naturais e incapaz de estabelecer qualquer conexão (in)decente com o sexo oposto, cultivava a certeza juvenil de que morreria só. Pior: virgem. Até que um grande amigo me aconselhou:

– Ouça Djavan. Melhor: tenha sempre um CD do Djavan por perto. Vai por mim, não falha.

Coincidência ou não, naquele ano o alagoano lançava a coletânea Ao Vivo, um disco duplo com seus maiores sucessos. Estava tudo ali: Samurai, Azul, Nem Um Dia, Oceano, Lilás, enfim, só os hits que Djavan havia emplacado na TV e rádio.

Corta para 2012. Sentado em um sofá na sede da gravadora Warner, no Rio de Janeiro, entrevisto Djavan, por conta do lançamento de seu último álbum, Rua dos Amores. É seu primeiro trabalho de inéditas em quatro anos e estreou direto no primeiro lugar no iTunes entre os discos mais baixados – uma prova incontestável de que sua poesia continua afiada e com público cativo.

O tema não poderia ser outro que não o amor.

– É impossível fugir do amor, que é o sentimento condutor da vida. Para ser imune ao amor seria preciso ser imune à vida.

Por isso Rua dos Amores é uma coleção de histórias de amor. São histórias que terminam mal (Já Não Somos Dois), histórias que ainda não terminaram (Quinze Anos), histórias que terminaram bem (Quase Perdida) e um inédito olhar feminino (Ares Sutis). Todas ampliadas pela lente de trovador de Djavan, que coloca a mulher como musa e objetivo maior – recurso que utiliza desde o primeiro disco, de 1976, com suas Marias de Flor de Lis e Maria das Mercedes. E segue com Nereci (1978), Rosa (1980), Ana (em Asa, de 1986) e tantas outras.

– Eu canto mesmo é sobre a mulher dos outros – gargalha, explicitando sua faceta mais óbvia de trovador. – Fico feliz quando minhas canções, significam algo para a vida de quem ouve.

Não me contenho e confesso que foi graças a ele e ao seu disco ao vivo que, lá no longínquo 1999, eu consegui superar a inalcançável barreira que me separava do sexo feminino e, enfim, desfrutar do amor como se deve. Ele ri mais alto ainda. Pergunto que tipo de conselhos daria para quem sofre a mesma situação que vivi nos meus 18 anos. Djavan sorri e diz que, a apesar do que sua música possa sugerir, ele pouco entende do assunto. Mas arrisca:

– Acho que para uma união dar certo é preciso uma conjunção de coincidências. É preciso compartilhar o sentimento, o diálogo tem que ser constante e, principalmente, haver uma admiração intelectual. Você precisa admirar a mulher que está contigo pelas ideias e pela visão que ela tem do mundo. E tentar manter a relação sempre viva, sempre quente.

Pode ser que funcione. Mas, em todo caso, melhor ter um CD do Djavan à mão.

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