Documentário “O Louco amor de Yves Saint Laurent” fala da trajetória do estilista

Filme sobre relacionamento de YSL com Pierre Bergé atrai elogios da crítica

Foto de arquivo do estilista Yves Saint Laurent, morto em 2008
Foto de arquivo do estilista Yves Saint Laurent, morto em 2008 Foto: Banco de Dados

Foi por meio da avó de seu filho que Pierre Thoretton conseguiu ingressar na intimidade de Pierre Bergé. Mas, logo, ele próprio conquistou sua estima, a confiança e passaram, religiosamente, a se encontrar uma vez por semana ? às quintas-feiras ? para almoçar. Colocavam os assuntos em dia, não apenas os íntimos. Thoretton é escultor, Bergé, além de industrial e de ter sido companheiro do estilista Yves Saint Laurent por meio século, sempre foi muito ativo no meio artístico francês. Ele foi fundamental no processo de reconhecimento do pintor Bernard Buffet (1928-1999), por exemplo.

Conversavam sobre tudo e, numa dessas conversas, surgiu a ideia de um filme sobre a longa ligação de Bergé com Saint Laurent, cujo império ele também consolidou. O estilista morreu em 2008, aos 71 anos. Thoretton esclareceu seu motivo para Bergé. Hoje em dia, ninguém, a começar por ele próprio, ingressa num casamento com a expectativa de ficar ligado a outra pessoa por 50 anos, e isso não depende do tipo de união, seja hetero ou homo. Thoretton divorciou-se da mãe de seu filho ? Chiara Mastroianni, a avó é Catherine Deneuve ? e está, por quanto tempo ele não sabe, casado com a viúva do lendário produtor Daniel Toscan du Plantier.

Como foi possível viverem tanto tempo juntos? Até por confiar em Thoretton, Bergé, que lhe pedira uma semana para pensar, concordou. A primeira sessão gravada de entrevista ocorreu na mansão de Marrakesh. Thoretton fez a primeira pergunta, Bergé, ao invés de responder, olhou-o nos olhos e disse, muito calmo ? “Estou muito velho para perder tempo com tolices. Se suas perguntas forem todas desse nível, é melhor terminarmos aqui e agora.”

A sessão recomeçou. O resultado é um filme que tem corrido muito, coberto de elogios da crítica e atraindo numeroso público. Para Thoretton, investigar o louco amor de Yves Saint Laurent e Pierre Bergé lhe forneceu as chaves para entender a si próprio.

E o que você aprendeu nesse processo?
Uau, estamos começando pelo final, o que é uma forma interessante de propor uma conversação. Fica bem cinematográfico. Terei de fazer um flash-back, quem sabe vários flash-backs. Quando digo que não foi só o tipo de curiosidade pelas personas de Saint Laurent e Bergé que me levou a fazer esse filme, estou sendo absolutamente sincero. Embora com altos e baixos, eles viveram juntos por meio século. Construíram um patrimônio considerável. A coleção de ambos, as obras de arte, conta-se entre o que de melhor a iniciativa privada conseguiu reunir na França, e no mundo. Não falo só de patrimônio material e artístico, a fazenda na Normandia e o castelo no Marrocos, coberturas em Paris e Nova York. Me interessava a questão do afeto, o apoio mútuo. Como duas pessoas conseguem viver e se apoiar tanto tempo? Independentemente do sexo ou do tipo de união, a história de amor de Saint Laurent e Bergé é uma das grandes love stories do século 20.

Você é artista plástico. Uma escultura se vê de diversos ângulos. Você também queria ver essa história ? e a vida de Bergé e Saint Laurent ? de diversos ângulos?
Já conhecia suficientemente Pierre (Bergé) para intuir o que ele poderia me contar, mas precisava ouvi-lo. Ele é o narrador, mas adoto o meu ponto de vista de diretor, pois a estrutura sempre esteve meio pronta na minha cabeça. Queria construir o filme em torno à dispersão dos bens da dupla, usando o leilão da Christie’s como fio condutor. Queria que Pierre terminasse num castelo despido de seus bens, reduzido ao essencial, um homem e suas memórias.

É uma ideia de mise-en-scène, e o filme é pródigo nelas. Por exemplo, a cena do carro em Nova York, a chuva que escorre pelo vidro como lágrimas. Aquilo é de verdade?
ê, mas mesmo trabalhando no registro do documentário eu confesso que não teria problema em trapacear, fazendo chover artificialmente sobre o carro. Principalmente num meio como o cinema, o artifício soma à realidade e, no limite, é o que importa. Meu próximo filme será uma ficção e, de alguma forma, eu acho que já me exercitava, fazendo esse documentário nas bordas da ficção.

Uma coisa que me impressiona é a calma de Bergé, a modulação de sua voz. Como foi o processo de captação de L’Amour Fou (O Amor Louco)?
Tivemos seis sessões de entrevistas ao longo de quatro meses e em diferentes lugares. Pierre também me abriu a coleção particular de fotos de Saint Laurent, os objetos pessoais, os filmes domésticos. Não foi fácil debruçar-me sobre 100 mil fotos, o que, aliás, não fiz sozinho, nem poderia. Esse foi um filme de parcerias, de cumplicidades. O conceito e a autoria são meus, mas muita gente colaborou, muita gente que nem sabe quão preciosa foi sua colaboração. Mas o filme não existiria sem a generosidade de Pierre.

E como foi a recepção na França?
Imaginava que fazia um filme para o público de moda e me surpreendi quando “O Louco Amor de Yves Saint Laurent” atraiu um público numeroso, principalmente jovens. A crítica também foi generosa com o filme, embora deva assinalar que Pierre Bergé não é uma unanimidade. Até por sua atividade como mecenas, e como industrial, ele colecionou algumas antipatias e seus inimigos aproveitaram seu depoimento como eixo do filme para acertar velhas contas.

A própria ideia do leilão na Christie’s propicia uma reflexão interessante de Bergé. Ele diz que, se tivesse morrido antes de Saint Laurent, o estilista não leiloaria o patrimônio comum, como ele estava fazendo.
É verdade. Os dois possuíam diferenças muito grandes de temperamento, mas conseguiram provar que elas não eram tão amplas a ponto de prejudicar a relação. Saint Laurent era um gênio, Pierre era outra espécie de gênio. Um era um artista, maníaco, depressivo. O outro o amava e resguardava, inclusive de si mesmo. Saint Laurent precisava mais dessa beleza ao seu redor e não se desvencilharia dela. Mas acho sensacional que Pierre não tenha querido se desfazer do retrato de Saint Laurent por Andy Warhol. Acho que isso diz muito sobre sua personalidade, também.

O LOUCO AMOR DE YVES SAINT LAURENT
Nome original: L’Amour Fou. Direção: Pierre Thoretton. Gênero:
Documentário (França/ 2010, 100 minutos). Censura: Livre.

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