Documentário retrata a vida do ícone dos sapatos luxuosos, Manolo Blahnik

Lauren Fleishman, divulgação
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Por Dana Thomas, The New York Times

Tudo começou há 46 anos.

O artista e escritor de moda britânico Michael Roberts conta que estava a caminho da Feathers, boutique da pioneira Joan Burstein, em Londres, quando “uma pessoa ensandecida veio correndo, do outro lado da rua, ziguezagueando no meio dos carros”.

– Era eu! Fazia isso com todo mundo que queria conhecer – exclama o estilista de sapatos de luxo Manolo Blahnik, dono da casa em estilo georgiano em Marylebone onde os dois homens se viam reunidos, tomando chá.

Ele conseguiu o que queria e, na segunda semana de setembro, o ponto alto dessa amizade, Manolo: The Boy Who Made Shoes for Lizards, documentário dirigido por Roberts, estreou. O filme é uma colagem colorida de imagens de arquivo hilárias, curtas dramáticos poéticos, momentos íntimos de Blahnik e entrevistas surpreendentemente tocantes de pesos-pesados da moda, como a editora da Vogue, Anna Wintour, o fotógrafo David Bailey e o estilista John Galliano.

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Porém, o que ele não mostra é o clima entre os dois homens, cultivados ao longo de mais de quatro décadas, personagem central da obra que não é mencionado nos créditos. A essa altura da vida, os dois se cutucam como a versão fashion de Bogart e Bacall, alfinetando, elogiando e encorajando um ao outro o tempo todo. Um não pode começar a frase sem que o outro faça um comentário. Para entender a dinâmica, é preciso estar na mesma sala que eles, para ouvir as várias peripécias de sua história e seu relacionamento.

Começando com o tal do primeiro encontro. Blahnik, 74 anos, que foi criado nas Ilhas Canárias, tinha acabado de chegar a Londres, depois de estudar Ciências Políticas e Direito na Universidade de Genebra e Belas Artes e Cenografia em Paris, e aceitara o emprego de assistente de vendas da Feathers para garantir o visto como imigrante.

– Eu era responsável pelos jeans da New Man. Tinham um modelo em verde-limão lindo. Comprei para mim – conta Blahnik, impecável em um terno sob medida creme, gravata riscada de azul claro e branco e sapato bicolor.

Roberts, 69 anos, de casaco marinho desbotado, calça larga xadrez em azul da Gap e sapato também bicolor, completa:

– E eu comprei a versão em laranja.

Mais tarde, nos anos 80, os dois se uniram para uma parceria de moda.

– Que nome demos para aquela coleção? Grega? – questiona Blahnik.

 – Isso – Roberts confirma.

 – E usamos as peças nas ruas de…

 – Chelsea. Túnica amarelo-limão de crepe da China, com cinto de fio. De lá para cá, tentando pegar um táxi. Claro que ninguém ia parar. Eu com aquela roupa, o cabelo tingido de rosa, sem sobrancelha nenhuma.

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 – É mesmo! Você tinha tirado tudo. Que horrível que ficou. Estava medonho  – recorda Blahnik.

 – Não estava medonho, não.

 – Estava, sim, Michael. Você parecia personagem do Metrópolis, do Fritz Lang.

Quando Blahnik começou a fazer sapatos (a ideia veio de Diana Vreeland, na época presidente do Costume Institute do Museu Metropolitano de Arte), a editora de moda Grace Coddington se tornou sua fã. “Ela me colocava na Vogue britânica o tempo todo, com fotos da modelo Apollonia, feitas por Norman Parkinson.”

 – Foi um momento importante na sua carreira. As coisas que você fez naquela época! Bota de cano curto, que ninguém fazia. E mules – comenta Roberts.

 – Ainda fazemos mules.

Nos anos 90, Blahnik já se tornara famoso nos EUA graças à série “Sex and the City” e à personagem Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), que usava seus “Manolos” religiosamente. Na época, Roberts foi o primeiro diretor de moda da New Yorker, onde uma de suas funções era trabalhar com o fotógrafo Irving Penn, famoso por ser detalhista e minucioso.

 – Toda semana eu me reunia com Penn no estúdio e lhe entregava uma lista de pessoas que gostaria que fotografasse. Ele só dizia: ‘Não, não, meu rapaz. Não, não, não.’ Aí, em 2003, ele disse sim para o Manolo.

Durante a sessão, em Nova York, Penn disse a Blahnik:

– Por que você não segura alguma coisa? Tem algum tipo de joia? Não! Preciso de um sapato de salto!

 – Aí corremos no escritório e pegamos dois. Ele escolheu um e pediu para eu pensar em alguma coisa. Pensei em Santa Teresa, a freira carmelita espanhola do século XVI, e seu livro de memórias. Ele adorou a ideia e falou: ‘Ótimo! Encarne o espírito dela e segure o sapato!’. Aí tirou a foto.

Depois de sair da New Yorker, em 2006, Roberts realizou, entre inúmeros outros projetos, uma série de curtas para e sobre Blahnik. O primeiro, “Jealousy”, era uma história de amor turbulenta, baseada em um tango e inspirada em uma das coleções do estilista, estrelada pelos amigos de longa data, a fotógrafa Lucy Birley e o ator Rupert Everett, e exibido no YouTube.

Algum tempo depois, produziu diversos filmes em preto e branco, em estilo Super 8, sobre a infância do amigo nas Ilhas Canárias, com um garotinho de camisa branca muito elegante, colete de tricô escuro e calça de couro no estilo alemão, (“lederhosen”) brincando em um jardim formal com lagartos e criando sapatos para eles com dobraduras de papel alumínio das barras de chocolate Cadbury.

Roberts ficou tão satisfeito com o resultado que teve a ideia de fazer um filme sobre a vida de Manolo. Sugeriu a ideia e Blahnik concordou.

No início, a produção foi tranquila, sem tropeços: Roberts filmou os sapatos de Blahnik como naturezas-mortas em canteiros de flores e em rolos de seda, e entrevistou clientes e amigos famosos, incluindo Rihanna e Paloma Picasso. Para ilustrar as inspirações de Manolo, vestiu Amanda Harlech, consultora criativa da Birley e da Chanel como castelã vitoriana e retratou os dois passeando nos campos de uma propriedade rural britânica.

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 – Naquele dia tinha passado um furacão com ventos de 160 km/h  – lembra Roberts.

 – Para falar a verdade, ficou lindo  – diz Blahnik.

 – Foi perfeito –, reforça Roberts.

E continua:

– Aí chegou a hora de sentar com o astro do filme e Manolo disse que não queria aparecer.

 –E não dei as caras mesmo –, confirma Blahnik.

 – Aí a coisa meio que empapuçou –, diz Roberts.

 – Aquela época em que ele ela superhipermegasociável já era, sabe – anuncia Roberts.

 – É verdade –, admite Blahnik.

 – Não participa mais de cerimônias badaladas, tapete vermelho, essas coisas. Prefere ficar em casa. Todo mundo que participou estava desesperado para vê-lo envolvido – afinal, era um verdadeiro mito. Queriam vê-lo, saber como era. Eu não era só diretor, mas também o diplomata, o intermediário. Quanta coisa tive que fazer para concluir aquele filme.

Blahnik começa:

– Mudei de ideia quando….

 – Quando viu o garotinho brincando com os lagartos porque achou que era a sua cara na mesma idade.

Blahnik não só mudou de ideia e a amizade dos dois sobreviveu, como o processo de conclusão do documentário deu início a outro projeto.

– Vamos fazer outro filme. Juntos – anuncia Blahnik.

– Isso –, confirma Roberts.

– Mas é segredo –, Blahnik completa.

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