Dois novos filmes, seriado e livro atualizam o mito de Branca de Neve, uma das princesas mais populares

Branca de Neve vira loira, vilã e até troca de nome em versões da história

Imagem de "Espelho, Espelho Meu", que estreia neste fim de semana em Porto Alegre
Imagem de "Espelho, Espelho Meu", que estreia neste fim de semana em Porto Alegre Foto: Divulgação

A princesa de cabelos negros como o ébano e pele branca como a neve mal terá tempo de repousar em seu sono profundo em 2012. Há 200 anos, os Irmãos Grimm publicaram a primeira edição do livro de contos recolhidos da tradição oral que eternizaria a história de Branca de Neve. Para comemorar a data, a princesa estrela dois filmes, um seriado e um livro que reúne versões raras e mostra como as raízes da personagem são de diferentes épocas e países.

Mas não se quer dizer, com tudo isso, que a princesa está voltando ao primeiro plano da cultura pop. Muito ao contrário, adverte Regina Zilberman, professora da UFRGS e autora de A Literatura Infantil na Escola:

– Branca de Neve não está voltando, porque nunca saiu.

A história da bela princesa perseguida pela madrasta já ganhou status de mito e, como tal, faz parte do imaginário ocidental. Que o diga o figurino da jovem de cabelo chanel que é hit nas lojas de aluguel de trajes e nas festas temáticas infantis: meninas e mulheres que literalmente vestem a fantasia. Do time de princesas que se tornou o principal carro-chefe da Disney, Branca de Neve se destaca entre suas companheiras por algumas particularidades. Regina Zilberman e a psicanalista Diana Corso, que escreveu ao lado de Mário Corso Fadas no Divã, destacam primeiramente o embate entre a bela jovem e a madrasta que até aparece em outros contos de fadas, mas não de forma tão explícita.

– No caso da Cinderela, a disputa é por ser a filha escolhida. Na Branca de Neve, é mais clara a a disputa entre as duas pelo reconhecimento de ser uma mulher desejável e ser escolhida por isso – analisa Diana.

Nas entrelinhas, o que está em jogo é a transformação da menina em mulher, como se não houvesse lugar para mais de uma adulta desejável na mesma família. Não à toa, no primeiro manuscrito da história compilada pelos Irmãos Grimm a disputa não se travava com a madrasta, e sim com mãe biológica que vê no amadurecimento da filha seu próprio envelhecimento. Além de simbolizar esse rito de passagem, Branca de Neve se diferencia ainda, pontua Diana Corso, pelos anões – que ganharam relevo na animação de Walt Disney (1937) e servem como figuras de identificação para as crianças – e pela maçã. Esta última, menos por remeter ao desejo e mais pela questão do envenenamento, que aproxima a história do imaginário infantil: para as crianças, a relação com o mundo passa muito pelo que se come ou não, explica Diana. Sem falar, acrescenta Mário Corso, da força da imagem criada pelo desenho da Disney, que imortalizou a princesa em cores primárias – o azul, o amarelo e o vermelho -, fugindo dos tons pastel.

Regina Zilberman lembra ainda de outro diferencial: ao se reinventar como uma figura maternal que cuida dos anões, a personagem constrói para si uma outra existência além da princesa em perigo.

Branca de Neve soma agora mais uma particularidade: os dois novos filmes que atualizam o mito coincidem na proposta de transformar a mocinha de mangas bufantes em guerreira. Aliás, a protagonista de Branca de Neve e o Caçador, com estreia prevista para junho, troca o vestido pela farda de soldado em uma versão adulta e sombria da batalha contra a madrasta e o mal que ela representa. A bem-humorada aventura infantojuvenil Espelho, Espelho Meu, que entra em cartaz na Capital neste final de semana, também aposta em uma mocinha disposta a lutar por seu reino e seu príncipe. Nada mal para uma princesa que, na versão da Disney, está dormindo a sono solto quando a vilã é perseguida até a morte.

– Essas princesas guerreiras são adaptações aos novos tempos – afirma Diana, destacando que as mulheres do século 21 precisam conquistar tanto o campo da feminilidade quanto o campo viril, assim, não por acaso as personagens das novas produções teriam tanto o poder de dar a vida, quanto o de morte.

– É uma ambiguidade da qual as meninas vão ter que dar conta. Tem que ser princesa e guerreira. Melhor ainda uma princesa guerreira – afirma Diana.

Para Regina Zilberman, essas princesas prontas para a ação representam a retomada do curso natural de uma história que tomou forma ao ser contada de geração para a geração: com seu livro, os Irmãos Grimm haviam fixado uma narrativa até então em constante transformação. Mas agora, no terceiro milênio, é legítimo uma Branca de Neve emancipada, diz Regina:

– A mocinha ingênua pode funcionar com meninas pequenas, mas, depois de uma idade, nem as ex-princesinhas de quatro anos gostam de uma personagem tão submissa. Até a Bela Adormecida vai acordar para a vida.

Uma fábula viajante

Era uma vez uma história que começou muito antes de os Irmãos Grimm nascerem e que não chegará ao fim tão cedo. Talvez nunca. Em 1812, a dupla alemã publicou a fábula Branca de Neve no livro comumente traduzido como Contos da Criança e do Lar, que reunia histórias da tradição oral. Antes deles, em 1634, outra versão italiana do drama da bela jovem perseguida por sua beleza havia sido eternizada como A Jovem Escrava. Assim como se repetiria também na Itália (Maria, a Madrasta Má e os Sete Ladrões, de 1870, e O Caixão de Cristal, de 1885), na Rússia (A Fábula da Princesa Morta e dos Sete Cavaleiros, de 1833), na Suíça (A Morte dos Sete Anões, de 1856) e na Escócia (Árvore-Dourada e Árvore-Prateada, de 1892).

Raridades nas livrarias mundo afora, essas histórias foram compiladas e chegam às prateleiras do Brasil neste mês em Branca de Neve – Os Contos Clássicos, do selo Generale da editora Évora. O livro é fruto do esforço de Alexandre Callari, que, além de reunir estas versões, pesquisou a historiografia deste ícone pop no cinema, no teatro e nos quadrinhos. Nesse mergulho nas diferentes encarnações da princesa no tempo e no espaço, Callari demonstra como é improvável que a história de Branca de Neve, como outros contos de fadas, tenha uma única origem. Ao longo do tempo, tornou-se parte do folclore europeu, registrando a moral de cada lugar e época. Entre as peculiaridades locais que Callari garimpou, está a presença da poligamia na versão celta: a princesa desperta de seu sono e encontra o príncipe com uma segunda mulher, e terminam os três felizes para sempre. Mas, atravessando as diferentes histórias, há temas que se repetem:

– A história da Branca de Neve é basicamente uma história sobre ciúme, sobre a passagem de menina para mulher – afirma Callari. – Outra constante é o número 7: sete ladrões, sete anões, sete caixões de cristal…

As versões de Branca de Neve seguem se multiplicando. O próprio Alexandre Callari encerra o livro com uma releitura sua da fábula: embora a princesa permaneça bela e inocente, e a madrasta, ruim de doer, a trama transposta para a Bavária, em 1810, ganha ares mais realistas. Com inveja da beleza da enteada, a Baronesa tenta pôr fim à vida de Branca de Neve (“E que nome mais imbecil é este?”, pergunta a vilã ao marido. “Você se satisfez quando o colocou em sua filha? Sentiu -se um poeta?”), até se revelar uma sádica serial killer.

No dia 14 de janeiro de 1938, o The New York Times publicou uma elogiosa crítica a uma animação que recém havia estreado: Branca de Neve e os Sete Anões. O filme supera as expectativas. É um clássico, tão importante cinematograficamente como O Nascimento de uma Nação (1915) e o nascimento do Mickey Mouse. Chegava, finalmente, às telas a realização do milionário sonho de Walt Disney, o primeiro longa-metragem e em cores de animação e que se tornaria um dos maiores clássicos de seu estúdio. O que até então parecia um projeto megalomaníaco de Disney provava ser um marco na história do cinema.

Não era a primeira vez que a história da princesa em fuga da terrível madrasta era contada nos cinemas. Havia estreado no cinema mudo, em 1902, e ganhado novas versões, duas delas em 1916 – uma, há quem garanta, teria inspirado o então pequeno Walt, ainda criança. Mas seria justamente a versão criada por ele, à frente de uma numerosa equipe, que não apenas consolidou a fábula de Branca de Neve no imaginário mundial como definiu, a partir dali, qual seria a imagem definitiva da princesa, do corte de cabelo às cores do vestido.

O filme foi um sucesso desde o lançamento. Enquanto o estúdio lucrava a ponto de poder investir em uma nova leva de produções, a crítica se rendia ao desenho animado artesanalmente, com direito a trilha sonora original. O feito rendeu a Walt Disney um Oscar honorário e abriu as portas para muitas outras animações.

Na infinidade de releituras, é possível até encontrar capas de livro em que a princesa de cabelos negros como ébano aparece loira e castanha. Mas o que realmente ganha outros tons são a história e a personalidade da mocinha. No conto Neve, Vidro e Maçãs, do mestre da fantasia Neil Gayman, a garota é uma vampira que vitimiza o pai e a madrasta. Os lábios, então, eram rubros de sangue.

O escritor José Roberto Torero, em parceria com Marcus Aurelius Pimenta, lançou no ano passado Branca de Neve e as Sete Versões. A história começa tal qual o original, mas então os autores perguntam: “Se você quer que o espelho minta, vá para a p.8. Se você quer que ele diga a verdade, vá para a p. 10”. E assim, é possível ir pulando páginas e alterando os desfechos. E, pela experiência de Torero, as crianças gostam mesmo é de subverter a narrativa conhecida:

– Fiz leituras nas escolas, e as crianças gostam mesmo das variantes. A gente pergunta: “O caçador mata a Branca de Neve ou não mata?” “Maaaaataaaa!”

Os desfechos imaginados por Torero e Pimenta só não mudaram algo que incomoda o primeiro desde a infância.

– No desenho da Disney, sempre achei a madrasta mais bonita do que a Branca de Neve. Olhei de novo no YouTube e tive a mesma opinião: o espelho estava errado.

No cinema

Dezenas de adaptações de Branca de Neve foram realizadas desde o filme mudo de 1902. A mocinha de pele alva tornou-se protagonista de thriller de terror (como o filme Floresta Negra, de 2005), comédias (como na divertida sátira Branca de Neve e os Três Patetas, de 1961, em que o príncipe e a princesa patinam sobre um lago congelado) e até pastiches de apelo erótico, como a pornochanchada nacional Histórias que Nossas Babás Não Contavam (1979). Na antológica produção, Adele Fátima interpreta a fogosa Clara das Neves e protagoniza cenas que fariam corar os Irmãos Grimm.

Dois novos filmes se somam à longa cinematografia de Branca de Neve. Com estreia neste final de semana na Capital, Espelho, Espelho Meu, aposta no público infantojuvenil e no tom bem-humorado. Desta vez, a princesa (Lily Collins) empunha espadas e comanda um bando de ladrões para enfrentar a madrasta má – interpretada por Julia Roberts, o grande chamariz do filme -, retomar o reino e o amor do príncipe. Para junho, uma versão mais sombria está prevista. Heroína da saga Crepúsculo, Kristen Stewart encarna uma princesa travestida de soldado em meio a uma épica luta contra o mal em Branca de Neve e o Caçador. Como diz o título, a figura do caçador ganha importância na batalha contra a rainha má, a bela Charlize Theron. A história promete dar pano para a manga bufante, tanto que deve ter sequência em uma trilogia.

Na tevê

Imagine que a história de Branca de Neve não terminou com o Felizes para sempre. E que a madrasta má chega ao casamento da princesa a tempo de proferir uma terrível maldição: condena o casal apaixonado e todo o universo das fábulas a perder a própria identidade e viver em outro tempo e espaço. Eis a premissa de Once Upon a Time, novo seriado do canal pago Sony, que estreia no dia 12: nos tempos atuais, cabe à filha de Branca de Neve e do príncipe (Jennifer Morrison, conhecida por sua participação no seriado House), que igualmente ignora sua origem, quebrar o feitiço que transformou seus pais e demais personagens lendários em cidadãos comuns de uma pequena cidade. A ponto de a mocinha de cabelos cor de ébano, interpretada por Ginnifer Goodwin, ser hoje uma doce professora que sequer tem ideia de que sua verdadeira história é tema de livros infantis.

O universo dos contos de fadas é pano de fundo ainda de outra série: em Grimm, no Universal Channel, um detetive depara com o lado sombrio das histórias infantis ao se descobrir descendente de uma família com o poder de ver as criaturas que todos imaginam não existir de verdade. Branca de Neve foi ainda personagem da série The Charmings, de 1988, e deixou sua marca no episódio Bedtime Stories, na terceira temporada do seriado Supernatural.

Nas festas

Dois séculos depois de os Irmãos Grimm terem publicado a fábula Branca de Neve, a personagem esbanja fôlego nas festas infantis e à fantasia. Entre os figurinos de contos de fadas, o vestido azul, amarelo e vermelho eternizado no desenho da Disney está entre os mais pedidos tanto por meninas quanto por mulheres nas lojas de fantasias Glow e Disfarce, na Capital. Rivaliza com Chapeuzinho Vermelho e Alice (do País das Maravilhas), que voltou à moda depois da adaptação para o cinema de Tim Burton, de 2010. Já a da madrasta, disponível no acervo da Disfarce, não tem muita saída:

– Ninguém quer ser a vilã – brinca a gerente da unidade de Porto Alegre, Nádia Oliveira.

Nas festas de aniversário, Branca de Neve também é assídua. Tanto nas comemorações realizadas na casa de festas Choice quanto nas decoradas pelo ateliê Imaginação e Arte, a musa dos sete anões é uma das princesas mais pedidas, competindo, ao lado de Cinderela, com os temas da moda, como Rapunzel (princesa turbinada depois do sucesso de Enrolados). Já a favor da Gata Borralheira conta a carruagem, um elemento cênico e tanto.

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