Dommenique Luxor conta sobre o trabalho e a rotina de uma dominatrix

Sádica assumida, apaixonada por seu trabalho, ela é paga por homens que exultam de prazer ao serem destratados

Foto: Jorge Scherer

A partir de agora, teu nome é escravo.

Esse é o primeiro alerta de Dommenique Luxor no livro Eu, Dommenique (Leya, 192 páginas, R$ 19,90), cuja introdução se dedica a esclarecer as regras do jogo: “Eu decido o quanto usarei teu corpo e tua mente. Serás meu animal, meu capacho, meu serviçal e meu objeto”.

Em quatro meses de vendas, os 7 mil exemplares da primeira edição estão prestes a se esgotar nas livrarias – um resultado invejável para o mercado brasileiro, no qual tiragens de 3 mil cópias encalham com frequência. A autora, que nos documentos se chama Daniela Carvalho de Paula, nasceu há 35 anos em Canoas e, há uma década, abandonou o emprego em uma estatal federal para virar Dommenique Luxor, uma dominadora profissional. Ou uma dominatrix, no jargão fetichista.

Sádica assumida, apaixonada por seu trabalho, ela é paga por homens que exultam de prazer ao serem domesticados – e destratados. Dommenique vive em Porto Alegre e evidencia seu poder na aparência: as sandálias de salto altíssimo, a calça preta de látex, o farto cabelo loiro, tudo isso alonga ainda mais o corpo sinuoso de 1m75cm.

Não há notícias de que no Brasil outra dominatrix tenha se exposto tanto, assumindo publicamente uma vida que, em grande parte dos casos, só se manifesta à margem da sociedade. Nunca houve por aqui a liberalidade da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, onde festas temáticas com dominadoras ocorrem desde os anos 1970 – e onde a cultura fetichista influenciou na moda e até na música consumida por jovens.

Não há dúvida de que Eu, Dommenique só existe por conta de Cinquenta Tons de Cinza, best-seller da escritora britânica E.L. James, publicado em 2011, que aborda o sadomasoquismo. Foi na esteira do livro estrangeiro que a editora Leya procurou a domme brasileira. E Dommenique escreveu suas 192 páginas em incríveis duas semanas.

Não custa prevenir o leitor desavisado: se compararmos o grau de erotismo e libidinagem das duas obras, Cinquenta Tons de Cinza é uma xícara de chá.

Assista: Em vídeo, Dommenique compara sua rotina com “50 Tons de Cinza”

Donna – Qual é o perfil dos seus clientes?

Dommenique Luxor – O perfil é de um homem muito bem-sucedido e culto. Normalmente, ocupam cargos de chefia em seus trabalhos e estão acostumados a mandar nos outros o dia inteiro. De um modo geral, são pessoas refinadas, que viajaram bastante e tiveram acesso a esse tipo de fetiche por meio de livros ou experiências em outros países. Alguns estampam capas de revistas como Caras, outros são atores conhecidos, filhos de banqueiros. Muitos são casados.

Donna – E são frustrados por não realizar essas fantasias com suas mulheres?

Dommenique – Não os considero frustrados. São felizes em seus casamentos. Mas, em suas casas, eles já têm personagens estabelecidos, papéis muito claros que nem sempre são compatíveis com certas fantasias. Eles gostam de suas mulheres e, na maioria dos casos, elas tentam agradá-los. Mas elas dificilmente vão entender que, para agradá-los, não adianta comprar uma algeminha de plástico na sexshop, porque essa algema jamais vai representar uma relação de poder. Qualquer homem arrebenta uma algema de plástico se quiser. É um acessório inútil para quem gosta de se sentir preso.

Donna – Você disse que muitos clientes são chefes no trabalho. Por que homens acostumados a mandar querem ser mandados?

Dommenique – Eles exercem um excesso de controle em todas as esferas da vida. Isso gera uma tensão muito forte. Portanto, querem relaxar. Mas vão relaxar apanhando e sendo humilhados? Sim, eles relaxam quando deixam de ter o controle da situação. E é com uma pessoa desconhecida, apartada das convenções diárias que a vida impõe, que eles se sentem mais livres para isso.

Donna – De que maneira o fetiche entrou na sua vida?

Dommenique – Com cinco anos de idade, já sentia fascínio por pessoas mascaradas. Lembro de quando fui a um carnaval de rua com meu pai, no Rio, e apareceu no meio do bloco um homem tentando me assustar, correndo em minha direção. Ele usava uma máscara preta, parecia uma caveira, e eu só conseguia enxergar seus olhos. Enlouqueci com aqueles olhos. Passei a sonhar com aquilo, passei a ter sonhos deliciosos com gente mascarada que, de certa forma, mais pareciam objetos do que homens. Minhas coleguinhas adoravam o Menudo, e eu gostava do Darth Vader (o vilão de Guerra nas Estrelas). Eu queria que o Darth Vader me raptasse. No colégio, me sentia atraída por meninos tímidos, submissos. Eu gostava do nerd, do feio.

Donna – E o prazer com o sofrimento dos outros começou na adolescência?

Dommenique – Quando eu tinha 18 anos, conheci um gótico, de visual andrógino, magro, muito branco, todo tatuado, que virou meu melhor amigo. Ele me pedia para colocar piercings nele. Quando estávamos ouvindo música no quarto, ele deitava no chão e me pedia para pisar sobre seu corpo, de salto alto, e eu achava aquilo o máximo. Um dia, ele propôs que eu o levasse a uma festa preso por uma coleira no pescoço. E começamos a sair dessa forma.

Donna – Você nunca se sentiu culpada por ter prazer ao ver pessoas sofrendo?

Dommenique – Às vezes, ainda me culpo. Há momentos em que penso: “Será que sou má? Será que estou propagando a violência?”. Mas são práticas entre quatro paredes absolutamente consensuais, em que a pessoa se sente submissa porque quer, e eu me sinto cruel porque quero. Tenho me contestado bem menos de uns tempos para cá. Antes, como boa dominadora, achava que tudo ocorria porque eu queria. Não é assim. O que ocorre é uma troca de poder, é uma via de duas mãos.

Donna – E esse sadismo já se manifestou fora do âmbito sexual?

Dommenique – Nunca. Sinto prazer quando o sofrimento está inserido em um cenário que eu monto para me realizar. E este cenário é fetichista. Não sou uma psicopata que sente prazer ao ver alguém apanhando na rua – até porque uma cena dessas jamais teria as condições de, digamos, temperatura e pressão para me estimular. Sou uma pessoa solidária, que se compadece com a tristeza dos outros, que tem empatia pelo ser humano. Sou muito amorosa.

Donna – Ao ler seu livro, é difícil imaginá-la fazendo cafuné no namorado enquanto assiste a um filminho na tevê no sábado à noite…

Dommenique – Claro que faço isso. Para ser meu namorado, não há necessidade de ser um masoquista. Não vou espancá-lo, não vou chicoteá-lo se aquilo não for prazeroso para ele. Mas, claro, assim como uma mulher compra um babydoll ou uma lingerie para apimentar a relação, um homem pode – e deve – fazer o mesmo. Existem pequenas coisas que me agradam afetiva e sexualmente. Eu acredito no casamento, acredito na cumplicidade e na parceria entre duas pessoas que pode durar 30, 40, 50 anos. Desde que, obviamente, haja honestidade e liberdade para as pessoas serem como quiserem ser.

Donna – Aliás, você foi casada durante 11 anos. Seu ex-marido é um masoquista?

Dommenique – Não, mas tem uma personalidade com a qual me afino muito: é solícito, carinhoso, me tratava como rainha, era aberto a novas experiências e admirava minha coragem para desenvolver meu trabalho. Ele sabia que eu jamais conseguiria me envolver afetivamente com outros homens. Mas eu queria ter liberdade para dominá-los e perseguir meus sonhos. E nunca me faltou o apoio dele. Éramos muito felizes.


Fotos: Jorge Scherer

Donna – O que o seu filho de 10 anos conhece sobre seu trabalho?

Dommenique – Ele sabe um pouco sobre o que faço. Nessa idade, as crianças fazem muitas perguntas, e eu respondo até onde dá para ir, sem jamais impor referenciais ou símbolos que possam interferir na educação sexual dele. Não deixo que veja meus acessórios, por exemplo. Mas digo que sou uma dominadora, que me relaciono com pessoas que gostam de me fazer favores, que meu trabalho é uma espécie de teatro. E que, nesse teatro, eu represento uma rainha enquanto meus clientes assumem o papel de súditos dessa rainha.

Donna – No Brasil, é raríssimo uma dominadora mostrar o rosto e assumir publicamente a profissão. Você parece bem-resolvida nesse sentido.

Dommenique – Não é fácil se assumir. Nunca tive vergonha do meu trabalho, adoro o que faço, mas sentia medo da forma como meus pais receberiam tudo isso. Não conseguia contar para eles e, por isso, não publicava fotos do meu rosto na internet. Era terrível, porque eu sentia necessidade de mostrar para o mundo o que eu fazia. Não via sentido em ficar me escondendo. A situação melhorou quando fui procurada para escrever esse livro. Com o livro, ganhei uma legitimidade, um reconhecimento social – como profissional e até como escritora. Contei sobre o livro para a minha família, e meu pai falou: “Se é disso que você gosta, continuará sendo nossa filha e terá sempre o nosso apoio. Apenas enfrente as consequências”.

Donna – Embora seu livro seja bem mais explícito do que Cinquenta Tons de Cinza, há algumas semelhanças em determinados trechos. Você firma contrato com um masoquista, que passa a morar em sua casa, e exerce controle sobre o corpo dele por um mês. E pede para um cliente contar o número de chibatadas enquanto você bate nele.São apenas coincidências?

Dommenique – Firmar contratos em relações sadomasoquistas é algo antigo: vem desde Sacher-Masoch (escritor austro-húngaro cujo sobrenome inspirou o termo “masoquismo” – seu romance mais célebre, A Vênus das Peles, de 1870, aborda a história de um casal que assina um contrato de servidão; o homem na função de escravo, a mulher no papel de tirana.) Se o cara almeja ser um escravo, um contrato é imprescindível. Afinal, trata-se de uma pessoa que mal conheço dentro da minha casa. E sobre contar o número de chicotadas, essa é uma prática corriqueira no sadomasoquismo. Não é possível comparar Cinquenta Tons de Cinza ao meu livro, porque são abordagens diferentes, linguagens diferentes. No meu caso, não escrevi um romance. São histórias verídicas.

Donna – Essa obsessão por controlar as pessoas deve se manifestar em outros campos da sua vida. Não é saudável, às vezes, ser um pouco mais flexível?

Dommenique – Sem dúvida. Houve uma época em que eu queria controlar tudo: meus clientes, meu futuro, meu casamento, meu filho, meu corpo – que precisava ser magro e sempre irretocável -, minha fisionomia de dominadora, minha postura. Chega um momento em que você pensa: todos farão o que você mandar. Resultado: meu sistema nervoso autônomo (que comanda funções involuntárias do corpo humano, como respiração, circulação do sangue, controle de temperatura e digestão) se desregulou completamente. Meu coração disparou, a pressão subiu muito, a respiração ficou ofegante. Tive uma espécie de ataque de pânico. Era como se meu próprio corpo me dissesse: “Não, você não pode controlar tudo. E agora vou funcionar à revelia, da forma como eu bem entender.” Me tratei com um psiquiatra, voltei a comer Miojo e reconheci que também preciso do meu lado submisso.

Donna – Nas sessões de dominação, alguma coisa já saiu errada?

Dommenique – Sim. Uma vez, recebi um cliente que queria se sentir preso. Tenho um saco de couro preto, com várias fivelas, e ele queria ficar ali dentro, sem movimentos dos pés à cabeça, sem poder falar nem enxergar nada. “Pode me prender aqui e ir embora”, ele disse. Fiz o que ele queria, mas, como não sou burra, fiquei espiando da porta. Em dois minutos, ele começou a se debater e a grunhir desesperadamente. Claro, ele se excitava vendo filmes com pessoas presas – era um fetiche muito mais voyeurista do que masoquista. Voltei para o quarto e disse: “Te acalma. Estou aqui e vou te soltar.” Devolvi o dinheiro dele. O cara ficou muito frustrado. E eu também, porque ele havia prometido que eu poderia fazer o que quisesse. Não consegui fazer nada.

Donna – Como ocorre o primeiro contato com um cliente?

Dommenique – Quando comecei a trabalhar com dominação, coloquei um questionário em meu site para saber as preferências da pessoa para a qual eu prestaria aquele serviço. Hoje, são os clientes que me prestam um serviço. O primeiro contato ocorre por e-mail, e eu já pergunto se a pessoa tem restrições às práticas das quais eu gosto. Não aceito restrições muito sérias a quatro coisas: spanking (palmadas ou surras, que podem variar de intensidade conforme a preferência do cliente), CBT (sigla em inglês para “cock and ball torture”, ou tortura genital), bondage (imobilização do corpo ou privação de movimentos) e tease and denial (provocação e interrupção do orgasmo repetidas vezes). Também tenho evitado sessões com homens sem o mínimo de experiência em dominação. Na troca de e-mails, pergunto se é casado ou se tem namorada, para saber se posso deixar marcas em seu corpo.

Donna – A procura por seu trabalho é muito alta?

Dommenique – Já cheguei a atender entre quatro e cinco clientes por semana. Mas, atualmente, tenho atendido de dois a três por mês. Porque agora eu escolho meus clientes – antes, aceitava qualquer um. Hoje, minha prioridade deixou de ser apenas ganhar dinheiro. Minha prioridade é me realizar com meu trabalho. E me realizo assim: quem manda sou eu. Não adianta me apresentar uma listinha de fetiches. Não gosto, por exemplo, da feminilização exagerada. Vestir meu cliente com roupas de látex, por exemplo, é muito legal – mas alguns homens querem usar vestidinhos, peruca, cinta-liga. Na minha opinião, ficam meio ridículos. Sinto atração pela figura masculina.

Donna – Ao ver tantas pessoas sentirem prazer sofrendo, você nunca quis sentir o mesmo? Nunca foi a submissa, em vez de a dominadora?

Dommenique – Claro, com meu ex-marido já experimentei ser presa. Não senti nada. Já experimentei cera de vela quente no meu corpo. Mas dói demais, achei horrível. Prefiro derramar cera nos outros.


Dommenique nos bastidores da capa de Donna
Foto: Julio Cordeiro/Agência RBS

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  • Kamillah

    Dominação NUNCA é via de mão dupla, onde a vontade dos dois prevalece…
    Escravo não tem vontade, não escolhe nada, não tem fetiche e nem tem
    voz
    de permissão. Ele só tem direito a sentir prazer, se ela quiser que ele
    sinta. Escravo só obedece e serve apenas à vontade de sua
    dominadora. Só existe dominação, quando ele não quer, mas
    voluntariamente sacrifica sua vontade para servir sua dona. Enquanto é
    concensual, não é dominação…
    Essa moça é prostituta, não dominadora. Ela vende a fantasia, não domina ninguém.

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