Donna do meu tempo: a história de uma mulher que aprendeu a gerenciar melhor sua vida

Foto: Julio Cordeiro / Arte: Melina Gallo
Foto: Julio Cordeiro / Arte: Melina Gallo

Em 2015, a International Stress Management Association (ISMA-BR) apontou a falta de tempo como um causador de estresse para 78% dos brasileiros. Se  nos voltarmos apenas às mulheres, o problema se agrava. Além das horas de trabalho no emprego, elas encaram jornadas extras em suas famílias. No dia a dia, parar para pensar se o que estamos fazendo é o que nos faz feliz não raro fica para trás. Em Donna do Meu Tempo, a empresária Karine Lima, 40 anos, compartilha o que a levou a retomar o seu.

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tempo 1“Comecei a trabalhar aos 14 anos, por bolinhos de chuva. Tinha uma escolinha em frente à minha casa. Como adorava crianças e o bolinho que a tia da escola fazia, me ofereci para dar aulas lá. Adolescente, eu já estava trocando fraldas de crianças de dois anos. E por gosto. Sempre gostei de trabalhar. Também ajudava minha mãe na loja de roupas dela. Antes mesmo de entrar na Faculdade de Administração, já havia passado por três empregos, desde uma distribuidora de tíner dos vizinhos até representante comercial de uma empresa de conservas, ao lado do meu pai.

Antes mesmo de me formar, decidi ter um filho com o namorado que conheci aos 14 anos. O bebê nasceu em 31 de janeiro de 2000 – eu tinha 26 anos. A essa altura, trabalhava em uma empresa de consultoria. Assessorava os donos para tudo. Roupas, por exemplo: eles deixavam as medidas em uma loja, e eu comprava. Era responsável até por comprar presentes para familiares deles. Quando meu filho tinha 30 dias, voltei à faculdade. Quando tinha 45, me ligaram do trabalho perguntando se eu poderia voltar.

Eu me aconselhei com a minha ginecologista, e ela disse: “O importante não é a quantidade do tempo com o teu filho, é a qualidade. Hoje está tudo lindo na tua vida. Está casada, mas amanhã tu não sabes. Vais depender do marido para viver a tua vida?”. Voltei.tempo 2

Daí tu imaginas a minha rotina: acordava na Zona Norte às 7h, tirava leite e saía de casa rumo ao bairro Moinhos de Vento, onde ficava o escritório. Às 11h30min, ia em casa para amamentar e voltava ao escritório. Às 17h, voltava para casa, dava banho no bebê, amamentava, fazia massagem relaxante, para ele dormir mais tempo, e ia para a faculdade em Gravataí, das 19h às 21h e pouco. Com essa rotina maluca, tentando dar conta de tudo sozinha, meu leite foi diminuindo. Só amamentei por quatro meses. E, quando o bebê tinha um ano, fui demitida.

Depois de enviar currículos para diversos anúncios de jornal, me ligaram de uma empresa de tecnologia para participar de uma seleção para trainee. Sabe-se lá como, mal sabendo a diferença entre hardware e software, fui selecionada. Nessa empresa e nas demais do setor de tecnologia onde eu viria a trabalhar, cresci, ganhei dinheiro, mas me afundei no trabalho. Então, aos 28 anos, tinha um filho lindo, um apartamento lindo, um carro zero, mas adormecia no sofá de casa.

Até a separação, em 2004, meu casamento foi falindo. E isso acabou contribuindo também para ser menos próxima do meu filho, porque eu viajava, e ele ficava entre os avós e o meu ex-marido. Mas eu não via isso. Só trabalhava como uma locomotiva desenfreada.

Foto: Julio Cordeiro / Arte: Melina Gallo

Foto: Julio Cordeiro / Arte: Melina Gallo

Enquanto meu filho crescia, passei a administrá-lo como um compromisso que eu resolvia às noites detempo 3 domingo, com uma planilha e uma reunião para definir a agenda da semana. Psicólogo, aulas particulares – e meu pai fazendo as vezes de motorista.

Em 2012, assumi a diretoria regional de uma multinacional de tecnologia e estava mais imersa do que nunca no trabalho. A ponto de não ter dado muita bola para a ligação da médica me dizendo que eu precisaria fazer uma biópsia porque algo estranho havia aparecido no meu seio.

Não sabia como era uma biópsia. Não havia contado para ninguém aquilo. E só quando me tiraram um pedaço é que me dei conta da possível gravidade. Só quando minha mãe apontou para o micropore sangrando no meu peito e perguntou o que era aquele machucado.

Felizmente, era um tumor benigno. Mas, ao fazer a cirurgia para retirá-lo, o médico deparou com uma infecção em torno das próteses dos meus seios, causada por uma bactéria. Fiquei, então, 14 dias internada e isolada. Lembro das enfermeiras me repreendendo, porque eu queria puxar assunto no corredor com alguma paciente. Ali, talvez, tenha sido a primeira vez em que pensei no sentido daquilo tudo. Acredito que isso aconteceu comigo por um motivo.

tempo 4Mas da consciência de que a gente precisa repensar a vida até efetivamente ter coragem de tomar uma atitude a respeito pode levar bastante tempo. Recebi outros sinais. No ano seguinte, quando estava entre idas e vindas a São Paulo, meu táxi capotou. Sentada em cima da mala, ilesa, olhando para o carro com as rodas para o alto, pensei: “Meu Deus, e se eu morro aqui? Enlouquecida, sozinha, trabalhando, longe do meu filho e da minha vida?”. Em 2014, mais um sinal do corpo: uma suspeita de câncer no colo do útero. Mais uma vez, não se confirmou.

Por essa época, também, comecei a fazer as imersões com o Gabriel (Carneiro Costa, palestrante e consultor de gestão do tempo). Ali eu entendi que mais de uma vez eu havia caído no conto do dinheiro. Sempre que eu manifestava aos meus diretores o desejo de sair, ganhava um bom aumento e um  percentual ainda maior de responsabilidade. E mulher sempre acha que consegue dar conta de mais alguma coisa. E sempre tem medo de que aquele dinheiro a mais, um dia, vá faltar.

Casei pela segunda vez em 2010, e já cheguei a colocar na cabeça que a saída para ter mais tempo era, veja só, ter um segundo filho. Precisou um amigo me pegar pelo braço e dizer: “Mas, Karine, vocês dois já têm um filho adolescente cada, são jovens e recém-casados, o que tu queres com outro filho?”. Eu queria fugir da vida agitada e intensa do trabalho.

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Então, no final do ano passado, enfim dei um basta e saí da empresa. Lá, ninguém entendeu a saída
de uma pessoa na minha posição. Fui trabalhar na empresa de um ex-colega, com uma rotina completamente diferente, com direito a dar atenção a um projeto pessoal meu. Tem a ver com paixões minhas: moda e economia compartilhada. Comecei a dar atenção à saúde, à forma física e aos meus familiares.

Às segundas-feiras, almoço somente com meus pais e meu irmão. Às quintas, só eu e o meu filho, para bater papo sobre a vida. Passei a cozinhar minha própria comida e fazer aulas de inglês, algumas das coisas que ficaram para trás na correria. Também adquiri hábitos de desapego ao trabalho, como deixar o notebook trancafiado na empresa aos finais de semana. Também me tornei mais parceira do meu marido, e ele de mim.

Há duas semanas, aconteceu algo engraçado. Segundos antes de vocês me ligarem convidando para esta entrevista, estava em Curitiba, tomando um café no meio da tarde e pensando justamente como eu havia tomado a decisão certa, aos 40 anos, ao retomar as rédeas do meu tempo”.

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