Doulas de parto: conheça um pouco do trabalho de mais três companheiras de mães e bebês

Fabi Panassol, Cristina Melo e Camila Lima relatam suas experiências

Fabi Panassol (de blusa florida) em trabalho com as grávidas
Fabi Panassol (de blusa florida) em trabalho com as grávidas Foto: Fernando Gomes

Fabi Panassol: para um mundo melhor

Em cada mulher que a doula Fabi Panassol atende repousa a esperança de um mundo mais justo e humano. Pelo menos é nisso que a porto-alegrense de 46 anos acredita desde que começou a exercer a profissão, há 10 anos. Ela também dá aulas de ioga para gestantes, além de aplicar técnicas como cromoterapia, massagem, reiki e florais para acalmar e preparar as futuras mamães para a hora do parto.

Presença de amor: o apoio das doulas de parto

Ser doula não estava nos planos de Fabi. Formada em Direito, ela estudava para concursos públicos quando engravidou de seu filho, hoje com 11 anos. No parto, conheceu a importância do trabalho das doulas e ficou completamente apaixonada pelo ofício. Fez o curso de formação com uma outra doula de Porto Alegre e logo passou a atuar. Como vem de uma família ligada nas terapias holísticas, não demorou muito para aliar a ioga, a shantala e até a hipnose para as gestantes.

? Todas essas técnicas ajudam a mulher a melhorar sua postura e a respiração, além de preparar o espírito, o corpo e as emoções para o dia do nascimento do seu filho ? explica.

Na última década, Fabi viu a clientela crescer em ritmo acelerado. Tem, inclusive, o apoio de uma segunda doula, que fica de sobreaviso nos meses em que muitos partos estão programados – exemplo deste mês de maio, quando Fabi acompanhará quatro parturientes.

Casada e com o filho ainda pequeno, Fabi precisa fazer uma ginástica para adequar a vida pessoal ao atendimento às suas clientes e às aulas que ministra regularmente. Mas não reclama. Pelo contrário. Acompanhar as mulheres nos partos é, para ela, fonte de inspiração, energia e felicidade. A troca intensa de emoções entre ela, a nova mamãe e o bebê é, segundo Fabi, uma espécie de seiva vital.

? Me entrego de corpo e alma para cada momento e é incrível. Lido com uma vida nova que está chegando, e isso é gratificante demais. Na verdade, sou eu que mais ganho com tudo isso.

Ser doula é…

Antes do nascimento, a doula orienta o casal sobre os detalhes do parto e da chegada do bebê. Também auxilia a mãe a se preparar para o nascimento, física e emocionalmente, e a reconhecer os sinais do próprio corpo, que lhe dirão quando a hora chegar. Ainda ensina técnicas como respiração, massagem e banhos, que ajudam a reduzir as dores e a tranquilizar.

Durante o parto, a doula intermedia a relação entre o casal e a equipe médica, tranquiliza a mãe, fica atenta aos seus sinais e a ajuda no trabalho de parto, indicando as melhores posições.


Cristina Melo
Foto: Carol Dias/Divulgação

Cristina Melo: dom que nasceu com ela

Filha de parteira e, desde sempre, fascinada por nascimentos, Cristina Melo, 23 anos, é, apesar da pouca idade, uma das doulas mais conhecidas de Santa Catarina. Sua história é um verdadeiro depoimento de amor à profissão e de luta pelo direito das mulheres a ter um parto normal e humanizado, se assim desejarem.

Presença de amor: o apoio das doulas de parto

Cris acompanhou o primeiro parto aos 16 anos, depois de praticamente implorar à tia, que ia sozinha para a maternidade. Viveu com ela todos os momentos e ajudou outras duas mulheres, também parturientes, muito mais por instinto do que por conhecimento. Saiu de lá feliz, completamente realizada.

? Lembro que era o Dia dos Namorados, o primeiro que eu passaria com o meu namorado, hoje meu marido. Mas não pensei em nada, deixei ele e fui acompanhar a minha tia. Ele ficou um pouco chateado, claro, mas entendeu ? relembra Cris.

Talvez por destino, talvez por uma vontade maior do que a razão, alguns meses depois a adolescente também engravidou. Tinha 17 anos. Planejou em detalhes o parto normal, mas na hora do nascimento a obstetra recomendou a cesárea – desnecessária, descobriu-se depois. Decepcionada, decidiu que ajudaria outras mulheres, para que não fossem induzidas a uma cirurgia quando seu verdadeiro desejo fosse o parto natural.

O caminho até tornar-se doula, no entanto, ainda foi longo. A filhinha Sofia era pequena, demandava cuidados constantes. E, além disso, não havia cursos para a formação de doulas em Florianópolis, onde mora. Foi somente quando a pequena completou três anos que Cris decidiu perseguir o sonho. Já formada no curso técnico de enfermagem, foi para São Paulo especializar-se no que sempre soube fazer, instintivamente. Desde então, é requisitada por um número crescente de mulheres. E ainda dá palestras e presta consultoria.

? No começo era difícil, as pessoas não conheciam esse trabalho em Santa Catarina. Daí fui buscar profissionais que faziam parto humanizado para me apresentar, fiz um blog e corri atrás. Hoje atendo de seis a oito clientes por mês ? comemora.

Em seu site, ao convidar o público para suas palestras, Cris alerta: “Parto é sempre prioridade, portanto, a palestra pode ser cancelada no dia”. Habituada a acompanhar as clientes antes, durante e também depois do parto, para auxiliar na adaptação do bebê, a doula reconhece a própria importância para as famílias que a procuram. Por isso, está sempre à disposição. Também acompanha partos voluntariamente, para famílias que não têm condições de pagar pelo trabalho.

? Isso é um dom, é muito mais do que um trabalho. Não tenho o direito de negar isso às mulheres só porque elas não têm dinheiro.

Tanto envolvimento e entrega custam a Cris alguns sacrifícios, especialmente na vida familiar. Quando sai de casa para um parto, Sofia vai logo reclamando:

? Mãe, esse nenê que está nascendo tem a mãe dele. Você é minha mãe! – diz a pequena, brava por precisar ficar com os avós quando a mãe sai de madrugada a caminho de alguma maternidade.

Apesar do profundo amor que tem pelo ofício, sabe que terá de parar – ao menos temporariamente. Pretende ter outro filho, desta vez com o obstetra certo e com o precioso acompanhamento de uma doula. Mas ainda não. Sente que ainda não é hora de deixar de lado tantas e tantas mulheres que precisam da menina que, tamanho amor que tem pelo trabalho, parece que já nasceu doula.


Camila Lima
Foto: Júlio Cordeiro/Agência RBS

Camila Lima: do mestrado para os partos

Ela havia terminado há pouco o mestrado em Geografia e se preparava para atuar na área quando a vida mudou. Traumatizada pelo parto cirúrgico da primeira filha, há sete anos, decidiu tentar o parto natural em casa. Além dos profissionais de saúde, buscou o apoio de uma doula para a sua hora. Depois que a segunda filha nasceu, não conseguiu mais pensar em outra coisa que não fosse proporcionar a outras mulheres o maravilhamento que sentiu ao dar a luz naturalmente. Queria, agora, atuar como aquela mão amiga que havia lhe protegido tanto.

Os planos de trabalhar na área de Geografia foram imediatamente aposentados por Camila Lima, 30 anos, natural de Recife e moradora de Porto Alegre. Depois que a filha, hoje com dois anos, cresceu um pouquinho, fez o curso e tornou-se doula profissional, atividade que exerce há um ano. Até agora foram três clientes: duas amigas, que tiveram parto domiciliar, e uma terceira mãe, moradora de Santiago, que veio à Capital para o nascimento do filho. Acompanhou todas durante quase a gravidez, aconselhando, compartilhando e preparando as mulheres para o momento mais importante de suas vidas.

Compensou o pouco tempo de ofício com a experiência que acumulou com as próprias filhas e com o entusiasmo que não a abandona desde que decidiu o caminho que queria trilhar pelo resto da vida.

O maior desejo de Camila é ser, para as mães que atende, o mesmo que a doula do seu segundo parto é para ela.

? Ainda ligo para a minha doula para tirar dúvidas ou para compartilhar angústias e emoções. Às vezes, parece que não vou conseguir enfrentar determinada situação sem os conselhos dela. Se puder, também quero ser essa figura para as minhas clientes ? comenta.

As perspectivas, segundo Camila, são as melhores, já que esse mercado cresce rapidamente em Porto Alegre e no restante do país. Mas o encantamento da nova doula pela profissão passa, segundo ela, menos pela possibilidade de ganhos financeiros e mais pela oportunidade de compartilhar com as mães a intensa e íntima experiência do nascimento de seus filhos.

? Quero ajudar as mulheres que desejam ter parto sem cirurgias ou medicamentos, para que possam ter sua vontade respeitada e seu bem estar preservado.

Sobre a possibilidade de sentir saudades da geografia ou decidir, futuramente, revitalizar o diploma do mestrado, Camila é enfática:

? Sou muito feliz sendo doula. Nada me dá tanta fé na vida como um parto. Não quero abrir mão disso. Nunca mais.

Ser doula é…

Depois do parto, a doula pode ou não continuar acompanhando a família. Algumas atuam somente antes e durante o parto. Outras permanecem durante as primeiras semanas do bebê, para orientar o aleitamento. E ainda há as que continuam com a família por alguns anos, orientando sobre questões importantes na vida da criança, como a alimentação, o sono e a escola.

A figura da doula é muito associada ao parto domiciliar, mas na verdade ela pode estar presente em qualquer tipo de parto, até mesmo nas cesáreas. Basta que a família tenha o desejo de ser acompanhada pela profissional.

As últimas do Donna
Comente

Hot no Donna