Drunkorexia, a dieta do vício

Para manterem-se magras, mulheres trocam a comida pelo álcool

A combinação entre abuso de álcool e falta de nutrientes pode causar desnutrição e gastrite, além de lesões hepáticas que podem resultar em hepatite e câncer
A combinação entre abuso de álcool e falta de nutrientes pode causar desnutrição e gastrite, além de lesões hepáticas que podem resultar em hepatite e câncer Foto: Guto Kuerten

Substituir refeições por álcool, trocar as calorias de grupos alimentares por aquelas contidas nas bebidas ou ainda utilizá-las para aplacar ansiedade e vazio no estômago geram um comportamento de risco que recentemente foi batizado de alcoolrexia, anorexia alcoólica ou drunkorexia (“drunk” significa bêbado, em inglês). Os nomes não são oficiais, assim como o comportamento não é considerado um transtorno alimentar, mas especialistas alertam para o aumento no número de meninas que apresentam esse traço.

– A valorização cultural da magreza e a aceitação social do uso de álcool pelos jovens têm provocado o aumento de casos, mas não há dados definitivos sobre quantas pessoas apresentam este tipo de comportamento – explica Eduardo Wagner Aratangy, supervisor do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

– A preocupação com as calorias é tanta que o mínimo que ela se permite usa no álcool. Elas não querem abrir mão disso, então não comem quase nada. Em outros casos, a bebida pode tirar a fome – explica a nutricionista Isabela Sell.

Seja por mecanismos calóricos ou cerebrais, o álcool, de fato, pode dar a sensação de saciedade.

– O álcool libera dopamina, neurotransmissor que diminui a ansiedade. Quando estamos com fome ficamos mais ansiosos. O álcool relaxa. Ele também tem um aporte calórico, mas não tem proteína nem aminoácido – explica o psiquiatra Marcos Zaleski.

A combinação entre abuso de álcool e falta de nutrientes pode causar desnutrição e gastrite, além de lesões hepáticas que podem resultar em hepatite e câncer. Do ponto de vista psiquiátrico, pode provocar ansiedade e depressão.

O aumento do consumo de álcool entre as mulheres está relacionado à obsessão pelo corpo perfeito. Conforme pesquisas, em duas décadas, a proporção de mulheres entre a população alcoólatra passou de 10% para 30%. Zaleski participou do Levantamento Nacional de Padrão de Consumo de Álcool divulgado pela Secretaria Nacional Antidrogas e afirma que o comportamento das mulheres mudou muito de dez anos para cá.

– Entre as adolescentes, os dados preocupam mais ainda. Em pesquisa recente descobrimos que, pela primeira vez, as meninas entre 14 e 18 anos estão bebendo mais que os meninos, em frequência – declarou o psiquiatra.

Barbie como parâmetro

A discussão sobre a anorexia alcoólica no Brasil vem sendo alavancada principalmente pela novela Viver a Vida, que inclui na trama uma drunkoréxica. Interpretada por Bárbara Paz, Renata abusa dos drinques e se enxerga no espelho muito mais gorda do que realmente é. Seria um caso extremo do comportamento. Embora reconheçam que a discussão em horário nobre é benéfica, já que alerta sobre os perigos do comportamento, alguns profissionais se preocupam com a influência.

– A novela se dá em um ambiente glamouroso, bonito. A personagem quer ser modelo, a exemplo de muitas adolescentes. Eu fico com um pouco de medo que o comportamento seja copiado e vire uma moda. O conhecimento desse comportamento tem que vir como um alerta e não como uma propaganda – diz a nutricionista Isabela Sell.

Ela alerta sobre a importância de a novela mostrar o tratamento adequado, que seja um serviço de utilidade pública. A médica nutróloga Maria del Rosario Zariategui de Alonso critica outro aspecto envolvido na trama:

– Na novela, o que está aparecendo são mulheres magérrimas. A própria Taís Araújo emagreceu muito para fazer a personagem Helena. Ela está parecendo uma Barbie. Então parece uma mensagem esquizofrênica, dupla.

Método é perigoso e ineficaz

Referência em transtornos alimentares na América do Sul, o Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria de São Paulo (Ambulim) oferece um serviço ainda considerado artigo de luxo no Brasil: atendimento ambulatorial multidisciplinar gratuito. Em entrevista, o supervisor do Ambulim, Eduardo Wagner Aratangy, alerta que a desnutrição acelera os efeitos lesivos do álcool, levando à morte mais rapidamente.

Transtorno alimentar
“A alcoorexia ou drunkorexia não é um diagnóstico, mas um método inadequado de restrição calórica. Em geral, vemos este quadro em pacientes com transtorno alimentar, mais comumente bulimia nervosa, associada ao abuso ou dependência de álcool.”

Números
“A maior parte dos pacientes com drunkorexia são mulheres jovens, em geral com outros diagnósticos psiquiátricos associados. Os dados disponíveis indicam não haver distinção entre classes sociais. A valorização cultural da magreza e a aceitação social do uso de álcool pelos jovens têm provocado o aumento de casos, mas não há dados definitivos sobre quantas pessoas apresentem este tipo de comportamento.”

Tratamento
“Deve ser feito por uma equipe, pois é comum haver dependência de outras substâncias, transtornos afetivos ou de personalidade nestes pacientes. Com acompanhamento multidisciplinar temos observado bons resultados. É importante que a família seja incluída no tratamento e que a motivação seja sempre estimulada. Há medicações que auxiliam, mas o fator decisivo para o sucesso é o envolvimento do paciente.”

O QUE É
::: Diabulimia: uso inadequado da insulina em diabéticos para obter perda de peso.
::: Ortorexia: preocupação doentia com alimentação correta e saudável.
::: Vigorexia: excesso de atividade física e cuidados obsessivos com o corpo.
::: Manorexia: anorexia ou bulimia em homens.

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