Ela, ele e os filhos dele: confira histórias de jovens madrastas

Conviver com filhos do primeiro casamento é tendência entre novas famílias

Betina tinha 22 anos quando casou-se com Ricardo, que já tinha uma filha de 9 anos
Betina tinha 22 anos quando casou-se com Ricardo, que já tinha uma filha de 9 anos Foto: Felipe Carneiro

Lidiany, 26 anos, é casada há seis meses com Carlos. Eles se conheceram há dois anos, quando ela também começou a ter contato com o filho dele, de cinco anos:

—  É um menino amoroso, e nunca tivemos desentendimentos. Conseguimos conquistar um ao outro. Confesso que no início achei que não daria conta de cuidar de um filho que não era meu, ficava preocupada se ele iria gostar de mim ou até mesmo eu dele.

O tempo, entretanto, tratou de acabar com as inseguranças da jovem madrasta. Lidiany afirma que a cada dia que passa se sente mais presente na vida do menino, e mais responsável por ele também.

— Sempre que meu enteado precisar, estarei de braços abertos para recebê-lo e dar o melhor de mim, principalmente, carinho e amor — assegura.

O papel de madrasta era totalmente novo para Lidiany — e é assim, também, para milhares de outras jovens que vivem histórias parecidas com a dela. É uma nova geração de madrastas, cujo número cresce a cada dia. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mulheres solteiras que se casou com homens divorciados cresceu cerca de 60% nos últimos 10 anos, o que demonstra que este é um dos novos perfis da família brasileira.

Relação madrasta e enteados

Para a psiquiatra Maria Elisabeth do Valle, que trabalha com terapia de família, não existe uma regra a ser seguida quando o assunto é relacionamento entre madrasta e enteados. O mais importante é respeitar o lugar de cada um.

— Deve-se ter muito cuidado para manter a harmonia familiar, lembrando que o lugar de madrasta não é o da mãe biológgica, mas muitas vezes torna-se necessário ocupar a função da mãe.

A especialista ressalta a importância de se estabelecer uma hierarquia entre a madrasta e o pai das crianças. Pois, se ela está segura quanto ao lugar que ocupa nesta família, tudo se tornará mais fácil.

— Caso a madrasta entre no jogo das crianças (o que muitas vezes acaba acontecendo), o caos estará estabelecido.

Saber o seu lugar

Baseada nos casos atendidos no consultório, Maria Elisabeth entende que o melhor que a madrasta pode fazer é manter uma relação de afeto com as crianças e ocupar o lugar de mulher do pai.

— Às vezes as crianças sentem que estão traindo a mãe, caso venham a gostar da madrasta. Se houver maturidade, a segunda mulher vai conseguir dar tempo ao tempo e resolver a situação.

Os filhos, em geral, vão testar, brigar e até provocar a madrasta. Ela precisa se posicionar, colocando limites e buscando a parceria do cônjuge.

— Penso que os problemas maiores ocorrem quando as novas parceiras querem separar os filhos dos pais, por ciúme ou insegurança, aí tende a dar tudo errado — comenta a psiquiatra.

Ao relacionar-se com um homem com filhos, ela deve saber que o “kit” vem completo e ter plena consciência de que a vida não será fácil, mas que, se bem administrada, pode-se ter uma relação bem satisfatória para todos.

:: Mãe emprestada de adolescentes

Analucia Freitas dos Passos tinha só 21 anos quando trocou alianças com Ronald, de 37. Apesar da pouca idade, ela lembra que acabou assumindo um lugarzinho que estava vago naquela família, que precisava de uma presença feminina para ficar completa. Laura, que na época tinha 11 anos, estava em plena fase das descobertas do próprio corpo, lutando com as dúvidas naturais da pré-adolescência. Junior tinha 9 anos e, assim como a irmã, contava com a ajuda da avó para preencher o vazio deixado pela separação dos pais.

— Eu e a Laura nos aproximamos muito por meio das pequenas coisas do cotidiano. Ela precisava de ajuda para se arrumar, para falar de assuntos de mulher. Quando eu cheguei, realmente senti que as crianças estavam precisando de alguém. Ainda chamo de crianças (risos) — conta.

Analucia admite que tem vontade de ter os próprios filhos, mas garante que não ter engravidado nada tem a ver com o fato de o marido já ter dois filhos. Diz que foi uma decisão que tomaram em conjunto e que este pode ser um projeto futuro. Por enquanto, aos 25 anos, ela é parte de uma família um pouco incomum. É a mãe emprestada de um casal de adolescentes.

— Meu marido é consultor e só está em casa nos finais de semana. Eu e as crianças passamos a semana toda juntos, fazendo companhia uns para os outros. Não consigo imaginar minha vida sem eles. Me sentiria muito sozinha — conclui.

:: De estranhas a boas amigas

A estudante Betina Borges conheceu o contador Ricardo Vieira há cerca de 10 anos. Primeiro, começaram a conversar em uma sala de bate-papo na internet. Depois, conheceram-se pessoalmente. Somente quando viu que a amizade poderia evoluir para algo mais sério é que Ricardo contou que era separado e tinha uma filha, que morava com ele. Passado o susto inicial, Betina decidiu apostar na relação.

Ela tinha 22 anos, ele, 34. Na bagagem, trazia Wanessa, na época com nove anos. O primeiro encontro entre as duas aconteceu num passeio em Balneário Camboriú.

— Na hora não gostei muito dela. Acho que foi ciúme — conta Wanessa, hoje com 19 anos, estudante de História na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Relação mudou com o tempo

O tempo, porém, tratou de dissipar todas as inseguranças. Betina esteve sempre ao lado da enteada, acompanhou o seu crescimento, as transformações da adolescência, a entrada na vida adulta. Apesar de também ser muito jovem, a madrasta provou que poderia dar conta da responsabilidade. Hoje, as duas são amigas e confidentes, e Wanessa também mantém boa relação com a mãe.

— Realmente nos damos muito bem. No início teve a fase de adaptação, tanto para mim quanto para a Wanessa. Afinal, éramos duas pessoas praticamente estranhas tendo que conviver sob o mesmo teto.

Betina confessa que, no início, sentiu muito medo. Ciúme não rolou. Quando engravidou, achou que teria que enfrentar uma barra pesada com a enteada.

— Mas todos nós tiramos de letra, e ela realmente me surpreendeu. Jamais imaginei que o amor que ela tem pelo irmão (João Guilherme, de seis anos) seria tão imenso. E a recíproca é verdadeira, ele é louquinho pela mana Wanessa. Realmente posso dizer que tenho uma família feliz.

Betina acredita que a receita da harmonia em sua casa é cada um saber o seu lugar na família, respeitando o espaço do outro.

— Eu sou a mulher do Ricardo, nunca me portei como a mãe de Wanessa. Claro que dou conselhos, converso com ela, cuido quando está doente. Mas nunca quis ocupar um lugar que não é o meu. Estou pronta para ajudá-la, a qualquer hora, e ela sabe disso. Assim como sei que, se um dia eu precisar, ela estará pronta para me ajudar.

* Colaborou Fernanda Meneghel

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