Elas contam por que resolveram congelar seus óvulos

Doenças e vida profissional agitada motivam casais a adotar o procedimento

Sabrina e Alexandre tiveram Davi sem utilizar os óvulos coletados anos antes e pretendem manter o material
Sabrina e Alexandre tiveram Davi sem utilizar os óvulos coletados anos antes e pretendem manter o material Foto: Diego Vara

Primeiro a carreira, depois a maternidade

Dividida entre as quadras de saibro e as constantes viagens a trabalho pelo Brasil, a professora de tênis Sabrina Storchi Giusto, 37 anos, passou a vida dedicando-se à profissão. Desde jovem, o trabalho foi a sua prioridade – dos 17 aos 19 anos, jogou quatro vezes o torneio de Roland Garros, na França, e chegou a figurar no ranking da Associação de Tênis Feminino.

Aos 33 anos, ela ainda não estava casada, não tinha casa própria e não via perspectiva de diminuir o ritmo de trabalho, dedicando-se a aulas de tênis na Sociedade Ginástica de Porto Alegre (Sogipa) e à formação de professores na Confederação Brasileira de Tênis. Em uma conversa com uma amiga embriologista, conheceu a técnica de vitrificação.

– Naquela época, eu acreditava que não tinha condições de ter um filho. Além disso, meu namorado, que hoje é meu marido, já tinha dois filhos. Eu sabia que precisava ter uma vida profissional mais calma, mas não tinha previsão de quando isso poderia ocorrer – conta Sabrina, casada com o também professor de tênis Alexandre da Costa, 42 anos.

Em janeiro de 2004, Sabrina decidiu iniciar os exames para fazer o tratamento e, em abril do mesmo ano, fez a coleta e o congelamento de 11 óvulos. Dois anos depois, acabou se casando e, aos 36 anos, engravidou de Davi, nascido em junho de 2008. A professora não precisou usar os óvulos armazenados, mas, mesmo assim, diz que não pretende se desfazer do material.

– Agora eu digo que não quero mais ter filhos, mas não sei como estarei pensando nos próximos anos. Também tem a vantagem de ser um material genético meu. Se no futuro precisar de células-tronco, já tenho os óvulos para ajudar na obtenção desse material – diz.

Garantia de uma vida mais tranquila

Os planos da médica nuclear Juliana Goellner Bertol, 31 anos, de se tornar mãe em 2010 estão amadurecendo. Hoje, ela se sente pronta e muito mais segura do que há 11 anos, quando quase viu esse sonho ser interrompido. Aos 20 anos, uma neoplasia (tumor) ovariana fez com retirasse o ovário esquerdo. Em 2003, o mesmo problema começou a comprometer o outro órgão, e ela teve de se submeter a outra cirurgia.

 Felizmente, ela não precisou remover o ovário, mas, a partir daí, a médica começou a pensar muito sobre seu futuro como mãe. Como o órgão foi preservado, o pai de Juliana, que também é médico, passou meses convencendo a filha a buscar a preservação de óvulos.

– Embora não tivesse a intenção de me casar naquela época, sabia que um dia isso ocorreria e gostaria de me tornar mãe – conta.

Em 2005, Juliana decidiu fazer o congelamento. O fato de ser médica e ter consciência de que havia a possibilidade de uma nova neoplasia foi o que a fez se decidir pelo tratamento. Mesmo assim, ela temia que algo pudesse não dar certo. Tudo deu certo: hoje Juliana tem cinco óvulos bem armazenados.

– Fiz o congelamento como forma de prevenção. E isso não significa que terei de usá-los – diz Juliana.

Casada com o empresário Ivo Bertol Júnior, 29 anos – com quem começou a namorar no fim do tratamento – , ela não planeja utilizar suas células reprodutivas para gerar o primeiro filho do casal. Apenas toma os cuidados necessários na profissão, já que a especialidade a obriga a trabalhar com radiação.

– Foi uma forma de garantia. Tirei da cabeça a dúvida de se poderia ter filhos algum dia, não me incomodei mais com isso. Passei a viver muito mais tranquila – comemora.

Um filho sete anos após a morte do marido

Quando João nasceu, seu pai já estava morto havia sete anos. Sua concepção é fruto do avanço nas técnicas de reprodução assistida que permitiu que Carlos, pai de João, congelasse seu sêmen antes de submeter a um tratamento para combater uma leucemia.

Seis meses após o diagnóstico, Carlos morreu, mas deixou expressa a permissão para que a mulher, Paula, usasse seu esperma mesmo na sua ausência. Passaram-se sete anos até que Paula decidiu ter um filho do marido morto. Ela pediu a autorização da família de Carlos, submeteu-se a entrevistas com psicólogas e realizou uma fertilização in vitro no Estado.

– Ele é o amor de minha vida. Mesmo depois de sete anos, nunca mais tive ninguém como ele. Hoje, a coisa mais importante é o nosso filho – conta Paula.

Apesar de raros, casos como o de Paula vêm se tornando uma realidade no país e no Exterior. A possibilidade de a maternidade ser realizada sem que o pai seja vivo ou conhecido (no caso de mulheres que recorrem a bancos de sêmen) vem obrigando a Justiça e a psicologia a lançarem o olhar sobre as novas famílias. O ginecologista e doutor em reprodução humana João Sabino afirma que estudos que acompanharam o crescimento de filhos de mulheres solteiras e casais homossexuais mostraram não haver diferença no desenvolvimento e no ajuste social dessas crianças quando comparadas às nascidas de casais tradicionais.

No caso de Paula, as dúvidas agora pesam sobre como contar ao filho, prestes a completar dois anos, a forma como ele foi concebido.

– Quero dividir com João a pessoa maravilhosa

que era o pai dele – revela. Por enquanto, Paula tenta manter o assunto restrito à família para evitar que o filho saiba do assunto por outras pessoas. Para os amigos, João é fruto de uma produção independente.

– A agilidade dos médicos foi decisiva. Quando Carlos soube do câncer, foi oferecido a ele o congelamento de sêmen. Quando se recebe um diagnóstico desses, o choque não permite que a gente pense na vida sem a possibilidade de ter uma família. Quero encorajar outras pessoas a pensarem no futuro como Carlos fez, mesmo em condições tão dolorosas – diz.

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