Em “Amy, Minha Filha”, Mitch Winehouse relembra a vida da cantora inglesa

O pai de Amy Winehouse, que morreu precocemente aos 27 anos, conta a agustiante batalha da filha contra drogas e o álcool

Imagem do livro "Amy, Minha Filha"
Imagem do livro "Amy, Minha Filha" Foto: Reprodução

“Vocês vão entender se eu disser que este não é o livro que queria escrever”, diz Mitch Winehouse na abertura de Amy, Minha Filha. É de se imaginar o quão torturante deve ter sido recontar a breve história da filha que encantou o mundo com um estilo autêntico, uma voz poderosa e canções arrebatadoras, mas morreu precocemente aos 27 anos, em 23 de julho de 2011.

Desde pequenos, Amy e o irmão, Alex, eram incentivados pelos pais a apresentarem “pequenos shows”. Sob aplausos, a futura encantadora de multidões treinou desde cedo soltar a voz – e cantava sempre mais alto que o irmão, pois não admitia ser coadjuvante. Aliás, Mitch lembra que, quando começava a entoar uma canção, a filha não parava mais. “Fica quieta, Amy”, foi a frase mais ouvida pela cantora durante a infância.

Sapeca, Amy gostava de aprontar travessuras aos familiares e conhecidos: certa vez, fugiu da mãe quando estavam em um parque em Londres e, ao encontrar uma amiga da tia, relatou que havia sido deixada sozinha no local. Até a polícia foi acionada para encontrá-la. Outro hábito rotineiro de Amy era fingir que se engasgava para causar tumulto onde estivesse.

 
Quando estava em apuros na escola, Amy (no centro da foto) cantava bem alto a música “Fly Me to the Moon”, de Frank Sinatra, para se acalmar. Imagem da turma em 1994

Apesar de “não se adaptar ao ensino formal”, a adolescente Amy gostava de solucionar problemas complexos de matemática ? além de resolver Sudoku com grande agilidade. A alternativa encontrada pelos pais foi inscrevê-la em uma escola de teatro que incentivava os alunos a colocarem em prática as habilidades artísticas. Decidida, Amy escreveu, aos 12 anos, uma carta explicando por que gostaria de ser aceita na instituição: “Acima de tudo, tenho o sonho de ser muito famosa. Trabalhar no palco. É uma ambição que tive a vida inteira. Quero que as pessoas escutem a minha voz e simplesmente se esqueçam de seus problemas por cinco minutos”.

O sonho da jovem começou a se concretizar alguns anos mais tarde. Após ser ouvida em um pub, foi contratada para gravar o primeiro disco, Frank. Para muitos artistas, ter um contrato pode significar bastante, mas, para Amy, a parte burocrática da indústria da música era uma chatice que deveria ser evitada. Tanto que não foi à primeira reunião com executivos. Na segunda, só apareceu graças ao empenho de um amigo que a colocou dentro de uma caçamba de lixo prometendo tirá-la de lá apenas quando concordasse em aparecer no encontro.

 
Desde pequena, Amy fazia de tudo para ser o centro das atenções. Na foto, aos cinco anos, faz pose na casa da família, em Southgate, na zona norte de Londres.

Inspirado pelo fim do relacionamento com um jornalista alguns anos mais velho, o CD de estreia foi desdenhado pela cantora porque, segundo o pai, ela faltava às sessões de edição, nas quais os produtores acrescentaram mixagens que não eram apreciadas por ela.

Tema de uma canção de Frank, a guitarra chamada de Cherry virou ponto de discórdia entre os executivos da gravadora ao analisarem suas apresentações ao vivo. A timidez diante de uma grande plateia a fazia baixar o olhar para analisar com precisão as cordas dedilhadas. Quase sem interagir, muitas vezes ficava de costas para o público. Para perder a insegurança de estar em um palco, Mitch lembra que a filha recorreu à bebida alcoólica ? e à maconha, eventualmente. Foi o começo de uma história consagrada meses depois na letra de Rehab, em que Mitch garantia que ela não precisaria se internar em uma clínica de reabilitação por causa de uns drinques.

Personagem mais odiado pelos fãs da cantora, Blake Fielder-Civil surgiu na vida de Amy de maneira arrebatadora no início de 2005. No mês seguinte, uma tatuagem com o nome do assistente de palco já estava eternizada sobre o seio esquerdo dela. A partir de então, Blake é tratado pelo pai em seu livro como o principal incentivador das drogas pesadas e a influência mais negativa na vida de Amy ? opinião endossada por fãs, jornalistas e amigos. Mitch traz o relato de um amigo da filha. Ele afirma que, no primeiro dia em que Blake esteve no apartamento da namorada, ofereceu uma carreira de cocaína aos dois enquanto assistiam televisão.

Após o primeiro de muitos rompimentos, a cantora aperfeiçoou o visual com inspiração nos penteados ao estilo “ninho” dos grupos femininos da gravadora Motown, famosos nos anos 1960, e na maquiagem marcante das hispânicas que conheceu em viagem aos Estados Unidos e transformou a dor de um amor doentio nas canções do multiplatinado CD Back to Black.

Com o sucesso mundial, Amy embarcou em um caminho de excessos sem volta. Se no primeiro terço das 350 páginas do livro, o que se vê são lembranças instigantes e inéditas, a partir daí Mitch traz angustiantes relatos da dificuldade em colocar nos eixos uma garota viciada em drogas e álcool. As conquistas subsequentes que Amy teve na carreira passaram a ser pontuadas por overdoses e convulsões resultantes do consumo abusivo de substâncias ilícitas. O pai da cantora sempre tenta mostrar que não foi negligente diante dos sinais de que a filha não seguia o caminho mais correto. Esgotado, ele reclama dos altos e baixos de Amy, que, no dia seguinte à premiação com cinco Grammy, é encontrada com drogas na suíte de um hotel em Londres.

O que mais incomoda no livro de Mitch não é o estilo pouco inspirado, é a forma como conduz a história da filha: focada no dinheiro. Toda publicação, que foi escrita com a ajuda de dois amigos seus, é pontuada com o valor que Amy ganhou ou deixou de ganhar com viagens, shows cancelados, álbuns vendidos, internações em clínicas de reabilitações, turnês esgotadas e aluguéis de quartos de hotel.

Diante da ingrata jornada que foi controlar uma cantora indomável, um dos momentos de alívio relatados foram os cinco shows no Brasil (em Florianópolis, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro). Antes da turnê, que foi considerada “muito, muito boa” por Amy, Mitch não conseguia tirar uma pergunta da cabeça: estaria a filha sóbria e em condições para cantar a milhares de ávidos fãs? A resposta veio por telefone no dia em que ela estava embarcando:

? Estou pronta para me apresentar. E estou sóbria desde o início do ano, ha ha…

Detalhe: era 4 de janeiro.

Ao final do livro, Mitch faz um apelo: “Amy era uma grande garota, com um coração imenso. Por favor, lembrem-se dela com carinho”.

Não se preocupe, Mitch, os fãs desta londrina de voz irreparável certamente colocarão em prática suas palavras. A autenticidade de Amy não será esquecida. 

 
Fotos: Reprodução

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