Em entrevista, Mallu Magalhães fala sobre sua evolução pessoal e profissional

Longe da adolescente engraçadinha que ganhou o cenário musical, ela agora é um mulherão

"Estudo dança, japonês, violão e piano. Sou autodidata", diz Mallu
"Estudo dança, japonês, violão e piano. Sou autodidata", diz Mallu Foto: divulgação

Talvez eu tenha sido abduzida por extraterrestres ou passei tempo demais no meu próprio mundo, mas foi um choque quando abri um e-mail avisando de um novo clipe de Mallu Magalhães. Lembro de tê-la visto no Altas Horas (o programa do Serginho Groisman) em 2008 (confira em vídeo no fim da entrevista) e de lá para cá não prestei mais muita atenção. Sabia que havia casado com Marcelo Camelo, do grupo Los Hermanos, 14 anos mais velho, e que seguia cantando. Nada mais do que isso.

A mensagem do e-mail avisava do clipe da canção Velha e Louca. Ele seria exibido nos cinemas e trazia um link para uma prévia das imagens. Não sei se eu me senti mais velha ou louca. Aquela mocinha não tinha como ser a mesma guriazinha de boné que cantava bem, mas parecia com um filhotinho de cachorro abandonado ? olhando para os lados, sem parar e sem saber o que fazer com o próprio corpo.

>> Em infográfico, confira a evolução da cantora

Ela era uma gracinha. Tinha 15 anos, ria de nervosa, dava respostas doces de tão diretas e fazia sucesso por ter postado uma música no MySpace. A canção, assim como as outras três postadas na internet, Mallu gravou com o dinheiro que ganhou dos pais e dos avós. Era isso, debutar ou ir para a Disney. Parecia uma guria legal, terrivelmente assustada, como qualquer um ficaria se alçado ao sucesso de uma hora para a outra com tão pouca idade. Mas a timidez tinha seu charme infantil.

Só fui me dar conta da transformação imposta nesses anos ao receber aquele e-mail com o clipe de Velha e Louca. Mallu era uma cantora fazendo pose de Brigitte Bardot, remexendo-se no alto de um prédio ao som de uma música menos folk, mais alegre e que deixa a gente cantarolando o dia inteiro. Ali, ficou claro: a Mallu de hoje (assim, sem sobrenome) não tem quase mais nada a ver com a Mallu Magalhães de outrora.

Ela segue, sim, olhando para os lados. Perfeccionista, só consegue se soltar completamente cantando música dos outros. Esta nova Mallu cultivou um cabelão, deixou o inglês para poucas músicas, deu a mão para a MPB, casou com um homem bem mais velho, lançou uma coleção de roupas em parceria com uma marca famosa (ela assinou toda uma linha para a 2nd Floor, da Ellus) e virou a queridinha de expoentes da música nacional, como Tom Zé.

Adquiriu atitude de gente grande. No entanto, como qualquer garota de 20 anos, ainda procura seu lugar no mundo e na profissão. Deixa isso transparecer em Pitanga (disco lançado em 2011 e com o qual ela está em turnê até dezembro). A diferença é simples: agora, Mallu sabe onde pisa. No palco, se solta, dança, joga o cabelo para lá e para cá e até arrisca passos mais ousados (de preferência, quando a música é dos outros). Os olhos tímidos seguem ali, mas agora apresentam um certo ar de mistério desequilibrado. São a vitrine de Mallu diante dos tais desequilíbrios da vida adulta.

Confira o novo clipe:

No quarto de hotel em São Paulo, enquanto esperava o café da manhã, Mallu conversou com Donna sobre toda essa transformação.

“Sou uma mulher mais solar. Consegui me libertar da melancolia,
isso não tem nada a ver”

Donna ? O tempo passou desde quando você apareceu. A diferença é gritante. O que mais te influenciou nessa mudança?

Mallu ? É uma junção de tempo passando, experiência e idade. O tempo é realmente uma coisa incrível e impressionantemente misteriosa. Tem a ver com meu amadurecimento físico. O público acompanhou uma transição de uma criança-adolescente entrando na vida adulta. Eu sou uma adulta agora, tenho 20 anos, sou casada, tenho responsabilidades de adulto. No fundo, acho que sempre tive este lado adulto, desde criança. Sempre olhei para o mundo com seriedade, sempre levei o mundo muito a sério. Ao longo do tempo, fui aprendendo a me comunicar e a direcionar a minha energia para determinados lugares. Se antes eu fazia bagunça na escola, hoje eu danço no palco. Se quando eu era pequena gritava, fazia discurso e queria aparecer. Hoje eu canto.

Donna ? O segredo foi canalizar na música então?

Mallu ? Aprendi a canalizar toda a minha inadequação com o mundo para a música em vez de reverter isso para algo autodestrutivo, de ódio por mim mesma ou coisas do gênero. De algum jeito, o meu coração, o meu inconsciente, quiseram colocar isso para fora justamente para que eu pudesse identificar semelhantes e me sentir melhor. A minha relação com os fãs me fez perceber isso. A minha história com a música, com a arte, é quase uma forma desesperada de encontrar amigos e dizer para eles que existem outras pessoas assim. É um jeito de ajudar pessoas e me ajudar também. É um jeito de me sentir mais pertencente que inadequada.

Donna ? Sobre essa seriedade com o mundo: isso ajuda você na música e atrapalha na vida?

Mallu ? Ter seriedade com o mundo, ter uma honestidade com o mundo, é procurar um tipo de sensatez no mundo. É justamente isso que faz as coisas leves e pequenas parecerem leves e pequenas. Eu gosto de levar as coisas a sério por causa disso, mas não é uma seriedade de alguém pouco feliz. É sério de importante mesmo. Eu acho tudo muito importante.

Donna ? A internet foi uma ferramenta que ajudou a lançar você, via MySpace. Como é sua relação com ela hoje?

Mallu ? Eu sou de fases. Acredito que as pessoas ainda estão aprendendo a lidar com a internet, e eu também. Há momentos em que uso mais, especialmente quando estou com mais paciência e tempo livre. Adoro comprar livros, escutar músicas e fazer pesquisa na internet. Na verdade, tenho até que me forçar a ter algum tipo de relação mais forte com o Facebook, o Instagram, mas a minha entrega é bem pela música. Na internet, eu acabo divulgando desdobramentos do que eu faço com a música.

Donna ? A turnê do Pitanga passou por quase todas as capitais do país. Como está sendo isso para você?

Mallu ? Tem sido uma turnê reveladora, porque eu nunca tinha tido tanto… (Mallu pára um instante e reflete). Acho que nunca tinha tido tanto sucesso mesmo, no melhor sentido da palavra. As pessoas cantam emocionadas todas as letras. Acho que, finalmente, encontrei um jeito de me comunicar com a minha música, de comunicar meus sentimentos. Consigo dividir o que se passa comigo com as outras pessoas. Por isso os shows têm sido muito emocionantes. Com a ajuda do Marcelo e de toda a banda, eu consegui chegar a um resultado muito expressivo e de enorme satisfação pessoal e profissional. Estava havia anos procurando a minha estética. Acho que encontrei.

Donna ? Você diz que descobriu como se comunicar com o seu público através da sua música. O que mudou nessa comunicação do passado para hoje?

Mallu ?
Talvez a sinceridade e a autoralidade. Toda essa busca que, na verdade, é meio ilusória. Porque nada é totalmente meu. Eu sigo procurando fazer uma coisa nova, uma coisa minha. As danças, os gestos, o canto? tudo isso é um desejo de me expressar da forma mais verdadeira possível. Não é uma busca consciente de elementos diferentes. É natural e intuitivo. Uma música sincera é uma música autoral, feita à mão, feita com capricho, feita com muito choro e muita entrega. E eu descobri isso graças à produção do Marcelo [Camelo]. Porque ele me conhece pessoalmente. Ele me conhece inteira e pode me ajudar a expressar esse meu lado. Pode contribuir musicalmente comigo.

Donna ? Como você mesma disse, Pitanga te representa como pessoa. Como você lida com isso essa exposição?

Mallu ? Sinceramente, eu não vejo outra função para o meu corpo no mundo.

Donna ? No primeiro show que você fez em Porto Alegre, circulou uma mensagem dizendo para todo mundo chegar cedo, porque não podia atrasar. Você era menor de idade na época. Tem alguma lembrança desse show? Chegou a conhecer a cidade?

Mallu ? Tenho muitas lembranças. Vou muito a Porto Alegre, meu empresário, Rossato, é gaúcho. É superlegal a relação que vocês têm com a cultura e com a vontade de conhecer coisas novas. Eu lembro do primeiro show que eu fiz aí. Foi mucho loco. Sempre fui muito comilona, lembro que eu estava chegando, subi uma escadinha. Era um lugar pequeno, abri uma porta e, quando vi, tinha uma mesa enorme cheia de frutas. Fui direto para cima delas. Quando eu botei a mão em uma banana, ouvi uma gritaria. Tinha uma galera se esgoelando. Olhei para trás e já estava no palco. Não tinha camarim, era tudo meio que a mesma coisa. E eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Naquela época, eu tinha 16 anos, então tudo era muito divertido. Eu não tinha nenhum tipo de comprometimento com aquela coisa, nenhuma nóia ou seriedade. Vai ver era por isso que minha música era tão leve. Eu só me divertia. Lembro que deixei a banana de lado, peguei o violão e fiz o show.

Donna ? E sua linha de camisetas? Você diz que gosta de costurar, teus figurinos são sempre muito cuidadosos. Qual é sua relação com a moda?

Mallu ? Não é tão intensa e dedicada quanto a música. Adoro fazer estampas e elaborar figurinos, gosto muito de costurar. Tenho facilidade de me expressar com as minhas roupas e tenho a coragem também, a cara de pau mesmo. Mas a moda é uma profissão à parte e complicada como qualquer outra. Eu fiz alguns cursos, me formei em técnica de ploteiro e modelista. Mas é difícil. próprios. Minha contribuição para moda hoje é tocar durante os desfiles. Também gosto de criar roupas, às vezes contribuindo com as estampas. Curto costurar peças para mim, especialmente as que eu sinto falta e não encontro para comprar. Costuro para o Marcelo também. E gosto muito de tirar fotos. Fiz campanha de moda, participo em editoriais de revistas de moda. E sei que sou chata. Adoro dar opinião: isso eu não gosto, isso não tem nada a ver.

Donna ? A moda tem sido como uma segunda profissão, então.

Mallu ? Sim, cada vez mais. Descobri na moda não apenas um bom complemento de renda, mas um bom complemento artístico. Porque desta forma eu consigo trabalhar quando não estou produzindo música. Eu odeio ficar parada, fico de mau humor. A música, como a moda, passa por ciclos. Tem seus Fashion Week, suas produções. Há meses em que você não tem nada para fazer e há meses em que não paro em casa.

Donna ? Como você concilia as duas profissões com a vida de casada?

Mallu ? Ah, é fácil. Quando a pessoa ama você, e você ama a pessoa, você vai dando um jeito.

Donna ? O que você gosta de fazer nas horas de tempo livre?

Mallu ? Gosto muito de cozinhar. Faço vários pratos muito gostosos. Meu preferido é o camarão à provençal com arroz maravilhoso.

Donna ? Sofisticado, hein?

Mallu ? É, sofisticado. Isso aqui é alto nível! O meu pai também cozinha. A gente hoje tem muito isso de cozinhar junto. Minha irmã, Ana (mais velha), cozinha muito bem. Aprendi muito com ela. Minha mãe não gosta, mas o resto da família adora cozinhar, adora comer. E eu sou chata, sou chata mesmo, não gosto de comer qualquer coisa. Também gosto muito de videogame. Raramente tenho tempo livre, porque sempre levo algum estudo a sério.

Donna ? Que tipo de estudo?

Mallu ? Estudo dança, japonês, violão e piano. Imponho em minha vida um método de ensino particular. Sou autoditada. Fico presa a uma escola que eu mesma criei para mim.

Donna ? Você terminou o colégio, mas praticamente nunca saiu da escola.

Mallu ? Hoje em dia, eu estudo umas quatro ou cinco vezes mais do que na escola. Conhecimento vicia.

Donna ? Você pretende cursar uma faculdade tradicional?

Mallu ? Eu vivo tentando, eu vivo me inscrevendo em cursos, começando e largando no meio. Procuro cursos de curta duração para pode participar, mas a minha profissão propõe uma dedicação específica – e você tem que abrir mão de uma rotina e de planos. Não se pode fazer planos de vida sem trabalhar muito para que dêem certo. Talvez curse uma faculdade quando estiver mais velha, mais estabelecida. Ainda tenho que trabalhar muito, ainda não me sinto capaz de me dedicar a só assunto, em uma só cidade, em um só caminho todos os dias.

Donna ? Quais são seus planos?

Mallu ? Faço muitos planos, alguns já conquistei. Eu queria ser uma pessoa mais solar e consegui. Consegui me libertar da melancolia, acho que isso não tem nada a ver. E eu quero ter filhos, uma casa com horta. Acho que é uma coisa que tem que ser conquistada aos pouquinhos. Quando for a hora, eu vou saber, mas acho que, por agora, ainda não. Sempre tive esse plano de ter filhos e formar uma família. Os planos profissionais são mais de curto prazo: fazer um novo disco, um novo show. Planos de vida são mais complexos. E neles estão incluídos meus filhos, minha família e o desejo de me tornar uma pessoa melhor.

Donna ? E dentro desses planos de curto prazo, quando é que você lança o próximo disco?

Mallu ? Estou começando devagarinho. Vou tirar férias em dezembro, janeiro e fevereiro. Em março, abril, maio e junho, finalizo a turnê, percorrendo todas as capitais do país. A esta altura, já estarei com o disco praticamente pronto.

Mallu no Altas Horas, em 2008:


Parceiros de Mallu

Mallu é tímida mas é menina de muitas parcerias. No dia da entrevista desta Donna, contou enquanto tomava café da manhã em um hotel de São Paulo, que no dia anterior tinha participado da audição do disco Mulheres de Péricles, o disco celebra a cultuada obra do cantor, compositor e músico carioca Péricles Cavalcanti e deve ser lançado em dezembro. Neste álbum Mallu dá sua voz e faz a produção da faixa Elegia e engorda a lista de faixas que tem nomes como Tulipa Ruiz e Karina Buhr. Parece pouco, mas é mais uma boa prova do crescimento de Mallu como artista.

Antes disso, ela ainda participou de Tropicália Lixo Lógico de Tom Zé. Não fosse suficiente, Mallu ainda virou amiga pessoal do músico e com toda a naturalidade do mundo fala da oportunidade, que muita gente com anos de estrada gostaria daria um pedaço do dedo para ter:

? Vivíamos trocando e-mails, trocando músicas, visitando. Eu visito muito ele e a Neusa (esposa do Tom). Acompanhei o processo de produção do Tropicália Lixo Lógico, acompanhei inclusive a composição das músicas. Então, cheguei no Tropicália com muita intimidade, já sabendo do que se tratava. Mas a cada dia a coisa mudava, porque a banda dele é muito competente e ele também, é, poxa, o Tom Zé, né ? suspira.

Além disso, com Thiago Pethit, um dos queridinhos da nova geração, ela gravou a canção Perto do Fim. O próprio “moreno do cabelo enroladinho” [como ela canta na canção Olha só Moreno] Marcelo Camelo vive fazendo participações no show da amada, grava e escreve para e com ela.

Mallu e Marcelo

Em julho deste ano o alvoroço começou nos sites de fofoca: “Mallu casou. Cantora é fotografada usando aliança”, poucos dias depois flagram o ex-Los Hermanos e namorado da moça, também de anel na mão esquerda em um show. Mallu negou que eles tivessem oficializado a união, mas ela e músico moram juntos há dois anos e, agora, nas entrevistas, ela já não tem problema nenhum em falar em Camelo como “marido” ou que ela á uma mulher “casada”.

Bem diferente do começo, quando os primeiros boatos da relação do músico de 30 com a menina de 16 surgiram e nenhum dos dois falava abertamente no assunto. Até porque, na época, os 14 anos de diferença da dupla eram gritantes, o que dá para ver bem no clipe da música Janta, de 2009. A declaração de amor cantada em inglês e português que já deixava claro que a coisa ali não era brincadeira e mostra uma Mallu ainda bem criança, como aquela da primeira aparição em 2008.

Atualmente, sempre que possível um acompanha o outro nos compromissos musicais. Na ida de Camelo a Berlim, em outubro deste ano, ela até fez uma participação especial no show, nos vocais da mesma música que escancarou o romance da dupla.

De Janta para cá, a relação de Mallu e Marcelo Camelo já rendeu muitas parcerias musicais – ele assina a produção de Pitanga -, músicas dedicadas e escritas de um para o outro, mas apesar da vontade dos dois, ainda nenhum projeto juntos:

? A gente vira e mexe pensa em fazer um projeto nosso, mas nós procuramos preservar ao máximo a autenticidade e individualidade de cada um. Quando a coisa surgir natural e honestamente, com certeza, nós vamos divulgar ? conta.


Modas de Mallu

A transformação de Mallu em uma linda – e esguia – mulher rendeu para a moda. Fazendo jus ao nome “de fidalgo”, Mallu é na verdade Maria Luiza de Arruda Botelho Pereira de Magalhães, a jovem de 20 anos ostenta um rosto de traços delicados e aristocráticos, assim não são poucos os convites para estrelar campanhas. A cantora encara tudo com muito profissionalismo:

? Encaro a moda como uma segunda profissão mesmo ? conta. Só em setembro deste ano, ela lançou uma coleção de camisetas com estampas feitas por ela para a 2nd Floor da marca Ellus. Além das produção as peças, Mallu estrelou as fotos da campanha da loja e cantou e tocou nos desfiles da marca. Isso sem mencionar os vários editoriais de que já participou para revistas como Joyce Pascowitch e TPM. Para ela, que diz adorar costurar para si mesma ou para o marido, a roupa é mais que um simples acessório:

? Uso a roupa como expressão ou muleta, mesmo. Uma roupa legal faz a gente se sentir melhor num dia triste ou, num dia mais introspectivo, a roupa também imprime essa preservação ? comenta.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna