Em novo livro, Claudinho Pereira relembra histórias da noite de Porto Alegre

"Na Ponta da Agulha" será autografado no sábado, 27 de outubro, na Feira do Livro de Porto Alegre

Foto: Tadeu Vilani

Entre os anos 1960 e 1970, Porto Alegre viveu um despertar boêmio. A abertura das primeiras boates e as mudanças de comportamento por que passou a juventude foram testemunhadas e experienciadas por Claudinho Pereira, discotecário de várias das principais casas noturnas da cidade.

– Mas antes disso, eu já colocava som nas festinhas em garagens do Bom Fim – interrompe Claudinho, 65 anos.

Estamos conversando ao telefone sobre Na Ponta da Agulha, livro que ele lança no sábado, 27, na Feira do Livro, um relato pessoal do DJ, radialista e cineasta sobre esse período um tanto esquecido no imaginário da Capital.

DJ desde os tempos em que o profissional era chamado de “discotecário”, radialista e cineasta desde um pouco depois disso, Claudinho é também um geminiano com ascendente em Aquário que atribui aos astros sua capacidade de pensar e se empenhar em mil coisas ao mesmo tempo. Na Ponta da Agulha é uma desses projetos.

O embrião do livro surgiu na Feira do Livro de 2011, em uma conversa com o jornalista Márcio Pinheiro – o Marcinho -, coordenador do Livro e Literatura da prefeitura de Porto Alegre e seu amigo de longa data. Com a ajuda da mulher Preta Pereira (com quem é casado desde 1969), dos filhos e de colegas de noite dessas décadas longínquas, Claudinho compôs um apanhado de informações e histórias sobre lugares que já foram demolidos, gente que já morreu e memórias que quase se apagaram.

– Quando fui fazer o livro, pesquisei na internet e não achei nada – conta ele. – Queríamos que fosse um almanaque, com datas, músicas. É nessa praia – sintetiza, antes de se perder em mais um devaneio geminiano.

Dizer que a história da noite porto-alegrense se confunde com a desse homem não é mero clichê. No início dos anos 1960, Claudinho se tornou o primeiro discotecário da cidade, na pioneira Crazy Rabbit – boate que Carlos Heitor Azevedo abriu na Rua Garibaldi, quase esquina com Independência. A partir de então, nem ele nem a noite porto-alegrense pararam mais de badalar.

– Saindo do Crazy Rabbit, o Heitor montou a Baiúca, na Independência, onde também trabalhei. Aí começaram a vir outras casas na mesma região. O Tatata Pimentel deu a ideia para o Rui Sommer: “Olha, estamos gastando muito dinheiro na boate dos outros, porque a gente não monta a nossa?”. Daí, veio o Encouraçado Butikin. E aí o Edmund Rihan montou o La Locomotive, o Raul Moreau montou o Whisky a Go-Go… Foi assim que começou, também, a Cidade Baixa.

E assim começa Na Ponta da Agulha. Ao longo de suas 200 páginas, o livro percorre a trajetória de seu autor e da noite da Capital. Para cada nova casa no circuito – primeiro na Independência, mas também no Centro, na Cidade Baixa, na Protásio Alves -, há uma lista de músicas mais tocadas e alguma história pitoresca. Muitas linhas são dedicadas, também, aos lugares onde a noite acabava (a Tia Dulce e sua sopa de cebola, o Zé do Passaporte e seus lanches com molhos apimentados) e aos personagens que, segundo Claudinho, sempre foram sua única fonte de nostalgia e saudade do passado, como Gilda Marinho e Dudu Alvarez.

O Encouraçado Butikin é o ponto de partida. Inaugurado por Rui Sommer onde hoje funciona a casa noturna Beco, a boate ostentava a pompa de uma cidade que “achou que poderia ser Nova York”, como destaca Márcio Pinheiro na apresentação do livro. O projeto arquitetônico rendeu prêmio a Milton Mattos. A logomarca (uma sereia-marinheira nua) foi criada por Ziraldo, e a placa da fachada, por Xico Stockinger. Passaram pelo Butikin Toquinho, Vinícius de Moraes, Nara Leão, Elizeth Cardoso e Maria Bethânia. Coisa fina.

Claudinho e DJ Gilberto eram responsáveis por comandar “as bolachas” da casa. Diferentemente de outras boates abertas na época, que dispunham apenas de tocadores de fitas de rolo, no Encouraçado, o som era em vinil.

Na pista do Encouraçado não podiam faltar Green River, do Creedence, Strangers in The Night, com Frank Sinatra, e I Left My Heart In San Francisco, com Tony Bennett. Como a importação de discos era proibida, para conseguir as canções era preciso ter conexões fortes.

– A gente pedia para comissários e pilotos que iam a Nova York e Paris trazerem revistas que eram as bíblias da música: a Billboard e a Cashbox. Depois, encomendávamos com eles os compactos das mais tocadas – conta Claudinho, lembrando que a fórmula funcionava, e muitas músicas tinham de rolar várias vezes na mesma noite.

Foi um comandante da Varig o responsável pelo que Claudinho chama de “a chegada do american way of life” a Porto Alegre. Em 1959, Omar Silveira da Cruz abriu o Joe’s, lanchonete na Rua Ramiro Barcelos inspirada em estabelecimentos americanos. Até 2011 – ano em que fechou as portas -, o Joe’s seria conhecido pelo “melhor milkshake da cidade”.

Na virada para a década de 1970, a ditadura militar impunha seus anos de chumbo. Simultaneamente, desembarcava no Brasil a “disco music”. Influenciada pelo funk, pelo soul e até mesmo pela música latina, a disco logo se tornou símbolo de um movimento de liberdade em que tinham lugar os gays, os negros e, por que não?, os brancos e heterossexuais.

Em 1971, Elaine Ledur e Dirnei Messias inauguraram a Flower’s, primeira casa noturna da Capital em que pessoas do mesmo sexo podiam se beijar sem medo. A trilha sonora, conforme lembra Claudinho, tinha Gloria Gaynor, Village People e Sylvester. Situada próximo a um quartel, a Flower’s sofreu perseguição dos agentes do regime, que faziam frequentes revistas no local. Em 1975, Messias e Elaine decidiram mudar a boate de lugar. Tivessem aguentado um pouco mais, talvez a mudança pudesse ter sido evitada.

Em 1977, John Travolta ganha o mundo como Tony Manero em Os Embalos de Sábado à Noite. A partir dali, ficava sacramentado que homens podiam – e deviam – saber dançar.

– Começa a haver uma valorização da dança. O cara que sabia dançar não pagava bebida, o pessoal queria tê-lo perto da mesa – diz Claudinho, que lembra que os DJs também passaram a ser mais valorizados, uma vez que a pista de dança se tornou a parte mais importante das festas.

As mudanças comportamentais que chegavam pela TV e de avião acabavam por modificar a paisagem noturna da Capital. Até então, maioria das boates cobrava caro, e o traje para passar no crivo do porteiro era gala.

– Isso mudou depois de Os Embalos de Sábado à Noite e da novela Dancin’ Days, que lançou as meias de lurex, as calças pantalona, boca de sino, a camisa romana, com a gola imensa – relembra.

A primeira discoteca da Capital, a Looking Glass, foi inaugurada em 1978, mesmo ano que a telenovela de Gilberto Braga foi ao ar. Chegou com luzes coloridas, fumaça e luz estroboscópica (novidade por aqui). A música das boates chegou também ao rádio, com programas em várias emissoras.

A boemia da Capital também tinha outras caras. Ao longo de seu passeio escrito pelos restaurantes tradicionais do Mercado Público, pelos bares com música ao vivo de Adelaide Dias – onde Lupicínio Rodrigues e Túlio Piva faziam sambas, serestas e choros – e pela Cidade Baixa, Claudinho revela outro lado que ele sempre viveu.

Essas histórias tendem a ganhar fôlego em projetos que ele tem para breve: um livro sobre a República, 138 – casa em que morou com a família e por onde passaram artistas como Renato Russo, João Bosco e Cida Moreyra – e várias ações comemorativas ao centenário de nascimento de Lupicínio Rodrigues, que será celebrado em 2014 – incluindo o longa Nervos de Aço, com lançamento previsto para o ano que vem, que Carlinhos e Preta produziram.

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