Em que época você gostaria de viver?

Filme de Woody Allen, em cartaz nos cinemas, faz pensar em que época a gente gostaria (ou não) de ter vivido

Cena do longa "Meia Noite em Paris", de Woody Allen
Cena do longa "Meia Noite em Paris", de Woody Allen Foto: Paris Filmes

A maioria de nós olha para o tempo em que vive como um refém esperando ser resgatado – ainda que pela imaginação. Descontentes com as complexidades do agora, muitos buscam refúgio na idealização do passado ou na curiosidade pelo que virá no futuro.

Foi para falar da primeira alternativa que Woody Allen filmou Meia-Noite em Paris, em cartaz nos cinemas da Capital, no qual presta homenagem ao período que ele próprio identifica como a época de seus sonhos: a festa dos anos 1920, quando escritores como Ernest Hemingway e o casal Scott e Zelda Fitzgerald, e artistas como Picasso viviam à roda de Gertrude Stein em uma Cidade Luz recém saída do pesadelo da
I Guerra e, portanto, aberta a todos os apetites.

Esse tipo de viagem mental ao passado é sempre dirigida pelo afeto, claro: viver nos 1920 pode ser o máximo se você conhece Salvador Dalí em Paris ou Dorothy Parker no Hotel Algonquin, em Nova York, mas se você fosse um trabalhador rural no Mato Grosso da mesma década provavelmente colheria erva-mate em condições desumanas, exposto a um bom número de doenças.

O historiador americano Robert Darnton, em uma entrevista a Zero Hora concedida em 2007 por ocasião de sua vinda para o Fronteiras do Pensamento, confessou que adoraria ter vivido no século 18 iluminista francês que tanto estudou em livros como O Iluminismo como Negócio. Mas fez a ressalva:

– Só que não como um camponês. E gostaria de ter bons dentes.

Afinal, o historiador sabia, escaldado pela leitura de cartas do período, que as arcadas dentárias – fossem de nobres ou de plebeus – viviam em petição de miséria naquele tempo.

Conhecer a Idade Média seria ótimo sendo um rei ou um nobre sustentado em um castelo, mas você não acharia tão divertido se fosse um aldeão pobre cavando o chão congelado em busca de batatas. Viver uma vida de poesia e amor cortesão na Renascença é uma tentação – mas não esqueça da falta de chuveiro quente e até de água encanada.

O próprio Allen brinca com isso em Meia-Noite em Paris ao lembrar que os feéricos anos do século 20 em que Braque, Man Ray, Matisse e T.S. Eliot viviam na cidade, se esbarrando nos mesmos cafés, eram também tempos sem penicilina e a moderna medicina. Aliás, na “descida” à Belle Époque, o protagonista e sua musa deparam com um Gauguin que diz: sempre sonhou em viver na Renascença.

Logo, o sonho de conhecer o passado que nos encanta está sempre presente, tanto nos homens comuns quanto na mente divagante dos artistas. Por isso Zero Hora convidou nomes da cultura gaúcha para compartilhar a época em que gostariam de viver se tivessem oportunidade.

E, provando que o afeto é sempre o leme de uma máquina do tempo sentimental, cada um apontou sua nave para um período que inspira seu próprio trabalho e sua visão de mundo nos dias de hoje.

Leia o que eles têm a dizer no Segundo Caderno desta quarta-feira (29).

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