Em tempos de fotografia digital, pinturas ao vivo começam a voltar à moda

Na foto, artista Agnes Csiszar Russo cria pintura ao vivo durante festa de casamento
Na foto, artista Agnes Csiszar Russo cria pintura ao vivo durante festa de casamento Foto: Michael Stravato

   
Cada momento do casamento de Brynn e Ralph Carosella – desde a cerimônia católica tradicional até a recepção vistosa numa mansão em estilo gregoriano – foi capturado pela câmera, frequentemente de vários ângulos.

Havia dois fotógrafos profissionais e dois cinegrafistas. Um quarto dos convidados, por parte da noiva, documentou o evento com câmeras ou iPhones. As fotos estavam no Facebook no dia seguinte.

Apesar de tudo isso, ou por causa de tudo isso, a imagem preferida do casal de seu casamento, a mesma que fica pendurada acima de seu sofá no salão central colonial de Staten Island, Nova York, é bem à moda antiga: uma pintura acrílica de 61 cm por 91 cm, criada pela “artista de eventos ao vivo” Jessica Weiss.

Entre uma multidão crescente de fotos – no Facebook, via Instagram, e nos cada vez mais fartos arquivos de fotos digitais de família – um curioso ressurgimento das pinturas ao vivo em eventos tomou forma. Nos últimos anos, um pequeno porém crescente grupo de artistas começou a vender seus serviços como pintores de eventos, geralmente cobrando entre mil e 5 mil dólares para capturar em tela não apenas casamentos mas também festas de aniversário, comemorações de aposentadorias, batizados, bar e bat mitzvahs, inaugurações de lojas e jantares ocasionais.

O trabalho deles parece ser o equivalente a um disco de vinil ou uma máquina de escrever: um retrocesso que tem valor justamente por ter sido atualizado.

? No Facebook, você vê as pessoas se decidindo entre dois sapatos diferentes e perguntando a todos seus amigos o que eles acham, ou pessoas mostrando os filhos com comida pelo rosto todo ou o carro que bateu no carro deles ? disse Weiss. ? Você não quer as fotos do seu casamento sendo exibidas junto com todas essas informações.

Ninguém mantém estatísticas sobre o número de pintores de eventos, mas de uma dúzia de entrevistados, mais da metade começou a aceitar clientes nos últimos cinco anos, e os pintores veteranos dizem ter notado um aumento na concorrência ultimamente.

Os clientes dizem que há vantagens inesperadas ao contratar um artista. Como colocou Brynn Carosella: ? Um fotógrafo não pode dizer a qualquer momento, ‘por favor, eu preciso do centro da pista de dança liberado, preciso do bolo no meio da pista, os convidados da noiva à direita, os pais do noivo à esquerda, o padrinho agachado no centro e Brynn e Ralph em sua primeira dança’. Ela pode capturar isso.

Em Los Angeles, Agnes Csiszar Russo, uma desenhista que ajudou a criar dúzias de cartazes e de cenários para filmes, começou a fazer pinturas em eventos há cinco anos, depois que um admirador de seu trabalho lhe perguntou se ela poderia pintar no casamento dele.

Depois de anos retratando festas surpresa, aniversários, eventos beneficentes (o ganhador do leilão é retratado) e casamentos de Rhode Island às Bahamas, ela ficou afiada na diplomacia da arte em telas.

? Você não vê queixos duplos nas minhas pinturas ? disse ela. ? Todo mundo fica um pouco mais magro. ? Ela também pode controlar as emoções, ou ao menos a aparência delas: ? Eles estão sempre felizes.

Russo disse que ela investiga a dinâmica da família antes de chegar ao evento. Em prévias conversas discretas, seus clientes a informam quais parentes e amigos foram selecionados e devem ser retratados. (Aquele que paga o pintor…)

? Sempre tem mais gente que queria estar na pintura mas não conseguiu chegar ? explicou Russo. ? Eu tenho que tomar cuidado com essa parte quando eles chegam perto: ‘Porque eu não estou no retrato? Meus irmãos estão’.

Alguns artistas, como Russo, que algumas vezes usa tinta a óleo e, outras, acrílica, levam suas telas para casa depois do evento, retocando-as por dias ou meses. Cindy Myers, que contratou Russo para pintar a festa de 40 anos do marido em uma exibição de carros antigos em julho, só recebeu o produto finalizado recentemente.

? Queremos todas as nossas lembranças capturadas o máximo possível, mas para mim esse é um nível completamente diferente ? Myers disse. ? Isso é algo que provavelmente estará em nossa família para sempre.

Anne Watkins, artista de Manhattan, começou a pintar nos casamentos dos amigos em 1980; ela deixava as pinturas sobre a mesa, como presente. Hoje ela cobra 7 mil dólares ou mais, não apenas pela pintura, mas por uma série de aquarelas evocativas.

Nos casamentos, ela geralmente começa com o vestido de noiva servindo perfeitamente, o que “pode fazer a alegria de algumas sonhadoras”. Ela já pintou em um casamento com comemorações que duraram cinco dias em St. Barts, assim como aniversários de 40 e 50 anos, celebrações de bodas e um jantar de dia de ação de graças.

? Eu pintei crianças sentadas no sofá assistindo ao jogo, pintei pessoas na cozinha fazendo coisas ? disse ela. ? Eu pintei os caras que estavam fritando o peru na garagem.

Cada imagem é desenhada para recordar um momento, uma emoção. ? O tipo de arte que eu faço é abstrato o suficiente para que não seja preciso incluir todos os detalhes, e para que as pessoas não consigam olhá-lo apenas de relance ? disse Watkins. ? O que reforça a memória é a ligação com o sentimento.

Miles Pelky, um DJ de San Diego que começou um website chamado liveeventartist.com, ligando os artistas aos clientes, disse ter testado alguns artistas antes de achar aqueles que pudessem capturar o espaço, o clima, o casal e os convidados – e não apenas ficar afobado quando os convidados se aproximam para observar. Afinal de contas, os clientes podem ser detalhistas. Uma vez, lembrou-se ele, uma noiva reclamou que seu vestido havia sido retratado no tom errado de branco.

? Ela foi firme ao dizer que ele era mais cor de creme ? recorda Pelky. O vestido foi repintado.

Alguns meses depois de um casamento, o noivo voltou ao estúdio de Sam Day em Seattle, pedindo que ele pintasse por cima de um casal que havia se separado após a cerimônia. Depois disso, Day passou a encorajar seus clientes a considerarem uma pintura completa no momento em que ele a assina no final do evento, sob o argumento que, como consta em seu contrato, “mudanças podem diminuir o sentimento de espontaneidade no trabalho”.

As câmeras podem não mentir, mas os artistas são, por definição, livres para aprimorar, e em eventos com pinturas ao vivo, poder mudar a realidade faz parte do charme. Algumas pessoas pedem aos pintores em seus eventos que retratem pessoas amadas que não puderam ir à festa para comemorar: uma avó que tenha falecido, um amigo que esteja doente ou que já tinha outro compromisso ou um querido Shih Tzu.

Day não retrata as pessoas que não compareceram a festa, mas ele abre exceções para bichinhos de estimação que não puderam estar presentes e para os carecas. “Eu não pinto ficções”, explicou, “mas posso colocar um pouquinho a mais de cabelo”.

Quando Weiss, de Nova Jersey, recebe um pedido para representar um parente falecido como um convidado, ela propõe soluções alternativas, como fazer pinturas das iniciais da pessoa. ? Há tanta emoção ligada às pessoas que não estão lá ? disse ela. ? Ninguém ficaria contente com o resultado.

Ela fica feliz em realizar outros desejos; quando ouviu uma noiva fazendo a triste descoberta que o bolo de casamento havia sido incorretamente coberto com fondant em formato de fitas pretas, Weiss interveio delicadamente, perguntando a ela como o bolo deveria ser. Na pintura, ao contrário da vida real, o bolo era todo branco.

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