Entenda os impactos da proibição dos inibidores de apetite, caso projeto seja aprovado

Dieta e exercícios físicos são opções saudáveis para perder peso

Proibição da venda de remédios como femproporex e sibutramina foi recomendada à Anvisa pela Câmara Técnica de Medicamentos
Proibição da venda de remédios como femproporex e sibutramina foi recomendada à Anvisa pela Câmara Técnica de Medicamentos Foto: Flávio Neves

Nas últimas décadas, eles ganharam adeptos no Brasil e se tornaram uma saída corriqueira ? às vezes perigosa ? para homens e mulheres atormentados pela balança.

A partir deste ano, porém, os inibidores de apetite com ação no sistema nervoso central e a polêmica sibutramina, já proibida na América do Norte e na Europa, podem ser definitivamente banidos das farmácias brasileiras.

Controversa, a medida está sendo proposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No início do mês, o órgão divulgou uma nota técnica na qual questiona a eficácia e a segurança desses remédios. O documento enfileira razões para riscar do receituário médico a sibutramina e outras quatro substâncias à base de anfetamina (veja o quadro). Entre os motivos, está uma interminável lista de reações adversas.

? Concluímos que os riscos são maiores do que os benefícios. Os efeitos podem ser muito sérios ? alerta a chefe do Núcleo de Monitoramento e Investigação em Vigilância Sanitária da Anvisa, Maria Eugênia Cury.

Na quarta-feira, o órgão promoveu uma audiência pública para discutir a questão. Embora especialistas concordem que os abusos podem ter consequências funestas, a maioria é contra a retirada das substâncias do mercado. Em comunicados oficiais, entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e a Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag) rebateram a posição da agência. Ricardo Meirelles, presidente da SBEM, afirmou que a entidade se opõe ao uso indiscriminado dos produtos, mas teme que sua retirada possa deixar pacientes com obesidade desassistidos.

Para a ABRAN, a proibição poderia levar o sistema de saúde a um “estado de atenção”, com a multiplicação dos casos de hipertensão e de doenças cardiovasculares, entre outras moléstias.

? Essa proibição é irresponsável. É como proibir insulina para o paciente diabético ? sustenta o presidente da ABRAN, Durval Ribas Filho.

Os especialistas reconhecem que há riscos ? e eles estão impressos nas bulas, para quem quiser ler. A sibutramina, por exemplo, aumenta em 16% a chance de infartos em pessoas com pré-disposição. A maior parte dos médicos argumenta, porém, que essas drogas são prescritas apenas quando não há contra-indicações.

? Acreditamos firmemente que os medicamentos são seguros quando bem indicados ? ressalta a presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), Rosana Radominski.

Mas e as pessoas que se automedicam? Para a Anfarmag, a solução passaria por um controle maior do uso dessas substâncias. Jamais pela proibição.

Dispostas a impedir que a Anvisa oficialize a determinação, as entidades prometem se mobilizar pela causa e fazer barulho. A previsão da agência é que a definição saia até o fim de março.

Alternativa é dieta e exercício físico

Quem sofre com excesso de peso e usa um dos medicamentos citados pela Anvisa já pode ir se preparando: especialistas afirmam que não há drogas equivalentes à venda no país. A única opção em fármacos, segundo a endocrinologista Graciele Tombini, médica do Complexo Santa Casa, seria o orlistat ? princípio ativo do Xenical. Mas, diferentemente dos anorexígenos, ele não provoca saciedade nem tira o apetite. Age no intestino e elimina 30% da gordura ingerida na refeição.

? A maioria dos obesos, principalmente as mulheres, comem muito carboidrato. E sobre eles o orlistat não tem efeito. Acredito que a sibutramina ainda é a melhor opção no mercado e espero que a Anvisa volte atrás ? diz Graciele.

Caso a agência mantenha a decisão, será preciso procurar alternativas. A saída, para a endocrinologista Dora Ullmann, diretora científica da Sociedade Brasileira de Medicina Estética no Estado, será mudar os hábitos alimentares e fazer exercício físico. Aos casos mais graves, de obesidade mórbida, restará a cirurgia.

Com 32 anos de experiência na área, Dora entende que, apesar de todas as críticas das entidades representativas do setor, a Anvisa tem razão ao questionar os anorexígenos. A especialista acredita que a melhor saída para quem quer emagrecer não são os remédios e endossa o alerta do órgão para os riscos.

? Esses medicamentos existem há décadas e, apesar disso, há cada vez mais obesos no Brasil. Se eles realmente tivessem efeito, o resultado seria diferente, não?

Os medicamentos

Confira a avaliação da Anvisa:

Anfepramona

? Mesmo em doses terapêuticas (75 mg), ocorrem casos de euforia, irritabilidade, inquietação, delírios e surtos de esquizofrenia.

? Entre as reações adversas estão isquemia cerebral, acidente cerebrovascular, arritmia cardíaca, dependência, leucemia e hipertensão pulmonar primária.

Conclusão

“Devido às graves reações adversas, às importantes contra-indicações, ao risco de dependência e abuso, e ainda à ausência de estudos clínicos com padrão de qualidade regulatório que comprovem sua eficácia e segurança, este medicamento apresenta riscos que se sobrepõem aos benefícios, inexistindo subgrupo populacional que tenha indicação para seu uso.”

Femproporex

? As reações mais comuns são inquietude, nervosismo, irritabilidade, insônia, agressividade, psicose, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade generalizada e pânico.

? Promove alterações neurológicas e cardiovasculares, variando de arritmia cardíaca até colapso cardiovascular.

Conclusão

“Apesar das reações adversas mais comumente esperadas não serem consideradas graves […], foram notificadas reações importantes, tais como artralgia, visão borrada, vulvovagitine e herpes […] Todos os riscos acima descritos, associados à ausência de estudos clínicos com padrão exigido para o registro de medicamentos, demonstram que o femproporex não apresenta fundamentação científica para permanecer no mercado brasileiro.”

Mazindol

? As reações mais frequentes são insônia, constipação, nervosismo, tontura e cefaléia. Outros efeitos incluem arrepios, náuseas, palpitações, vertigem e fraqueza.

? Pode apresentar efeitos cardiovasculares, como elevação da pressão arterial, e não há evidência de eficácia e segurança em longo prazo.

Conclusão

“As reações comuns ao uso do mazindol geralmente levam ao abandono da terapêutica. Além disso, o risco de reações adversas graves, importantes contra-indicações e efeito de tolerância em poucas semanas, depõem contra seu uso terapêutico. Seus riscos sobrepõem-se aos benefícios, tornando-o incompatível com os requisitos de eficácia e segurança mínimos para manutenção de seu registro.”

Sibutramina

? Estudo demonstrou que apenas 30,4% dos pacientes tratados com sibutramina perderam peso.

? Aumenta o risco de problemas cardiovasculares em 16%.

Conclusão

“Nos últimos anos foram realizados estudos de segurança em que se constataram riscos em nível cardio e cerebrovasculares, que podem colocar a vida dos usuários em risco. Além disso, […] 70% dos sujeitos de estudo […] não responderam ao tratamento, indicando possível alta taxa de inefetividade. Desta forma, a sibutramina apresenta relação benefício/risco desfavorável para sua utilização clínica como adjuvante no tratamento da obesidade.”

Para ler o relatório completo da Anvisa, acesse o site

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