Entrevista: escritor fala sobre obra que debate a vida dos homossexuais

Joe Kort, terapeuta americano, fala sobre histórias de gays escondem por anos sua orientação

Foto: AP

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O tema velado é: em uma sociedade heteronormativa, muitos homens homossexuais e bissexuais ainda se sentem obrigados a manter um relacionamento de fachada para fugir do preconceito. Nesses casos, sair do armário pode ser duplamente doloroso, já que é o casal que precisa superar a mudança. As pessoas ainda acreditam que sua homossexualidade é algo apenas sexual.

Não percebem que ela é uma identidade emergente que, ao longo do tempo, vai obrigá-las a criar para si uma vida gay, explica Joe Kort, terapeuta americano especializado em casais de orientação sexual mista e autor do livro 10 Smart Things Gay Men Can do to Improve Their Lives (10 Coisas Inteligentes que Gays Podem Fazer para Melhorar suas Vidas, em tradução livre), ainda inédito no Brasil.


Capa do livro do escritor Joe Kort, ainda inédito no Brasil

Pergunta – O senhor diz que é possível manter o casamento depois que um dos parceiros assume a sexualidade. O sexo não será importante para essa relação?
Joe Kort – Depende da idade do casal, de quanto tempo eles estão juntos, se têm filhos e vários outros fatores. Muitos casais de orientação sexual mista continuam juntos e fazem sexo, além de manter relacionamentos paralelos. Muitas vezes, só o cônjuge gay tem uma vida separada. O amor e a ligação entre eles, porém, se mantêm fortes. Na tentativa de manter a família intacta, acabam tendo uma relação aberta.

Pergunta – O Brasil possui uma sociedade preconceituosa em relação aos gays. O mais comum aqui é esconder a situação e simplesmente dar fim ao relacionamento, sem nenhuma desculpa. O senhor acha que é importante contar o motivo da separação? Há alguma forma tranquila de fazer isso? E é justo contar aos filhos sobre a sexualidade do pai ou da mãe?
Kort – É sempre importante e nem sempre seguro. Se há risco de perder o emprego, a moradia, ou mesmo de abuso físico e emocional, eu não recomendo. Selecionar as pessoas que saberão é o melhor a fazer. No caso das crianças, em qualquer idade elas conseguem lidar com a informação de que têm um pai ou mãe gay. O que eles não conseguem lidar é com a homofobia dos outros. Quando há o divórcio, sempre aconselho os casais a contar para as crianças da separação primeiro e, sobre a sexualidade, depois. Os dois ao mesmo tempo pode ser estressante para os filhos

Pergunta – Por que ainda há tantas pessoas que pensam que sua sexualidade pode ser mudada com um casamento?
Kort – Porque as pessoas ainda acreditam que sua homossexualidade é apenas algo sexual. Não percebem que ela é uma identidade emergente que, com o tempo, os compele a criar uma vida gay para eles mesmos. As crianças são educadas para pensar que a homossexualidade é errada e só têm relação com o sexo. Enquanto a educação delas não mostrar que ser homossexual é idêntico a ser heterossexual, vamos sempre ver casamentos de sexualidades mistas.

Pergunta – Quando e de que forma os homens gays contam para suas esposas sobre a própria sexualidade?
Kort – Depende. Se há crianças, aconselho não contar até que a separação tenha acontecido, já que essa informação pode ser usada contra o pai gay, na tentativa de impedi-lo de ver os filhos. Se isso não é um problema, o melhor é contar a ela imediatamente após a compreensão da sexualidade, para que ela não se sinta culpada.

Pergunta – Por que, em muitos casos, as mulheres se sentem culpadas da sexualidade dos maridos?
Kort – Elas sentem que isso é algo pessoal, que se elas tivessem sido mais sexuais ou mais femininas ou mais qualquer coisa, seu marido não teria se tornado gay. Isso é falso. As mulheres tendem a assumir os problemas alheios e precisam ouvir, repetidamente, que a homossexualidade do seu marido não tem relação alguma com ela. Ele casou-se sendo gay.

Pergunta – Ainda há homens e mulheres que se casam sem ter noção da própria sexualidade?
Kort – Eles não sabem que são gays porque são recompensados ao esconder a sexualidade até deles mesmos. Mulheres são melhores em esconder seus desejos homossexuais. Como os homens não são bons em esconder esses desejos, eles podem até sentir atração sexual, mas vão pensar que têm apenas a mente aberta e nunca chamarão isso de homossexualidade.

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