Entrevista: Luisa Stadtlander, a estilista preferida da presidente

Gaúcha revela como funciona seu trabalho com Dilma Rousseff

Luisa no segundo andar da loja, onde funciona seu ateliê: "Dilma representa muito mais para o país do que a roupa que ela veste"
Luisa no segundo andar da loja, onde funciona seu ateliê: "Dilma representa muito mais para o país do que a roupa que ela veste" Foto: Diego Vara

Até hoje, um mês e meio após a cerimônia de posse da presidente Dilma Rousseff, o telefone de Luisa Stadtlander não para de tocar. São jornalistas de várias regiões do país ávidos por detalhes sobre o trabalho da gaúcha como estilista preferida de Dilma. Luisa prefere calar e se dar o direito de exercer uma das principais características de sua personalidade: a discrição.

? Não preciso, não gosto e não quero isso para mim ? alega.

A afirmativa é pouco compreensível, uma vez que a estilista de 64 anos pertence a uma classe profissional que faz de tudo para se manter à frente dos holofotes. Exatamente por isso já se viu mais de uma vez no centro de críticas pouco amistosas e até de ameaças de retaliação feitas por jornalistas magoados com o silêncio enigmático. Só que Luisa não tem nada de misteriosa.

Alegre, falante, mãe de duas filhas, avó de cinco netos e casada há 24 anos com o segundo marido, ela é uma mulher entusiasmada com a vida e com a profissão, que faz questão de preservar a convivência com a família e com os amigos acima de qualquer coisa. Filha de pai alemão e mãe descendente de alemães, não teve como fugir à educação germânica. Aprendeu a falar alemão antes do português:

? Repeti o 4º ano primário porque tive 27 erros no ditado ? diverte-se.

Como bem lembrou a consultora de moda Gloria Kalil, se enganam aqueles que acham que Luisa Stadtlander é uma costureira de bairro de Porto Alegre. O nome por trás do estilo da presidente Dilma Rousseff é estilista autodidata com loja própria, a New, no bairro Moinhos de Vento, um ateliê que faz roupa sob medida e ocupa um cargo de designer em uma empresa de uniformes, a Office Collection. Foi com simpatia, simplicidade e muito alto-astral que Luisa Stadtlander rompeu o silêncio e concedeu a Donna esta entrevista exclusiva.

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Veja em fotos a transformação de Dilma

Donna – Como começou a relação estilista-cliente entre vocês?
Luisa Stadtlander – A Dilma é minha cliente desde os tempos em que eu tinha loja na Avenida Cristóvão Colombo. Isso já faz uns 20 anos, ela ainda era funcionária pública em Porto Alegre. Quando transferi a loja para o Shopping Iguatemi, ela seguiu comprando comigo. Também lembro dela na loja do Moinhos Shopping. Costumava levar junto a filha, Paula.

Donna – Então, vocês nunca perderam contato.
Luisa – A Dilma é uma pessoa da casa, nós temos intimidade e entrosamento. Desde o casamento da Paula, em 2008, ela vem fazendo sucessivas roupas comigo. Quando chegou a época da campanha, me avisou: “Luisa, preciso de coisas novas”. E então pensamos juntas em modelos para várias ocasiões, desde trajes mais formais a outros mais descontraídos para a campanha na rua.

Donna – A senhora quer dizer que vinha fazendo todo o guarda-roupa da candidata Dilma quando surgiu a notícia de que o estilista Alexandre Herchcovitch era seu mais novo personal stylist?
Luisa – Esse episódio foi fantástico! Não tenho nada contra o Herchcovitch, acho ele um estilista muito talentoso. Mas a roupa dele não tem nada a ver com o estilo da presidente. A Dilma é uma mulher de 64 anos, cujo papel principal não é fazer ou ditar moda. O papel dela é governar. Ela tem que estar bem vestida, com roupas de qualidade, mas condizentes com sua função. Não é a roupa que tem que aparecer, é ela.

Donna – Como foi o processo de escolha da roupa da posse?
Luisa – A sugestão da cor off white foi minha, porque acho que a presidente Dilma fica muito bem com tons claros. Ela dá um up, fica iluminada. Quando comentei com ela essa proposta, ela não teve dúvida: pegou um rolo de tecido aqui do ateliê, bateu assim no chão e disse (imitando): “Está decidido: a roupa vai ser off white” (risos).

Donna – Como é a Dilma como cliente?
Luisa – Ela é muito discreta, simples, nada deslumbrada. Uma pessoa absolutamente sem estrelismo e que trata muito bem os outros. É uma mulher bem técnica, com uma força de comando muito forte, mas nem por isso menos afetuosa. Tem dias em que chega aqui muito cansada. Mas bastam uns 10, 15 minutos para se recompor e daí já começa a brincar. Mexe comigo, mexe com a Naná (a modelista do ateliê). Eu acho que ela gosta daqui exatamente porque ninguém a trata com reverências extraordinárias. Ela se sente bem assim. Poderia ter escolhido qualquer estilista de qualquer lugar do Brasil ou do mundo, e o mais legal é que ela foi coerente com toda a sua vida e seu estilo. Vestiu-se comigo durante 20 anos. Natural, portanto, que confiasse em mim para vesti-la na posse. Isso demonstra muito o caráter da pessoa.

Donna – O pacto de silêncio em relação à roupa da posse partiu dela?
Luisa – Partiu de mim. Eu perguntei a ela como deveria me comportar, já que, seguramente, seria sondada. Ela me disse: “Luisa, você faça o que quiser. Se quiser contar, conte. Se preferir não contar, não conte. Você decide”. Eu preferi ficar quieta. Eu não tinha a menor ideia da repercussão que o traje da posse iria ganhar na imprensa. E quer saber? Eu acho que a notícia tomou uma proporção exagerada. A roupa é importante? É. Mas não para tamanho estardalhaço.

Donna – Esse estardalhaço pegou a senhora de surpresa?
Luisa – Francamente, eu não esperava por isso. Era o telefone do ateliê que tocava sem parar, o telefone da minha casa, o Facebook da minha filha, do meu sobrinho… Sofri até ameaça de uma jornalista. Ela me disse: “Você está obstruindo o meu trabalho. Pode esperar que isso terá repercussões diferentes do que você imagina”.

Donna – E a senhora, o que respondeu?
Luisa – Nada. Não tenho medo desse tipo de ameaça. Mas fiz questão de comentar o episódio com a Dilma. Ela ficou bem impressionada. “A imprensa não pode fazer isso contigo”, me disse. “Se você não quer dar a notícia, eles não podem te obrigar, sob nenhuma forma”.

Donna – O jornalista Alcino Leite Neto, do jornal Folha de S. Paulo, escreveu um artigo bastante ácido sobre a decisão da presidente de se vestir com você. Disse ele: “Não estou preocupado com o estilo da presidente. O que interessa é a decisão que tomou de vestir na posse uma roupa feita por uma costureira particular pouco conhecida, e não um modelo criado por algum dos principais criadores ou grifes brasileiros. A escolha de Dilma representa um baque para as marcas nacionais de moda”. Como recebe esse tipo de crítica?
Luisa – Olha, eu fico chocada com esse tipo de coisa. Não pelo fato desse senhor me ofender, afinal, nem me conhece para isso. Mas, sim, porque percebo a extrema relevância que é dada a um figurino. O que é preciso ter claro é que a Dilma representa para o país e para o mundo muito mais do que a roupa que ela veste, e esse tipo de crítica parece inverter um pouco esses valores. A crítica vai sempre existir, não adianta. O meu objetivo não é dar bola para a crítica, mas fazer com que a presidente se sinta feliz e realizada dentro da roupa que escolheu.

Donna – A senhora criou dois modelos para o dia da posse. Por que dois?
Luisa – Ela tinha uma ideia de trocar de modelo para a recepção no Itamaraty. Eu não interferi, mas, na minha opinião, não tinha sentido. Sobretudo, no mesmo dia. Passada a cerimônia, eu soube, através de uma assessora dela, que ela se sentiu tão bem com o traje off white (de crepe com renda francesa toda costurada a mão) que decidiu não trocar. Chegou a levar o segundo modelo, mas deixou guardado. Eu fiquei muito contente com essa decisão.

Donna – Como é este segundo modelo?
Luisa – É um vestido tubo de decote V de tafetá de seda pura em tom bordô bem escuro e com um trabalho de renda preta por cima do ombro. É muito, muito bonito. Estou supercuriosa para saber em que momento ela vai decidir usá-lo. Ficou lindíssimo nela.

Donna – Por que a maioria dos blazers e casacos da presidente são de manga 3/4?
Luisa – Oitenta por cento do guarda-roupa de Dilma é composto de trajes com manga 3/4. É uma ideia minha, já que a presidente trabalha muitas horas sentada e esse tipo de manga é mais cômoda. Além do mais, ela prefere assim. A Dilma é uma mulher alta, e a manga 3/4 dá um certo frescor e leveza no visual.

Donna – Como fica essa parceria de vocês pelos próximos quatro anos?
Luisa – Nós não temos nenhum planejamento. Nossa relação é muito no improviso. A necessidade é que acaba ditando a realização de novos trajes, como aconteceu no ano passado, quando ela foi receber uma homenagem em Nova York. Não tem muita frescura, sabe? Quando eu compro novos tecidos para ela, logo faço questão de saber o que ela acha de cada um. Ela aponta o que gosta e o que não gosta e bola pra frente, eu já saio criando. Pensamos em vários modelos a cada vez, já que a presidente tem uma agenda apertada e nós precisamos ganhar tempo. Não estou aqui para dar uma de artista, né? Querer que ela faça uma, duas, três provas de roupa, imagina! Eu conheço bem o tempo curto da presidente e sua personalidade objetiva. Aliás, nós duas somos bastante objetivas, e eu estou aqui para otimizar o tempo dela.

Donna – Moda e política é um casamento difícil?
Luisa – Eu não acho. A minha experiência com a presidente Dilma não tem nada de difícil. Até porque eu desvinculo uma coisa da outra. No momento em que ela entra aqui no ateliê, é minha cliente antes de ser presidente. Meu trabalho é fazer com que se sinta feliz e realizada com a roupa e ponto. Daqui quatro anos, quando não for mais presidente, o que eu quero é que continue minha cliente.

Donna – E enquanto for presidente, qual será o estilo dela?
Luisa – Não pretendo mudar o estilo do guarda-roupa da presidente, que combina com a personalidade forte que ela tem. Mas é provável que ela comece a vestir mais saias e vestidos do que usa hoje em dia.

Donna – A senhora pode ser considerada o nome por trás do estilo da presidente. Além de vesti-la, também presta assessoria de imagem, ou seja, participa na escolha dos sapatos, dos brincos. O que cai como uma luva na presidente Dilma e o que ela deve evitar?
Luisa – Tudo que vai na linha do decote V favorece a presidente, e nós procuramos explorar bastante esse recurso. De vez em quando se faz uma gola Chanel, mais arredondada. Não gosto de cores muito fortes. Na época da campanha, ela precisou usar por conta das sugestões do (marqueteiro) João Santana. Mas não me agradava. A Dilma é uma mulher alta, com braços e pernas finas. Essas são características que merecem ser exploradas.

Donna – Marcela Temer, mulher do vice-presidente Michel Temer, está em evidência desde o dia da posse. Até comparada à primeira-dama francesa Carla Bruni ela foi. A senhora concorda com os elogios?
Luisa – Não, de maneira nenhuma. Achei absolutamente inadequada a roupa escolhida por Marcela Temer. Seu papel naquele momento era de extrema relevância e não se comparece a uma cerimônia deste porte com aquela saia justíssima e com aquela blusa com os braços de fora.

Donna – Que mulher gostaria de vestir?
Luisa – Deve ser um prazer vestir a Gisele Bündchen, com aquele corpo em que você pode explorar curvas, fendas e decotes. Mas, se há uma mulher que eu adoraria ter vestido, é a princesa Diana, com toda aquela elegância e classe que eram só dela.

Donna – Que conselhos daria para uma mulher na hora de ela compor o guarda-roupa?
Luisa – Em primeiro lugar, que não seja grande. Um bom guarda-roupa é compacto e bem pensado, em que as peças combinam e conversam entre si. Está na hora de sermos mais seletivas, de comprarmos menos quantidade e mais qualidade, de tratar a roupa como um investimento. Este é meu principal objetivo ao montar o guarda-roupa da presidente Dilma Rousseff. Ele precisa ser compacto, com peças que se alternem, para que ela possa usar a mesma blusa que jogou com uma saia e um casaco com outro modelo de calça e blazer. Esse é o grande desafio.

Donna – Estilo passa por autoconhecimento?
Luisa – Com certeza. A maioria das mulheres não tem conhecimento sobre si, independentemente da idade. Portanto, acontece muito de se olharem no espelho e não conseguirem detectar exatamente o que está errado ou o que poderia ficar melhor. O auxílio externo, seja de amiga, vendedora, filha ou mãe, é muito bem-vindo. Dá para aprender lendo livros especializados, claro. Mas a visão externa é essencial e imprescindível.

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