Entrevista: Lya Luft fala sobre sua busca pela simplicidade

Escritora compartilha as ideias que defende e conta mais sobre a arte de escrever

"Amo Porto Alegre", revela a escritora
"Amo Porto Alegre", revela a escritora Foto: Divulgação

A vida é um cenário com um palco e muitas portas, e diversas maneiras de encarar esse jogo: como um trajeto, um naufrágio, um poço, uma montanha… Somos, em parte, resultado das nossas próprias decisões. As palavras são da escritora Lya Luft, 72 anos, e estão em seu último livro, Múltipla Escolha, que será lançado nesta terça-feira em Florianópolis.

Nesta entrevista, por e-mail, a escritora fala um pouco da sua vida, das ideias que defende e da arte de escrever.

ENVELHECIMENTO

“Envelhecer é apenas mais uma fase de viver, mais uma etapa da transformação que inicia no nascimento e termina no último suspiro. Nunca tive a visão da velhice, na qual estou quase no umbral (pra mim começa hoje aos 80), como decadência. Não precisa ser solidão e isolamento, amargura e inércia. Havendo suficiente saúde, sobretudo mental, pode-se sempre reatar ou criar laços, interesses, coisas. Contemplar a natureza, o ser humano, sei lá. Para mim, mais uma vez, é tudo natural. Para que querer ter sempre 20 anos? Para que se desejar espírito jovem, se o espírito dos 70 ou 80 pode ser até melhor, mais rico, mais experiente, mais elegante e mais sereno, mas nunca desinteressado?”.

O FUTURO

“A maior parte das coisas na minha vida vem de surpresa, mas algumas eu planejo. Viagens, é claro, eu planejo. Não sou muito viajante, mas quando estou nos lugares, curto imensamente. Para escrever, espero a hora certa. O novo romance se manifesta, só escrevo quando ele quer ser escrito. Tenho sempre muitos planos: quero fazer mais histórias infantis, onde exerço meu lado gaiato, por exemplo.”

VIDA A DOIS

“Fiquei viúva duas vezes. A primeira aos 49 anos, a segunda aos 57. Foram anos muito difíceis. Então, achei que não casaria novamente. Mas quando apareceu Vicente (Britto Pereira) na minha vida, por acaso (não acredito em acasos) num almoço com amigos, tudo mudou mais uma vez, e para melhor, embora nessa hora eu já estivesse recuperada dos traumas e com uma vida plena, crianças (netos e netinhas) chegando, livros, etc. Pensamos em morar separados, mas logo achamos chato: complica isso de a camisa estar na casa dele, o meu suéter na minha, e quem vai sair de casa numa gelada manhã de inverno? Adoro essa hora do dia em que escuto a chave dele na porta, e retomamos nossa vidinha quieta, aqui, juntos. As longas conversas. Os longos bons silêncios. O amor não tem idade, nem precisa de beleza física: ele é a beleza.”

FLORIANÓPOLIS

“Moro em Porto Alegre, só saí daqui de 1985 a 1988, no segundo casamento. Logo voltei para cá. Eu amo esta cidade, o clima, a geografia, os amigos de décadas, filhos e netos, tudo. Moro há uns 40 anos no mesmo bairro. Mando meus artigos, livros e me comunico com o mundo pelo computador, há muitíssimo tempo. Antes eu ia para Floripa em busca das praias maravilhosas. Hoje, meu filho do meio, André (os outros dois chamam-se Susana e Eduardo), mora aí, com a mulher e dois filhos adolescentes. Não vou tanto quanto gostaria, mas Floripa, sobretudo, adquiriu um novo encanto para mim. Meu filho, quando se refere a essa cidade, só diz “a minha ilha de magia”.

PRAZERES

“Gosto de caminhar, de contemplar a natureza (tenho uma vista linda aqui de minha cobertura), de escutar música, ler, conversar com filhos e netos, receber as netinhas, ficar com o Vicente, ir para Gramado onde temos uma casinha no mato, ver televisão: sou viciada em séries americanas policiais como Law and Order e outras como Brothers and Sisters e The Good Wife. Desconfio de gente metida a intelectual que só lê Goethe e Eça de Queiroz… Meu trabalho é muito sério, tem muitas tramas e dramas graves: preciso de derivativos, e alguns são de ótima qualidade.”

DOM DE ESCREVER

“Eu me considero realmente uma ficcionista. Mas sempre fiz e publiquei poesias, desde jovem escrevo crônica de jornal, como agora a coluna da revista Veja. Há alguns anos resolvi tentar escrever, falando com o leitor de maneira mais direta, sempre sobre meus mesmos temas, o que chamo de “ensaio não acadêmico”. O gênero é bem conhecido na Europa, aqui quase nada. Perdas & Ganhos foi mais ou menos assim, embora seja mais “romântico” do que o Múltiplas Escolhas, onde fui mais questinadora. Também estou começando um novo romance, História de Assombros.

QUEM É ELA

– Lya Luft nasceu no dia 15 de setembro de 1938, em Santa Cruz do Sul (RS)

– Iniciou sua vida literária nos anos 60, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Já traduziu para o português mais de cem livros

– Em 1980, aos 42 anos, publicou seu primeiro romance: As parceiras. na sequência, vieram mais 17 obras

– Em 2004, estreou na literatura infantil com Histórias de Bruxa Boa

– Formada em letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada, Lya foi professora titular de Linguística de 1970 a 1980. Depois, dedicou-se unicamente à tradução e à literatura

– Desde 2004, assina a coluna Ponto de Vista, da revista Veja.

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