Entrevista: Valdir Bündchen fala sobre família, educação dos filhos e como é ser pai de Gisele

Mais importante do que ter sido descoberta por A ou B, o triunfo de Gisele como a top model mais emblemática da história recente passa pela educação familiar e pelo aprendizado e disciplina que o sociólogo Valdir Bündchen sempre se preocupou em ensinar para a filha mais ilustre

Foto: Diego Vara

Desde que Gisele Bündchen se transformou em Gisele, uma discussão acompanha sua trajetória: de quem é, afinal, o mérito de ter descoberto, na escondida Horizontina, cidade de pouco mais de 19 mil habitantes, distante 496 quilômetros de Porto Alegre, aquela que está a um passo de se transformar na primeira top model bilionária da história? Ela é obra do olhar biônico do scouter Dilson Stein ou do empresário John Casablancas, o todo-poderoso da agência Elite, morto no mês passado, que promoveu o concurso The Look of the Year e revelou a modelo para o mundo?

Bastam duas horas de conversa com o sociólogo Valdir Bündchen, 64 anos, para compreender que essa indagação não tem toda a relevância que sempre acompanhou a biografia de sua filha. Gisele reúne, obviamente, os requisitos físicos básicos exigidos a uma grande modelo – como peso, altura e medidas nos padrões perfeitos. Mas isso, por si só, não teria bastado para forjar a grande estrela que se tornou. A diferença dela para as demais passa fundamentalmente por preceitos básicos aprendidos desde a mais tenra infância. E é aí que entra a figura dos pais Valdir e Vânia Bündchen. Disciplina, profissionalismo, educação, respeito ao próximo, ética e pontualidade são apenas algumas características apontadas pelos profissionais de moda como grandes diferenciais da gaúcha. São virtudes que vêm de berço. “Tudo o que aprendi na vida foi o meu pai que me ensinou. Se não fosse ele, eu não seria quem sou”, já admitiu publicamente a top.

Neste fim de semana dedicado ao Dia dos Pais, Donna procurou o patriarca dos Bündchen para saber dele quais foram exatamente esses ensinamentos, qual é o papel da família na vida de Gisele e como ela consegue manter, há mais de uma década exposta, esta imagem tão perfeita, de tão boa moça e extraordinária profissional que passa à margem de qualquer deslize ou arranhão.

? Ela parece ser uma pessoa forte, mas eu te digo que ela só se torna forte quando a turma que ela pode contar, a turma que ela tem em casa, oferece toda essa estrutura – contou Valdir nesta entrevista de quase duas horas de duração, que começou às 9h30min de uma quinta-feira, pontualmente no horário marcado por ele. Nem um minuto a mais nem um minuto a menos. Afinal, Gisele é filha dele; e ele, o pai dela.

Donna – O senhor acaba de chegar de uma temporada de 10 dias ao lado da família. Estava feliz com toda a prole na volta?

Valdir Bündchen – Uma vez por ano, nós fazemos uma reunião com a família na Costa Rica. Temos uma casa lá, e a Costa Rica é um país muito legal, um país pequeno, muito bonito. Cerca de 50% é mata. Você sai da praia e não entra no asfalto, tampouco vê construções ao seu redor. Só vê mata. É um país de cerca de 4 milhões de habitantes que tem uma produção primária e vive praticamente do turismo – com um complicador: 1 milhão são de refugiados da Guerra Civil da Nicarágua, e esta acaba sendo a mão de obra mais barata deles. A Costa Rica ainda tem muita coisa a construir, principalmente questões de água e saneamento básico.

Donna – A família Bündchen é engajada em um projeto ambiental próprio com relação à água, o Projeto Água Limpa.

Valdir –  O projeto Água Limpa, idealizado pela Gisele… (Ele larga o copo de café e leva a mão na boca. Eu imagino que tenha se engasgado com a bebida, mas logo percebo que está emocionado ao falar da filha. Respira fundo e retoma a conversa). Nós sempre fazemos tudo em família… (Ele volta a se emocionar, levando a mão à boca. Os olhos se enchem de lágrimas. Dá um longo suspiro, respira fundo e solta um sopro no ar, desfazendo o nó na garganta. Ficamos alguns minutos em silêncio. Retomo a entrevista).

Donna – Pretendo perguntar bastante sobre sua família, sobretudo porque acredito que a Gisele é esta profissional exemplar seguramente pela base familiar sólida, forte e sempre presente.

Valdir – Família não é uma coisa simples. Todas as famílias são complicadas. Não existe família perfeita, e a nossa família não é perfeita. Mas é uma família que conversa sobre os problemas com naturalidade e transparência. E nem sempre essas conversas são muito legais.

Donna – Qual é a sua concepção de família?

Valdir –  Família é a estrutura de um Estado. Sempre que a família vai mal, a sociedade vai muito mal. É uma célula fantástica que a sociedade precisa cuidar. A família é o reduto onde tudo é ensinado. Escutei uma frase dita por uma das minhas meninas, que tem uma filha pequena e que já começa a introduzir o diálogo na vida dessa filha. Ela fez uma colocação que achei fantástica sobre criação de filhos. Contou que estava conversando com a pedagoga na escola, e a pedagoga disse o seguinte: “Quando você tem filho pequeno, até os sete anos, você tem que colocar o casaco nele. Dos sete aos 14, você amarra o casaco na cintura e diz: ‘Se esfriar, você usa’. Depois dos 14, você diz: ‘Olha como está o tempo e vê o que você precisa levar'”. Achei sensacional (risos). Define exatamente esses três momentos de construção da educação de um filho.

Donna – O senhor e sua mulher criaram seis filhas. Isso é praticamente impossível nos dias de hoje, concorda?

Valdir – Nós estamos vivendo uma verdadeira ditadura das crianças, muito em função da mãe ausente, que quer compensar essa ausência de alguma forma. A situação é muito complicada. Quando você estuda Freud, você percebe que tudo é cíclico – e por que razão ele fala da infância como a construtora do caráter. Dos zero aos sete anos, a criança funciona como uma esponja, absorve todo o exemplo que vê, imita e forma 50% do seu caráter. A partir do sétimo ano até o 14º, ela forma mais 30% desse caráter, já criando pequenas referências próprias, não absorvendo tudo que vê pura e simplesmente. Então até os 14 anos, você já formou 80% do adulto de amanhã. Isso precisa ficar muito entendido dentro das famílias que resolvem ter filhos.

Donna – O senhor falou nesta fase da esponja, dos zero aos sete anos. O que o senhor e sua mulher, Vânia, se preocuparam em passar para suas filhas para que fosse totalmente absorvido?

Valdir – Bons exemplos. Você precisa ser um pai e uma mãe presentes. Não é só o pai ou a mãe que cria um filho. É o casal. Sempre pude contar com minha senhora. Ela foi especial. Quando vieram as gêmeas, comprei uma máquina de passar fraldas. Naquela época, não existia essa facilidade das descartáveis e era muita criança dentro de casa. Pobre da Vânia Maria! (Risos). Eu era um pai que trabalhava em treinamento de profissionais, estava sempre viajando e isso me tirava muito de casa. Mas quando estava com elas, era muito presente. Nós sempre formamos um núcleo familiar muito participativo. Nossas meninas foram crescendo e se tornaram esportistas. A metade do time de vôlei do colégio era da minha casa (risos). O esporte era muito incentivado. Uma das coisas que minhas filhas mais têm saudade é da infância. Elas tinham casinha de boneca, tinham a quadra de vôlei na frente de casa. Eram muito felizes.

Donna – Há 20 anos o senhor estuda sobre comportamentos e aptidões. O que despertou seu interesse?

Valdir – Eu tive que decidir muito cedo sobre a carreira de alguém.

Donna – Da sua filha, Gisele. Como foi isso?

Valdir – Uma pessoa que não era da nossa família nem da nossa convivência (o scouter Dilson Stein) viu uma qualidade em uma das nossas meninas que eu jamais teria percebido. Duvidei muito. Imagina só, um pai conservador, que mora em uma cidade pequena na divisa com a Argentina, fica sabendo que tem uma filha que pode ser modelo internacional! Soou muito mal para mim, fui extremamente resistente.

Donna – Os pais se preocupam que os filhos tenham uma formação.

Valdir – (Interrompendo) Este foi o meu susto! Eu sempre acreditei em formação, e a Gisele não pôde estudar. O mundo buscou ela com tanta força que ela ficou sem poder ter esse tempo para si. Hoje, finalmente, está se dando esse tempo, com maturidade, e compreendendo todo o aprendizado que a vida vem oferecendo. Gisele entendeu que o mundo precisa ficar mais igual – e que este é o grande papel de pessoas como ela. Mas como dizia, levei um grande susto naquela época e fui muito resistente. Ao mesmo tempo, sempre defendi a filosofia de que você não pode roubar sonhos.

Donna – Esse sonho era de quem?

Valdir – De ninguém! Era um sonho que veio de fora e acabou sendo alimentado. A Gisele queria ser outras coisas.

Donna – Conheci Gisele em 1994, na boate L’Atmosphere, aqui em Porto Alegre. Eu fazia uma reportagem para Zero Hora sobre a final regional do concurso The Look of The Year, da agência Elite, e Gisele era uma das finalistas. Entrei no camarim para conversar com as meninas, e ela me chamou atenção. Estava sentada em um cantinho lendo o gibi do Tio Patinhas. Me aproximei e perguntei se sonhava em ser modelo. Ela respondeu que tinha o sonho de ser jogadora de vôlei, mas como tinham dito que ela levava jeito para modelo, havia resolvido experimentar. Ela terminou vencendo aquela etapa regional, ficou em segundo lugar na final nacional do concurso e o resto da história o senhor conhece muito melhor do que eu.

Valdir – Você está brincando! Gisele tinha 13 anos naquela época. Nem tinha ideia do que se tratava uma carreira de modelo. Mas é justamente aí que está seu grande valor: no momento em que ela sentiu que poderia obter êxito nesta profissão e que tinha condições de vencer na carreira, aí ela quis. Quis muito. Essa é a grande diferença. Eu acompanhei e participei muito desse projeto da minha filha. Fiz uma pesquisa profunda sobre esse universo que desconhecia, uma vez que trabalhava dando cursos de negociação em todo o país. Fomos juntos a São Paulo para ver de perto que mundo era esse.

Donna – E o que o senhor encontrou?

Valdir – Lembro-me de uma modelo que era referência na época e fazia muito sucesso, Claudia Liz. Ela ganhava cerca de R$ 400 mil por ano. Era muito dinheiro. Depois que eu tive a compreensão de que se confirmavam os sinais de que Gisele realmente seria uma boa modelo, e que ela começou a fazer trabalhinhos, São Paulo acabou ficando pequena. Então, novamente, conversamos, e concluímos que ela deveria alçar voos maiores.

Donna – Até que ponto os pais têm permissão para resolver pelos filhos o que eles devem ser? O que o senhor pensa de pais que insistem para que as filhas sejam modelos como Gisele?

Valdir – Pais não têm o direito de depositar seus sonhos no futuro dos filhos. Nunca! O futebol é outro ambiente onde acontece muito isso também. Os pais apostam que aquele menino vai dar a eles o futuro que sempre sonharam – e nem querem saber o que o filho pensa a respeito. Pobres dessas crianças! Eu jamais disse a uma filha minha o que fazer. Cada uma pôde escolher livremente aquilo que quis. A única coisa que me preocupei foi em dar condições para que elas desenvolvessem o seu próprio olhar, sua própria visão de mundo.

Donna – Como um homem religioso que o senhor é, acredita ter recebido uma espécie de bênção divina ao se ver escolhido pelo destino para se tornar o pai da modelo mais bem-sucedida de todos os tempos e prestes a se tornar a primeira top bilionária da história?

Valdir – Eu vou te confessar uma coisa: eu era muito orgulhoso e muito prepotente quando jovem. Sofri um acidente, bati o rosto e passei cinco anos em tratamento para curar uma lesão cerebral. Aquela foi a primeira vez que o mundo me mandou uma mensagem: “Viu, seu arrogantezinho?”. Anos mais tarde, quando o destino me enviou essa criança, que fez toda essa confusão, eu pensei: “Estou tendo a oportunidade de escolha diante dessa situação: ser um cara legal ou um arrogante e prepotente”. Aproveitei a nova chance da vida e trabalhei toda a minha família para que mantivéssemos o equilíbrio, algo que eu não tinha, mas que precisei ter e aprender. É um aprendizado sempre diário e não é nada fácil. Eu acordo todos os dias de manhã fazendo essa reflexão e trabalhando esse equilíbrio dentro de mim. Porque você não muda a sua essência, você administra os seus problemas. E todos nós temos nossos problemas. Todos nós temos um lado bom e um lado mau. Depende de como somos estimulados.

Donna – Gisele é excelência na profissão, casou e tem dois filhos. O senhor percebe mudanças em sua filha basicamente em quê?

Valdir – Ela amadureceu muito na forma de pensar. No começo da carreira, só se importava com o lado profissional e com resultados econômicos e financeiros. Vejo que esta menina evoluiu espantosamente. (Ele novamente se emociona. Interrompe a conversa e solta outro grande suspiro, desfazendo o nó na garganta). Gisele entendeu que ela tem outro papel. Compreendeu que deve aproveitar a imagem legal que construiu para chamar atenção para as coisas que realmente valem a pena.

Donna – Que coisas são essas?

Valdir – Repito algo que ela sempre diz: “Pai, é preciso ajudar a humanidade a ser mais igual”. (Ele interrompe novamente, emocionado. Fica alguns instantes em silêncio e solta outro suspiro). Como você vê, estou num dia complicado…

Donna – É natural. O senhor acabou de se despedir de 10 dias ao lado da sua filha.

Valdir – A Gisele tem uma preocupação muito grande com a educação das crianças. Nesse nosso período juntos, na Costa Rica, conversamos muito sobre isso. Eu disse a ela: “Filha, vejo que nós temos grandes desafios. Um deles em relação à família, que eu acho que começa com as mulheres. O outro, em relação à educação”. Concluímos que devemos começar falando com as famílias, e falar com famílias é falar com as mulheres. Perguntei a ela se gostaria de apoiar este meu novo projeto Construindo uma Nova Mulher, que começa com o livro, Singular – O Poder de ser Diferente.

Donna – Ninguém melhor do que o senhor para falar com as mulheres. O senhor é o legítimo homem da casa das sete mulheres, não é?

Valdir – Pois é (risos). Sabe o que minhas seis filhas dizem para mim? “Pai, a gente veio ao mundo em grande número para que não houvesse dúvida de que a gente conseguiria te melhorar. Porque você é osso duro” (risos). Sou um pai de opiniões fortes.

Donna – O senhor estava contando sobre o projeto Construindo uma Nova Mulher e sobre o seu novo livro, Singular, que será lançado este mês em parceria com o filósofo Jacob Pétry. Fale mais sobre isso.

Valdir- A proposta da palestra Construindo uma Nova Mulher consiste em reconhecer a aptidão pessoal – se você não se conhecer, você não pode conhecer os outros -, discutir o papel da mulher na família e permitir que ela possa fazer a organização de um novo projeto de vida. Conversei muito sobre ele com a Gisele, e ela disse: “Pai, vamos em frente”. Vamos lançar esse projeto agora na primavera. Como você pode ver, a ideia é mostrar esta borboleta indo para a luz (ele mostra os ensaios da marca, e esta marca tem a forma de uma borboleta). Gisele apenas me alertou para a cor, que seria melhor optar pelo roxo no lugar do azul, já que o roxo é a cor da transformação. Com este projeto, inicio as atividades dessa minha nova empresa, que está nascendo agora e que quero estruturar para dar para as meninas. Quero que elas toquem esse projeto, porque acredito que vai ser muito grande. Primeiro, enfocando a parte da construção das mulheres e depois a parte educacional.

Donna – Como o senhor enxerga o Brasil nessa questão da educação?

Valdir – Nós vivemos num país em que temos tudo para crescer. Somos a terra da oportunidade, e ela sempre nos escapa por entre os dedos porque não temos formação de qualidade. Como construir um país incapaz de oferecer o mínimo de conhecimento para a formação de um povo? Eu não sou contra distribuir alimento para as pessoas. A pior coisa é deixar alguém com fome, mas a pior coisa também é tirar a dignidade da pessoa poder pensar e, conseqüentemente, avançar e aprender. A pior coisa é apoiar isso.

Donna – Estamos falando do Bolsa Família?

Valdir –  De todas essas medidas que são paternalistas e que deixam as pessoas cada vez mais em estado de dependência e ignorância. Isso é terrível.

Donna – O senhor pesquisa há duas décadas a área de ciências humanas. Seu livro anterior, Garimpo e Lapidação, aborda técnicas de autoconhecimento. Foi escrito com base na sua história particular de procurar ajudar suas filhas a descobrir suas aptidões pessoais e o lugar delas no mundo?

Valdir – Exatamente. Quando resolvi o problema da Gisele, cheguei em casa e tinha mais cinco me perguntando: “E aí, pai!? Nós servimos pra quê?” (risos).

Donna – Em Singular, o senhor fala de “destino” e “escolha”. O senhor atribuiu o sucesso de Gisele a qual dos dois? Ou foi sorte?

Valdir – O que é destino? O que é sorte? Sorte é quando a oportunidade encontra o preparo, e preparo você só consegue com repetição, que é a mãe da habilidade. Ou seja, você repete, repete, repete e torna-se habilidoso. Mas, antes de tudo, você precisa ter percebido o essencial: que aquilo que você sabe fazer bem é aquilo a que se propôs. Eu perguntei à Gisele, em São Paulo: “Então, minha filha, você vai ficar aqui? É isso que você quer?”. Ela respondeu: “Sim, pai, eu acho que eu sei fazer bem isso”. Então, ela se tornou cada vez melhor. Foi a repetição que contribuiu para sua habilidade como modelo. Mas atenção: a repetição com a consciência de que ela estava trabalhando em solo fértil para sua aptidão. Isso é bíblico: semear onde você tem realmente condições de fazer a boa semeadura.

Donna – O que o senhor descobriu nessas décadas de pesquisa?

Valdir – A vida é formada por filosofias. Você acredita em coisas, as defende e gera ideias – e essas ideias criam ações, que, repetidas, geram hábitos, que constroem resultados de vida. Hoje eu trabalho em um projeto, no qual acredito muito, que consiste em como construir resultado a partir das pessoas. Eu acredito que tudo depende das pessoas e tenho contribuído com cerca de 30 palestras por ano em todo o Brasil.

Donna – Fale mais sobre isso.

Valdir – Trabalho especialmente na formação de profissionais da comunicação. Falo sobre a importância de cuidar com o mundo da ilusão e se questionar profundamente sobre suas aptidões e para onde você pode direcioná-las. Qual é o grande problema hoje em dia? É você estar equivocado com aquilo que considera ser uma oportunidade.

Donna – Quais aprendizados o senhor aplica na própria vida?

Valdir – Sempre tive problema de foco, pois sempre fui muito criativo. Em um determinado momento, percebi que estava criando uma série de coisas ao mesmo tempo e que isso estava sendo muito prejudicial para mim, já que me fazia perder o foco. Sempre que você fraciona sua energia, você acaba perdendo a concentração e tem resultados pífios. Por que você tem que saber exatamente o que a natureza te deu de melhor? Exatamente para focar na sua aptidão.

Donna – E como a gente descobre que aptidão é essa?

Valdir – É aí que entra o nosso trabalho! Uma das filosofias de Aristóteles está contemplada no nosso novo livro: se você tem uma aptidão maior e se der vazão a ela, você obterá os resultados, porque os resultados são uma decorrência. Outro ponto que considero fundamental: sair do automático. Nós só trabalhamos e não paramos para pensar. É preciso buscar a introspecção, que leva à reflexão. É preciso aquietar a mente e buscar na memória maior, que está no inconsciente, a resposta para os nossos questionamentos. Por isso eu gosto muito da oração. Ela nos remete a um momento muito próprio com a nossa mente inconsciente, onde residem uma série de informações importantes que temos que aprender a buscar – e isso eu sempre procurei ensinar para minhas filhas de forma permanente. Considero que essa é minha grande contribuição familiar. Há outra passagem bíblica que gosto particularmente: ensina a criança o caminho pelo qual deve andar e mesmo quando velho jamais se afastará dele.

Donna – Eu acredito que é justamente este ensinamento que o senhor se preocupou em passar para suas filhas que faz de Gisele uma profissional tão singular, de tanto caráter e disciplina. O senhor concorda?

Valdir – Sem dúvida. Tenho observado a ditadura dos netos. Está muito complicado. Eu criei seis filhas e teria dificuldade hoje de ajudar as minhas meninas a entender como criar seus filhos para evitar a ditadura dos pequenos. Eles gritam, falam, impõem. E as mães ausentes, para compensar a falta, acabam cedendo. É algo muito difícil de resolver e que nós, como família, estamos tentando de forma unida.

Donna – Algo que me chamou bastante atenção em sua filha foi quando ela, então noiva de Tom Brady, trouxe o futuro marido dos Estados Unidos até Horizontina para apresentar à família.

Valdir – O que minha filha sentiu necessidade de dizer ao futuro marido, ao levá-lo para conhecer a família em Horizontina, foi: “Olha, eu vim daqui. Eu sou isso aqui”. Ela também queria muito apresentá-lo ao avô, que ainda era vivo.

Donna – Até que ponto a união e a presença da família ajudaram Gisele na construção do seu sucesso profissional?

Valdir – A estrutura familiar é muito importante para a Gisele. O mundo bate muito nela. Normal, né? Está exposta. Ela parece ser uma pessoa forte, mas ela só se torna forte quando a turma que ela pode contar, a turma que ela tem em casa, oferece toda essa estrutura. Quando ela precisa de apoio porque se fragilizou por alguma razão, é com essa turma que ela conversa. E isso é normal em todas as famílias em que não existam conflitos terríveis, em que não se possa conversar.

Donna – O diálogo é muito presente entre vocês enquanto família.

Valdir – Muito, muito, muito. E sempre de novo, né? Porque quando a gente acha que encontrou todas as respostas, mudam todas as perguntas (risos).

Donna – O que o senhor deseja para suas filhas?

Valdir – Que busquem entender o seu papel e saber o que o mundo espera delas. E que, se puderem fazer isso juntas, melhor.

Donna – Que influência tem o sucesso da Gisele na relação dela com suas outras irmãs?

Valdir – Apenas o aprendizado das diferenças. É nas diferenças que a gente se completa.

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