Escritora gaúcha Martha Medeiros fala sobre seu mais recente livro, Fora de Mim

Escritora gaúcha lança nova obra na Feira do Livro de Porto Alegre

Foto: Dulce Helfer

Em seu mais recente romance, Martha Medeiros, uma das autoras mais populares do país, colunista do caderno Donna e blogueira do site Donna, dá passos em direção ao lado mais sombrio de uma mulher recém-separada. Fora de Mim compartilha alguns temas e estruturas do bestseller Divã: a protagonista narra em primeira pessoa a necessidade de reconstruir a própria vida. A diferença é que, em Fora de Mim (que será autografado na Feira do Livro de Porto Alegre no dia 6 de novembro), Martha escava um pouco mais a angústia da personagem.

O recente romance reconstitui três momentos distintos na vida da mulher. Logo após a partida do amante, ela mergulha em uma espiral de sofrimento, obcecada pela ausência. Apenas com a passagem do tempo, consegue olhar com mais frieza para a relação que mantinha com o homem e perceber a instabilidade doentia a que o companheiro a havia acostumado. Na terceira parte, situada quatro anos depois, a mulher estabelece, por acaso, uma relação de amizade com a nova mulher do ex.

Pergunta – Fora de Mim volta a tratar de temas afins com suas narrativas longas anteriores, principalmente os relacionamentos amorosos, mas desta vez tangencia zonas mais sombrias. Foi um aprofundamento intencional?
Martha Medeiros – Gosto muito de escrever sobre as relações humanas. É o tema no qual me sinto mais confortável. Escrevi o Divã, que de certa forma também era um monólogo feminino sobre isso. Mas tinha uma leveza maior, mais humor, tanto que virou cinema e teatro com perfil de comédia. Comecei a escrever sem saber muito aonde ia dar, mas tive essa pulsão de investigar como uma mulher se sente ao final de uma relação. O livro tem três momentos muito específicos na história de um amor que não deu certo. E o que eu quis mostrar é que em cada um desses momentos há sempre a procura de uma lógica. A gente sempre procura entender por que as coisas aconteceram, por que deu certo, por que deu errado, quando a coisa mais ilógica do mundo é o amor. Até nem tanto o amor, talvez, mas a paixão. Ela é ilógica por natureza.

Pergunta – Esse impulso da protagonista para buscar sentidos ocultos se reflete mesmo na relação que, no futuro, ela vem a desenvolver com a mulher do ex-amante, não?
Martha – É uma coisa que eu nunca vivi, mas acho que todo mundo tem esse voyeurismo. O que acontece depois com aquela pessoa por quem a gente foi tão apaixonada, viveu junto? Qual é a ligação que a gente pode ter com essas pessoas, como elas ajudam a gente a compreender quem é aquele cara, aquela mulher?

Pergunta – Ao mesmo tempo, há também um componente doentio na personalidade do homem por quem a protagonista é apaixonada, que ela só percebe no fim do romance.
Martha – Bom, a própria palavra paixão vem de “pathos”, e há uma corrente psicanalítica que defende que a paixão é um estado doente. Mas, na verdade, o que eu queria era outra coisa. Eu não dou um diagnóstico para o personagem, porque nem me atreveria, seria muito chute. Mas mostro que ele é uma pessoa um pouco transtornada, com ímpetos de êxtase e de frustração muito grandes. Lê-se pouco sobre como é conviver com essas pessoas. A gente tem o olhar de quem sofre com este problema, mas tem pouco o olhar de quem convive com quem tem algum transtorno. Porque ninguém está livre de se apaixonar e se envolver com alguém que possa te exigir além da conta.

TRECHO

“No segundo dia eu sumi com sua escova de dente, que ficava ao lado da minha, as duas grudadas de forma indecente, como nunca mais ficaremos, tirei a sua de perto, mas não tive coragem de jogá-la fora, abandonei-a numa gaveta na esperança de que você viesse um dia e não veio. Hoje a peguei entre as mãos e cheirei as cerdas em busca de um resto de saliva sua, do odor da sua boca, e me senti estúpida e digna de pena, joguei na lixeira sua escova e fiquei me sentindo um pouquinho pior, porque nada me serve, nenhum ato que pareça maduro é maduro de fato, mas o que me resta? Tenho que faxinar você da minha vida, não posso permitir o atrevimento de você estar aqui sem estar aqui. Não ouço mais música, todos os discos foram escutados em sua presença, nas nossas noites e também ao acordar, a casa sempre sonorizada, você não gostava de silêncios, nunca estive com você sem que houvesse música, e isso agora me intriga: por que o silêncio te incomodava tanto?”

Fora de Mim
– Autora: Martha Medeiros
– Lançamento: Editora Objetiva, 138 páginas
– Gênero: romance
– Preço: R$ 29,90

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