Escritoras dominam primeiros dias da 14ª Bienal do Livro

Foto: Divulgação

Da gritaria desenfreada provocada por Thalita Rebouças e Meg Cabot ao papo sereno e enriquecedor de Ana Maria Machado e Ruth Rocha, os primeiros dias da 14ª Bienal do Livro do Rio foram marcados pelas escritoras.

Enquanto a brasileira Thalita e a americana Meg faziam suas fãs urrarem com um simples arrumar de cabelos, as veteranas Ana Maria e Ruth foram responsáveis, na tarde do último sábado, por um dos mais agradáveis encontros do Café Literário, certamente o espaço mais bem resolvido da feira.

O tema do debate era 40 Anos Formando e Encantando Leitores e, ao longo dessa retrospectiva, Ana Maria e Ruth reconheceram que ambas tiveram o mesmo “pai literário”, Monteiro Lobato.

– Ele nunca teve medo de falar de questões sociais – explicou Ruth. – Em seus livros é possível encontrar temas como o petróleo, a reforma agrária, a guerra.

Ela, aliás, foi novamente questionada (dessa vez, por um menino) se o personagem principal de seu livro O Reizinho Mandão era o presidente da República.

– A obra foi escrita durante a ditadura, época em que era impossível dizer certas coisas – disse ela, sem responder diretamente a pergunta.

Já Ana lembrou das diferenças de se escrever para adultos e crianças. O público pequeno, segundo ela, não domina certas artimanhas da linguagem, como metáforas e narrativas reflexivas.

– Claro que o cuidado é o mesmo, mas com o leitor mais novo não dá para ficar usando palavras abstratas. É preciso ser direto, apresentar uma situação que vá prender a criança.

Ruth e Ana criticaram, sem nominar, autores que hoje utilizam certos temas para abusar da autoajuda.

– Especialmente em temas delicados, esses escritores acabam sendo muito politicamente corretos e produzem obras sem valor literário – disse Ruth.

E Ana lembrou que elas e outros autores do mesmo naipe se diferenciam desse tipo de literatura por seu histórico.

– Quando começamos, não éramos pedagogas ou mães de crianças, mas intelectuais hábeis em usar a irreverência e a inteligência. Não fossem nossos livros, publicados nos anos 1970, hoje não existiriam 80% das editoras de infanto-juvenis.

Outra boa novidade da Bienal é o espaço Mulher e Ponto. Charmoso e aconchegante, recebeu na semana passada a psicanalista Betty Milan e a antropóloga Mirian Goldenberg para uma conversa sobre a mulher de mais de 40 anos. Um público pequeno e maduro, praticamente todo feminino, acompanhou os interessantes comentários sobre o comportamento das brasileiras no que diz respeito a questões como o envelhecimento, a sexualidade e o casamento.

A conclusão: a vida pode ser ótima depois dos 40, mas só se a mulher não tentar fingir que tem 30 ou 20 anos. A jornalista Sonia Biondo, curadora do Mulher e Ponto, contou que conhece quem falsifique o passaporte com o objetivo de passar por mais jovem. Já Betty defendeu que a degradação do corpo com a idade é um mito que precisa ser superado, e Mirian lembrou que pior mesmo é a degradação simbólica da mulher madura, não raro desqualificada por sua idade.

O Mulher e Ponto foi criado para prestigiar o público feminino, o que mais lê no Brasil.

No espaço Livro em Cena, coordenado pelo ator e diretor Paulo José e destinado à leitura de textos clássicos nacionais, foi uma mulher na flor de sua maturidade a mais aplaudida: Marília Pêra. Com colaboração de Paulo, a atriz interpretou trechos de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Teoria do Medalhão, de Machado de Assis.

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