Esmaltes viram ícones fashion e objetos de culto entre as mulheres modernas

Mercado registra um boom no setor e vendas recordes em setembro deste ano

Os esmaltes agora são ícones fashion
Os esmaltes agora são ícones fashion Foto: Divulgação

Não estranhe se numa roda de homens a conversa acabar em esmaltes. Nada a ver com uma nova moda entre metrosexuais ou adeptos do incolor nas unhas (ufa!). Desde que passou a rechear também as páginas de economia de revistas e jornais, destacando ótimos negócios e a explosão de consumo, o assunto deixou de ser coisa de mulherzinha. O mercado registra um boom no setor.

A febre das cores vibrantes, os desfiles de moda que agora capricham nos esmaltes das modelos, a paixão das blogueiras com suas coleções de até 500 vidrinhos… tudo isso inflou os números. A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) acaba de registrar que, somente em setembro passado, foram consumidos 60 milhões de esmaltes no país.

? Se for mantida essa proporção, alcançaremos um total de 720 milhões de unidades vendidas em 2010 ? diz João Carlos Basilio, presidente da Abihpec. ? No ano inteiro de 2009, a indústria registrou uma produção de 360 milhões.

Dados do Instituto Nielsen também reforçam o franco crescimento. No primeiro trimestre deste ano, o aumento nas vendas chegou a 33%, enquanto em 2009 tinha sido 14%. Não há mais vidros suficientes no país para carregar tanta tinta. De verdade: faltam embalagens, e a solução de muitas empresas tem sido importar o produto da Índia.

? O intervalo entre os lançamentos diminuiu e, em apenas dois anos, criamos 75 novas cores. Não tivemos outra maneira senão recorrer, com mais intensidade, aos fabricantes externos de vidros ? conta Luciana Marsicano, diretora de Marketing da Impala, que oferece hoje 181 cores diferentes de esmaltes.

Sócio de uma marca bem menor, Vincenzo Barrella viu seu negócio dar uma grande virada. Apenas três anos atrás, o italiano pensou em fechar as portas da Hits Specialittà, que teve início em 2001 e até então não tinha vingado. Mas, do ano passado para cá, as vendas quadruplicaram. Na fábrica com 35 funcionários, na Mooca, em São Paulo, cada esmalte é feito com uma mistura de resinas acrílicas e pigmentos. Um novo tom surge da reunião de até dez pigmentos. Não para por aí: depois de se chegar à cor desejada, o produto precisa ficar parado, em observação, para ver se a combinação tem estabilidade e não mancha. Por dia, circulam nas esteiras da fábrica novos 40 mil vidrinhos.

? Passamos a investir no público jovem. Enviamos os lançamentos para um grupo de 50 blogueiras, um canal que virou uma ótima forma de divulgação ? diz Vincenzo.

Mudanças de comportamento são visíveis diante de tanto frisson. Lojas abrem espaços para manicures e viram points. Aficionadas chegam a fazer as unhas duas vezes por semana, inventam novas formas de pintá-las, marcam encontros pela internet para falar de esmalte e seguem tudo o que as unhas de modelos e atrizes exibem nas passarelas e novelas.

No mundo da moda, a origem dessa esmaltemania se deu em 2007. Foi quando as modelos do desfile da Chanel apareceram com cores ousadas nas unhas. A partir dali, as mãos também passaram a ser alvo de flashes nas passarelas das grandes grifes. Lilian Pacce, editora e crítica de moda, diz que o esmalte virou uma informação importante no visual dos desfiles, um acessório de moda.

? No último desfile de Gareth Pugh, as modelos tinham umas correntes nas unhas, era incrível. Mas a Chanel, sem dúvida, começou essa onda toda, com lançamentos que viraram ícones ? comenta.

Quando poucos ainda se arriscavam no verde, a Chanel criou, no ano passado, a cor Jade. Foi um marco. O produto esgotou no mundo inteiro, virou item de colecionador e hoje só é encontrado em sites de leilão, como o eBay, com valores a partir de US$ 130. Depois, veio o acinzentado Particulière, que teve uma lista de espera de 800 pessoas. Da coleção nova, o Orange Fizz virou sensação graças às mãos da atriz Carolina Dieckmann, que expõe as unhas laranjas na novela Passione. O potinho sai por R$ 92. Aguardando a nova coleção, que saiu lá fora em setembro e chega aqui em dezembro, 127 pessoas já deixaram seus nomes na loja do Shopping Leblon.

A turma louca por esmaltes logo arrumou alternativas para chamar um Chanel de seu, por um custo bem mais baixo. Para conseguir a cor desejada, o jeito foi sair misturando tons. A ilustradora Júlia Lima jura que metade do esmalte Coral Chic (Colorama) mais metade de Fitilho (Impala) mais duas gotas de Xaréu (Impala) é igual ao amado Orange. A invenção faz parte de uma coleção, para uso próprio, criada e batizada por ela de Xanéu. E as receitas, ela entrega no seu blog, em www.adonadabolsinha.com>, e em encontros com outras aficionadas pelos vidrinhos coloridos.

Um dos points para bater papos sobre esmalte é a Penteadeira, uma pequena loja de roupas e mimos para casa, em Ipanema, que conta com três manicures. É lá que, numa tarde de quarta-feira, Júlia comemorou, juntamente com a publicitária Carla Lemos e a estudante Laura Haddok-Lobo, a criação de uma esmaltoteca: cerca de 50 esmaltes ficam agora sempre disponíveis para quem faz as unhas por lá, entre marcas nacionais e importadas.

? Comecei com uma manicure só, há dois anos, mas fez tanto sucesso que aumentei. Fico zonzo de ver como podem se empolgar tanto por causa de esmaltes ? conta, rindo, Lula Duffrayer, dono da loja.

A estilista Mirna Ferraz também decidiu apostar num cantinho de beleza dentro de sua loja, a Alice Disse, no Shopping da Gávea (RJ). Até 12 de dezembro, uma manicure vai fazer as unhas da clientela (de graça!), com esmaltes Chanel.

No Jardim Botânico, também no Rio, o Ateliê Clementina oferece seu jardim de inverno para as mulheres botarem as mãos à obra. A designer Fabiana Pomposelli incluiu o serviço de manicure toda quinta-feira na loja de acessórios e objetos para a casa. O endereço foi logo descoberto pela designer Amanda Britto, que leva para lá parte de seus 350 potinhos de esmalte. A ansiedade para, digamos, absorver todas as novidades do mercado é tanta que ela chega a fazer as unhas duas vezes por semana.

? Eu acho que agora é preciso criar o Clube dos Viciados em Esmaltes Anônimos – brinca. ? Não consigo parar de procurar novas marcas, cores diferentes…

Não é tarefa fácil acompanhar tantas novidades. As fábricas produzem uma diversidade cada vez maior de cores, com nomes que exageram na criatividade, como Inveja Boa, Deixa Beijar, Puro Glamour, Preguiçinha e Cosmos. Agora, ainda há variedade nos efeitos. Muitas aderiram ao fosco, por exemplo. Surgiram ainda os cromados e os superbrilhosos holográficos. As cultuadas estrangeiras OPI e Milani criaram recentemente linhas completas de esmaltes 3D. Para conseguir o efeito tridimensional, é preciso deixar as unhas secarem ao sol. Uma das marcas mais vendidas, a Colorama lançou a coleção Única Camada, com pincel mais largo e a proposta de passar apenas uma mão de esmalte. Com a consultoria do estilista Reinaldo Lourenço, a Risqué investe no efeito acetinado.

? Outra inovação importante foi nas embalagens. Em algumas coleções, não há mais rótulo autoadesivo, o que possibilita uma maior área de decoração ? diz Mel Girão, diretora executiva de marketing da Risqué, que possui 139 esmaltes diferentes.

Isso sem falar nas técnicas. Na escola por onde passam os estudantes da rede Werner, as manicures já aprendem quatro diferentes. A Meia-lua é uma delas, famosa nas mãos da personagem Melina, mais uma de Passione: o esmalte desaparece perto das cutículas.

Outra é a Louboutin (uma referência ao famoso designer de sapatos francês que sempre usa o vermelho para colorir as solas), para unhas mais compridas: a parte de dentro de cada unha também é pintada. A tradicional Francesinha ganhou versão bem mais atrevida (chamada Inglesinha), com composições de cores quentes.

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