Especial: Um bate-papo entre Martha Medeiros e Lilia Cabral sobre “Divã”

Filme baseado no livro homônimo da escritora gaúcha é protagonizado pela atriz paulistana

A atriz Lilia Cabral e a escritora Martha Medeiros em encontro
A atriz Lilia Cabral e a escritora Martha Medeiros em encontro Foto: Cris Aspesi, Especial

A Rua Zara é uma ruazinha muito simpática, estreita, localizada no alto do Jardim Botânico, em meio a uma vegetação úmida e quase selvagem. É tarde de quinta-feira, o Rio de Janeiro sucumbe ao calor, mas ali, na Rua Zara, a sensação remete à Serra. Corre um ventinho fresco, e o som dos pássaros se sobrepõe ao ruído das buzinas na hora do rush.

A Rua Zara é o endereço da casa da atriz Lilia Cabral, e a casa é a cara da dona. Esconde-se atrás de um portão azul e vive com a porta da frente aberta. Dois chaveiros com olho de tigre turquesa pendurados na fechadura tratam de manter a boa energia que emana do lugar. Orquídeas brancas dispostas em vasos transmitem uma atmosfera de paz. Livros de Carlos Vergara, Pablo Picasso e Fellini misturam-se a dezenas de outros títulos pousados na mesa de centro da sala, em meio a velas de diversos tamanhos e formatos. Tudo que ali está, está por algum motivo, dá sinal de vida em movimento, diferente de outras casas, essas que a gente vê em revistas de celebridades, em que não há nada fora do lugar, tudo é clean demais, limpo demais, inverossímil demais.

Lilia poderia tomar emprestadas para si as palavras da atriz Kate Winslet. Em entrevista recente, a vencedora do Oscar sentenciou: “Não sou uma estrela, sou uma atriz. Estrelas são aquelas que têm seguranças, preparadores físicos,  aviões. A única coisa glamourosa que costumo fazer é, vez ou outra, submeter-me a uma limpeza de pele”. Outra semelhança da brasileira com a inglesa reside no talento, na eficiência, na capacidade camaleônica de vestir personagens antagônicos e convencer sempre o espectador – basta citar dois exemplos recentes: a submissa Catarina da novela A Favorita e a cruel Marta de Páginas da Vida. A partir da próxima sexta-feira, 17, com a estreia do filme Divã, o país terá o privilégio de conferir mais uma atuação nota 10 de Lilia Cabral.

* Veja a programação nos cinemas

Baseado no livro homônimo da escritora e cronista gaúcha Martha Medeiros, lançado em 2002, Divã conta a história de Mercedes, uma mulher de 40 anos que vive às voltas com as alegrias e desafios de sua época. Casada e mãe de dois filhos, Mercedes decide, mesmo sem saber bem o porquê, procurar um psicanalista. O que era apenas curiosidade, transforma-se em uma experiência que provoca uma série de mudanças em seu cotidiano. No divã, ela questiona o casamento, a profissão e o poder de sedução. Dirigido por José Alvarenga Jr., o filme vem coroar uma parceria bem-sucedida de Martha Medeiros e Lilia Cabral. Uma parceria que começou pouco antes de 2005, quando o livro foi adaptado para o teatro. Vista por mais de 175 mil espectadores, a peça trazia Lilia no mesmo papel de Mercedes.

Foi em uma dessas noites de casa cheia que Alvarenga percebeu o potencial cinematográfico do texto. Visitou Lilia no camarim e insistiu para que fizessem o filme. Lilia, por sua vez, procurou Martha, que se identificou prontamente com o projeto. A atriz Alexandra Richter, que interpreta a melhor amiga de Mercedes na peça, foi mantida na versão para o cinema. Somaram-se ao elenco os atores José Mayer, Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond.
– Divã é uma história que traz humanidade. Ela não mente para você, não diz que a vida é um conto de fadas – observa Cauã.

A campainha da simpática casa de portão azul, no Jardim Botânico, soa 10 minutos após o horário marcado para esta entrevista. É Lilia Cabral que chega desculpando-se pelo pequeno atraso. Anda numa rotina frenética de divulgação do filme pelos quatro cantos do Brasil (na próxima terça-feira,14, estará em Porto Alegre). Mal salta do carro, é festejada por Martha, que está a sua espera para, juntas, participarem da pré-estreia de Divã, no Rio, marcada para dali a duas horas no Cine Odeon, no centro da cidade.
– Olá, Mercedes! – festeja Martha. – A Lilia virou meu alter ego – diverte-se ela.
Lilia sorri. Larga a bolsa, oferece uma água, um mate, retribui a calorosa recepção do cão da raça Shitsu, de cor branca e de nome de grife, Gucci.
– Quando me venderam o Gucci, disseram que essa raça não latia, que a gente não pagava mico, mas eu acho que tem algum gene esquisito nele – brinca.

Dá-se início, então, ao propósito desta reportagem de DonnaZH: participar de um bate-papo com Lilia Cabral e Martha Medeiros sobre esse mais novo capítulo em que foi transformada a obra Divã.

* Acesse o blog da escritora Martha Medeiros

DonnaZH – Vocês estão vivendo uma dupla estreia. A Lilia como protagonista de um filme; a Martha como autora do livro em que o roteiro foi adaptado. Vivem um nervosismo de debutante?

Martha – Quando fui ver o filme pela primeira vez, meu coração fazia tum, tum, tum, tum! Quase saiu pela boca (risos).
Lilia – Ah, sempre dá um nervoso, né? Fiquei agoniada no dia que vi a produtora do filme no cinema. Quando ela me disse que tinha gostado, eu relaxei. 
Martha – Na verdade, é minha segunda estreia com o Divã. Porque o livro foi minha estreia na ficção. E nunca pensei que pudesse se tornar roteiro para um filme. Quando comecei a elaborar o livro, até imaginei que pudesse se tornar texto para uma peça de teatro. Mas eu não sou autora de peça teatral, não tenho capacidade para isso. Logo, desisti. Na hora que você escreve, o melhor é não pensar em que aquele texto vai se tornar. Isso confunde, desvirtua. Só depois do livro pronto foi que senti que a história tinha fôlego para ser algo mais. Esse, porém, nunca foi o objetivo final. E jamais passou pela minha cabeça a ideia de que ele teria essa vida tão longa e toda essa repercussão. O Divã hoje é tudo: livro, peça de teatro e um filme. É um case.

DonnaZH – Lilia, você teria conseguido fazer no cinema uma personagem tão verídica e tão completa se não tivesse tido a experiência de tantos anos com a peça?

Lilia – A peça ajudou muito, sem dúvida. Mas, no cinema, eu tive que reinventar a Mercedes. No teatro existia uma forma de eu contar a história que fazia com que o público se divertisse. Riam do meu gestual, com meu jeito de falar, de forçar as palavras. O cinema me deu a liberdade para eu me testar em um plano menor, para criar uma intimidade com o personagem que no teatro eu não tinha.
Martha – Uma coisa é você interagir com o público; outra é interagir com a câmera. Imagino que seja completamente diferente.
Lilia – Exatamente. No cinema, nas cenas de consultório, eu não tinha a preocupação de tirar da plateia a graça que eu tirava no teatro. A minha preocupação maior era mostrar a Mercedes de uma forma íntima e bacana, abrindo mais sua intimidade a cada sessão.  

DonnaZH – A Mercedes do livro é uma mulher bem menos irônica e engraçada do que a Mercedes da peça e do filme. Foi proposital esse toque mais leve na personalidade da personagem?
Martha – Eu não tenho veia cômica. Os meus textos têm algumas sutilezas, uma ironia pontual. Mas eu sou séria na forma de escrever. Até tenho um certo humor, mas é um humor diferente desse humor comunicativo e imediatista. O livro tem uma introspeção que é diferente do teatro e do cinema. Na obra escrita, há apenas dois envolvidos: o leitor e o livro. Pode ter vendido 10 milhões de exemplares, mas é sempre uma relação a dois. É diferente do entusiasmo contagiante de um grupo de pessoas numa sala de cinema, por exemplo. Portanto, tudo isso faz com que o livro jamais pareça tão engraçado quanto uma obra audiovisual.
Lilia – Eu acho que a Martha é uma escritora que escreve de maneira séria. E quando ela escreve o sério, não escreve raso. Ela escreve com profundidade. Mas confesso que eu senti uma certa ironia, às vezes até um certo deboche, em algumas situações do livro.
Martha – O cinema e o teatro têm um componente de sedução que a literatura não tem. Como eu não estou vendo o meu leitor lendo meu livro – e jamais vou ver -, o fato de assistir no teatro ou no cinema uma obra minha torna-se uma coisa fascinante. Porque pela primeira vez eu vou ver alguém reagindo a uma frase que escreveu ali, no silêncio do escritório, às vezes até de pijama (risos).

DonnaZH – Quais características pessoais de vocês que estão mais representadas na Mercedes?

Martha – Eu botei muito de mim. Tinha vontade de discutir a morte, mas nunca passei, graças a Deus, por nenhuma experiência desse tipo com alguém próximo. Então, para discutir essa experiência de perder alguém querido, acabei matando a Mônica (a melhor amiga de Mercedes, personagem vivida no cinema e no teatro pela atriz Alexandra Richter). Morro de remorso, coitada! (risos). Isso é só um exemplo para explicar que as vivências da Mercedes não são reproduções da minha vida. Porém, o ponto de vista dela em relação ao mundo e as pessoas, sou eu – sem tirar ne pôr. Não tem como negar. São coisas que, na época, estava muito latentes na minha cabeça. Eu questionava muito sobre casamento, paixão, solidão, loucura, sanidade… Eu sou muito lógica e racional e meu intuito nessa vida é deixar de ser assim. Acho que fiz essa catarse com a Mercedes.
Lilia – Eu já sou o oposto, porque eu já perdi muita gente. Aliás, eu já perdi todo mundo da minha família. Perdi minha mãe, meu pai, minhas tias, tios, amigos importantíssimos. Por isso, fazer essas perdas no cinema foi muito simples, porque eu tenho esse know-how. A única coisa que no livro que não é nada próxima a mim, a única coisa com a qual não me identifico de jeito nenhum, é a maneira como a personagem lida com a infidelidade do marido. Mercedes diz: “Ah, mas ele não está sendo desleal, só está sendo infiel”. O quê? Ah, não! Desgraçado! Eu mato!(risos). É a única coisa mes-mo que eu não me identifico. Eu não sou chique a esse ponto, não tenho toda essa modernidade (risos.)

DonnaZH – Vocês também frequentam o divã?

Martha – Eu não faço terapia. Sou louca para fazer, mas não faço. Tenho um psiquiatra que é uma espécie de S.O.S. Quando tem algo me incomodando, faço umas seis, sete sessões de análise – sempre bem focada naquele problema e pronto. A intenção é me curar daquela dor. A gente conversa abertamente sobre essa relação, sabemos que não é um processo de análise. É basicamente um pronto-socorro. Ele é meu plantonista.
Lilia – Eu faço há muitos anos, desde que minha mãe morreu, em 1987. Logo em seguida, procurei ajuda. Fiz terapia com a mesma pessoa durante seis anos – até mudar de analista. Passei a me consultar com o Alberto Godin e com ele estou até hoje. Parei um tempo logo após o término das filmagens de Divã.

DonnaZH – Era muito divã para uma pessoa só.

Lilia – (Risos) Eu estava esgotada de ver aquele divã todo dia. Para completar, o final do filme coincidiu com o início da novela A Favorita, em que eu fazia aquela mulher destruída, sem nada, com auto-estima no chão. Daí pensei: “Eu não vou para o analista. Vou aproveitar essa mulher que jamais iria para o analista e vou tirar umas férias”.

DonnaZH – Ele concordou com as férias?

Lilia – Eu jamais vou desistir do meu analista – e ele sabe disso. Só que me deu uma gastura de divã, de falar de análise… Eu vou voltar, sinto falta de poder dividir algumas coisas. É muito bom. Mas eu gosto daqueles analistas que falam. Não suporto aqueles outros que ficam parados olhando horas e horas para a sua cara, sem falar nada, como quem diz: “eu estou te analisando, vou fazer você chegar ao seu resultado sozinha e não vou precisar dar um pio”. Acho isso uma enganação. Ou a pessoa não sabe o que dizer, ou está pensando na compra do supermercado. E você ali, se esgoelando. Quando ele abre a boca, é para dizer: “O seu tempo acabou”. tem pena, né?

DonnaZH – Vocês opinaram na escolha de José Mayer, Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond para o elenco?

Lilia – Olha, eu incomodei. Mas incomodei mesmo para convencer! (risos). Liguei para o Zé (José Mayer) e disse: “Zé, se você gostar do texto, tem que fazer, tem que fazer, tem que fazer!”. Quando ele começou a ler, eu ligava a cada 15 minutos. “Em que página você está?”, perguntava. Ele dizia: “Nossa, estou gostando, está uma delícia esse roteiro”. Senti  que ele tinha embarcado na história. Quanto ao Gianne, eu sabia que ele tinha assistido à peça duas vezes – e eu precisava de uma pessoa que eu admirasse e que me deixasse à vontade em cena. Não ia tirar a roupa na frente de qualquer um. Apesar de não ter ficado nua em nenhum momento com ele, nossas cenas exigiam cumplicidade dos dois atores. E eu tenho isso com o Gianne. Quando a Alvarenga apresentou o trabalho para ele, ele aceitou na hora. E o Cauã eu convenci a fórceps mesmo (risos). O melhor de tudo é que o filme estreia em um momento em que o Cauã está numa grande fase da carreira.

DonnaZH – Martha, você é metódica com seus textos, detalhista com cada vírgula, com cada parágrafo. Como foi abrir mão dele, vê-lo sendo adaptado por outras pessoas?

Martha – Sempre dá um estranhamento inicial e um impacto de ver seus personagens ganhando vida. A gente é proprietária privada  daquilo que escreve. Eu não consulto ninguém, não peço sugestão a ninguém. Entro naquela viagem sozinha, erro por conta própria, acerto por conta própria, não divido nada. Sabia, no entanto, que no momento em que autorizasse a adaptação do meu texto, ele não seria mais meu. Por isso, não incomodei ninguém. A única coisa que pedi, ainda na adaptação da peça, foi que não houvesse vulgaridade. E fui respeitadíssima. Claro que tem momentos que senti “ai, aquela frase ali tirou um pouco da força da outra…” (risos). Mas são coisas minhas, particulares, que ninguém precisa saber. Se eu disser que fico totalmente blasé, estaria mentindo. Não tem como. Tem determinados autores que enchem o saco, que se frustram, frustram a equipe, provocam estresse total. Eu não sou assim.

Lilia – O  autor que tem a postura da Martha, que é generoso, só tem a ganhar. Lógico que, se você não gosta do que está sendo feito, tem o direito de dizer que não gostou. Mas também tem que saber direitinho o projeto em que está trabalhando. A partir do momento em que você aceita fazer parte do trabalho, tem que deixar a equipe livre. Quando um autor não deixa você livre, você acaba não conseguindo trabalhar para o público. Você fica sempre pensando se o autor vai gostar, se ele vai deixar, se isso, se aquilo. Vira uma coisa cricri que tira toda sua liberdade. O resultado? O espetáculo simplesmente não acontece. O autor generoso é aquele que cresce e deixa todo mundo crescer.

DonnaZH – O que vem após a estreia de Divã?

Martha – Eu estou quase terminando um livro…
Lilia – (Interrompendo) A Martha vai ser encenada. Esses dias, a Cissa Guimarães me falou: ‘Eu roubei tudo seu. Roubei a autora, a adaptadora…”. Sinal que eu sei escolher, né?
Martha – A Cissa reuniu várias crônicas do Doidas & Santas para um espetáculo que provavelmente vai ter o mesmo nome. A gente teve uma primeira conversa, eu dei uma olhada no roteiro. Ela está em fase de captação de recursos. E não deposito expectativa demais, ainda mais em ano de crise. Está todo mundo trabalhando na melhor das intenções, mas eu prefiro aguardar sem euforia.

DonnaZH – E o livro que você disse que estava terminando?

Martha – Pois é, está praticamente pronto. Mas ainda não sei se vou lançar este ano. É quase um Divã 2, de ficção. A personagem também é uma mulher e tem mais ou menos a idade da Mercedes. Só que este é um livro mais triste, um livro sobre dor, sobre a dor do amor, especificamente.  O que eu queria botar no papel, já botei. Agora, tenho que dar uma esquecida nele. Acho que ainda está faltando alguma coisa que justifique tudo o que foi escrito. Então, quero esquecer, preciso espairar, porque acredito que esses insights vêm nos momentos que você menos espera. Se eu não encontrar, fica para o ano que vem. Não tem pressa. Também quero voltar para a poesia, estou há mais de 10 anos longe dela.

* Acesse o blog da escritora Martha Medeiros

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