Especialistas advertem sobre os riscos do uso excessivo de descongestionantes nasais

Apesar de serem meros paliativos para rinites e outros desconfortos, eles destroem a mucosa das narinas

Castigos corporais podem ser proibidos a partir da aprovação da  lei
Castigos corporais podem ser proibidos a partir da aprovação da lei Foto: Stock Photos, Divulgação

Todo mundo já sentiu a desagradável sensação de estar com o nariz entupido. Seja por resfriado, sinusite ou alergia, volta e meia, as narinas ficam obstruídas e a melhor saída é apelar para os descongestionantes nasais. As gotinhas garantem alívio imediato, mas precisam ser usadas com cuidado. Especialistas alertam que o uso contínuo do líquido vicia, fazendo com que o organismo precise cada vez mais de quantidade maior do remédio para ter o mesmo resultado. A longo prazo, os descongestionantes podem danificar a mucosa nasal e, até mesmo, provocar problemas cardíacos.

Isso porque as gotinhas têm efeito vasoconstritor, isto é, fazem com que os vasos sanguíneos do nariz desinchem.

– O nariz é um local muito vascularizado. Quando entope, há a dilatação das veias, dificultando a respiração – explica o otorrinolaringologista Olavo Mion, da Academia Brasileira de Rinologia (ABR).

Olavo afirma que o descongestionante não deve ser usado por mais de três dias seguidos. Com o passar do tempo, a mucosa nasal passa a absorver pequenas quantidades da substância vasoconstritora e isso vai parar na corrente sanguínea.

– Esse assunto nunca foi estudado, mas a gente sabe que, se a pessoa usar demais, pode desenvolver pressão alta, taquicardia – enumera o especialista.

Márcio Nakanishi, otorrino do Hospital Universitário de Brasília e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, ressalta que é importante saber por que o nariz está entupido.

– A primeira orientação é buscar a causa da obstrução nasal. Os descongestionantes são paliativos, é preciso saber o que a pessoa tem de parar e entrar com a medicação adequada – reforça Márcio.

Recaída
A contadora Christiani Mussi, 33 anos, bem que tentou seguir essa recomendação. Usuária dos descongestionantes desde o começo da adolescência, Christiani chegou a ficar um ano longe das gotinhas.

– Mas aí eu tive uma gripe durante a gravidez. Não podia tomar nenhum remédio e minha médica acabou liberando um descongestionante infantil para aliviar o mal-estar. Desde então, não consigo ficar sem – conta.

A contadora sempre sofreu com a obstrução nasal. No começo, era por conta do desvio de septo. Mesmo após fazer a cirurgia, Christiani não conseguiu abandonar os descongestionantes.

– Tinha sinusite, rinite, cheguei ao ponto de aplicar as gotinhas de duas em duas horas – lembra ela.

O otorrino Olavo Mion explica que a vasodilatação nasal ocorre como uma defesa do organismo contra infecções ou inflamações.

– O vaso incha para tentar matar os germes que estão causando a doença. Na rinite alérgica, há esse mesmo processo, só que, nesse caso, o organismo reage a coisas como o pólen e a poeira – detalha.

Em todas as situações, o médico pode receitar descongestionantes orais ou tópicos ? caso das gotinhas. A vantagem do líquido aplicado diretamente na narina é que ele age sobre o músculo, fazendo o vaso desinchar. Olavo esclarece que o descongestionante tópico tem ação alfa-adrenérgica, que simula o efeito da adrenalina no corpo, desobstruindo as vias orais e dando uma sensação de bem-estar instantânea. Mas, ao repetir esse mecanismo diversas vezes, a musculatura começa a não funcionar mais como deveria e o usuário precisa usar cada vez mais gotinhas para manter o conforto nasal.

Dependência
O auxiliar de educação Reinaldo Lopes de Lima, 28 anos, assume o vício.

– Já tentei parar algumas vezes, mas é muito difícil, especialmente quando tenho crises de rinite alérgica – diz.

Reinaldo leva o líquido a qualquer lugar que vai e já chegou a ter duas embalagens do remédio para garantir que não iria passar por nenhum aperto.

– Às vezes, o nariz nem está completamente obstruído, mas aplico as gotinhas para manter as vias aéreas totalmente abertas – conta o rapaz.

Deixar o remédio de lado, dizem os especialistas, demanda vontade e disciplina dos usuários.

– As primeiras noites são terríveis, mas chega uma hora em que o organismo volta a funcionar normalmente – afirma a contadora Christiani Mussi.

O otorrino Olavo Mion explica que cada pessoa tem uma forma de se “livrar” do remédio. Alguns usuários preferem fazê-lo de uma vez, outros vão eliminando o uso do descongestionante aos poucos. Uma alternativa é diluir metade da embalagem do líquido em soro fisiológico para reduzir a potência do vasoconstritor.

Há também tratamentos alternativos, como o uso de fitas adesivas sobre o nariz para aumentar a entrada de ar.

– As narinas funcionam como uma válvula, elas são mais estreitas do que a fossa nasal como um todo. Com esse acessório, a válvula fica maior. Mas isso é um paliativo; dentro do nariz o inchaço dos vasos continua o mesmo – esclarece o especialista.

Em alguns casos, o problema só é resolvido com cirurgia para retirar o excesso de muco acumulado durante os anos de uso do descongestionante.

A perigosa cultura da automedicação

Embalagens contendo mais informações quanto aos perigos da dependência das gotinhas seria uma forma de tratar o tema com um viés educativo, segundo Mion. “O erro é maior de quem compra do que de quem vende e isso é ainda mais forte no Brasil, que tem uma cultura expressiva de automedicação. Mas é importante dar o máximo de informação ao usuário”, opina o especialista.

Segundo especialistas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é bom lembrar que os descongestionantes que contêm substâncias vasoconstritoras só podem ser vendidos em farmácias e drogarias com receita médica.

Em abril deste ano, a Anvisa verificou que algumas marcas estavam sendo comercializadas de forma irregular, .

– Medicamentos à base de nafazolina (substância vasoconstritora) só podem ser consumidos com orientação de um médico. Apreendemos os produtos até que a empresa adequasse a venda – observa Flávia Neves, chefe substituta da Unidade Técnica da Anvisa. (CV)

a. (CV)

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna