Especialistas interpretam o mundo de quem convive com a dislexia

Transtorno da fala e da escrita atinge cerca de 15 milhões de brasileiros

Pais devem encontrar recursos diferenciados para incentivar as crianças
Pais devem encontrar recursos diferenciados para incentivar as crianças Foto: Stock Photos, Divulgação

Desde os 4 anos de idade, o pequeno Kenzo Lima, hoje com 10, apresentava algumas dificuldades que preocupavam sua família. A fala do menino era confusa e quando ele ingressou na escola não conseguia identificar as letras. O servidor público Hiroshi Plácido, 39 anos, teve a certeza de que algo realmente estava errado quando notou que o filho se isolava cada dia mais.

– Ele também não tinha êxito na escrita e passou a evitar a escola, chorava e pedia para não ir. Buscamos ajuda especializada para entender o que se passava. O diagnóstico não deixou dúvida: Kenzo sofria de dislexia. Foi um grande susto porque não sabíamos do que se tratava e não tínhamos a mínima ideia de como ajudá-lo a superar os entraves que atrapalhavam seu desenvolvimento – relata Hiroshi.

A dislexia é uma dificuldade na leitura, escrita e soletração de palavras, frases e textos que pode comprometer seriamente a evolução escolar de crianças acometidas pelo distúrbio (veja infografia). Normalmente, o disléxico tem atraso na aquisição da linguagem, é propenso a trocar letras na hora de falar, apresenta dificuldades em assimilar as cores, números em sequência e memorização de músicas. A aversão a livros e a tudo relacionado à escrita é inevitável, pois, para os disléxicos, essa representação da linguagem nada mais é do que uma grande sopa de letrinhas.

A fonoaudióloga Alice Sumihara explica que o transtorno pode ser diagnosticado somente depois da alfabetização. Para confirmar um caso de dislexia é preciso uma investigação criteriosa realizada por uma equipe multidiciplinar composta por psicólogo, psicopedagogo e fonoaudiólogo. O diagnóstico é fechado depois da exclusão de outros fatores, como deficit intelectual, disfunções ou deficiências auditivas e visuais, lesões cerebrais congênitas ou adquiridas e desordens afetivas anteriores ao processo de fracasso escolar. No Brasil existem, em média, 15 milhões de crianças e jovens com dislexia.

Não existe um padrão, mas as vítimas desse distúrbio geralmente são excelentes em artes plásticas, música, matemática. O nível de inteligência é, no mínimo, na mesma média apresentada pela população em geral. “Albert Einstein, físico alemão que propôs a teoria da relatividade e conquistou o Prêmio Nobel de Física em 1921, era disléxico. Em anos de experiência, nunca avaliei um disléxico que não tivesse uma inteligência superior”, garante Alice Sumihara, que também é psicóloga.

Autoestima
A dislexia pode variar de leve à severa.

– Em casos raros, a pessoa jamais conseguirá ser alfabetizada. Já nas situações em que ela se apresenta de forma moderada ou leve, desde que acompanhados e tratados, os disléxicos conseguem desenvolver mecanismos para driblar as dificuldades e levar uma vida acadêmica normal. Muitos se formam e são profissionais extremamente bem-sucedidos – garante.

Independentemente do grau em que se apresenta, a dislexia sempre abala a criança psicologicamente.

– É tudo muito confuso para a vítima desse transtorno. Os disléxicos têm baixa autoestima, julgam que são incapazes e fogem de tudo relacionado à escrita. Ao mesmo tempo, eles desenvolvem outras habilidades muito bem e entram em conflito por conta disso – explica a psicóloga infantil Vânia Jughartha Bonna.

Eles precisam de muita atenção

A ciência pouco sabe sobre a dislexia. Por enquanto, estudos evidenciam que o problema é hereditário, mas nada foi comprovado sobre alterações fisiológicas no cérebro dessas pessoas.

– Na verdade, o caminho percorrido para a decodificação do processo de leitura no cérebro é que é diferente para os disléxicos – completa Vânia.

Não existem ainda exames específicos que detectam o problema, o que contribui para a demora em fechar o diagnóstico.

A dislexia não é uma doença, mas precisa ser tratada por profissionais especializados na área. Alice observa que de 10% a 17% da população têm esse distúrbio.

– Em uma classe de 30 alunos, pelo menos três apresentam algum grau de dislexia. Já vi casos de alunos de 15 anos que ainda estão no 2º ano do ensino fundamental – lamenta.

O tratamento é individualizado e a avaliação bem feita é que orientará os exercícios que facilitam a leitura, a escrita e o entendimento.

– Especialistas no problema apresentam ferramentas que auxiliam a criança a encontrar o caminho para seu desenvolvimento acadêmico – completa Vânia.

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