Estrela maior: saiba como foi a passagem de Liza Minelli em Florianópolis na década de 70

Show woman passou o Carnaval na Capital a convite do amigo e músico Luiz Henrique Rosa

Liza Minelli estrelou o filme 'Cabaret' em 1972
Liza Minelli estrelou o filme 'Cabaret' em 1972 Foto: divulgação

A show woman Liza Minelli foi a primeira estrela internacional a escolher Florianópolis como local para passar as férias. Em fevereiro de 1979, convidada pelo músico catarinense Luiz Henrique Rosa, a oscarizada atriz de Cabaret passou seis dias na Ilha, após a realização de shows no eixo Rio-São Paulo. Provou pratos típicos, passeou pelas praias e curtiu o nosso Carnaval. Ainda hoje há quem não esqueça a agitação que a vinda de Liza causou por aqui. Ela inaugurou uma nova era. Floripa, até então reduto de manezinhos, abriu-se para o mundo.

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:: A chegada

Chovia torrencialmente em Florianópolis naquele dia 23 de fevereiro de 1979, véspera de Carnaval. A cidade estava um caos. O trânsito, parado (nisso, a cidade não mudou). No aeroporto, pessoas que queriam sair da cidade para o feriadão e turistas que chegavam para a folia lotavam o saguão. Vários voos atrasados em função do mau tempo.

Este cenário caótico serviu de pano de fundo para o desembarque de Liza Minelli à Ilha naquela tarde. A chegada da diva – que veio para descansar e conhecer as belezas da cidade, a convite do amigo Luiz Henrique Rosa, músico catarinense – era segredo. Mas o colunista Beto Stodieck, do jornal O Estado, conseguiu a informação e colocou em sua coluna. Foi o que bastou. Quando o jatinho que trouxe Liza aterrissou na pista encharcada do Aeroporto Hercílio Luz, às 16h45min, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas se acotovelaram para ter a melhor visão. Afinal, Floripa não estava acostumada (ainda) a receber a atenção de gente tão importante. A estrela não quis falar com a imprensa, mas mandou dizer que talvez concedesse uma entrevista coletiva, mais adiante. Primeiro, queria descansar na companhia dos amigos.

:: O namorado playboy

O escritor Sérgio da Costa Ramos era editor do Jornal da Semana naquele tempo, e lembra bem do dia em que Liza Minelli chegou. Ela tinha 32 anos, vestia calças vermelhas, camiseta azul e boné branco. Mais simples, impossível.

O que chamava a atenção era a pele muito branca e a baixa estatura: apenas 1m56cm de altura. Definitivamente, não era um mulherão. No palco, porém, transformava-se na maior estrela do show business mundial.

Aterrissou em Floripa depois de duas semanas de apresentações do show Liza in Concert entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Desceu do jatinho, que pertencia ao empresário Realdo Guglielmi, sob forte chuva. Apesar dos convites insistentes dos políticos e carnavalescos da época, não quis ficar no Rio para o Carnaval (que havia conhecido em 1974, em outra visita ao Brasil). Preferia mesmo descansar na Ilha, tão elogiada pelo músico catarinenser Luiz Henrique Rosa.

Desceu do avião acompanhada do amigo e também do namorado Mark Gero (seu terceiro marido), um playboy italiano filho de um milionário produtor da Broadway.

Do pátio até o saguão do aeroporto, foram de Kombi. Do lado de fora do Hercílio Luz, um Galaxie esperava Liza Minelli e seus amigos. Eles seguiram para o interior da Ilha. O local era para ser segredo, mas o sossego durou pouco.

:: O esconderijo

A imprensa, claro, descobriu o esconderijo: um chalé na encosta de um morro na Praia do Cacupé, de propriedade do construtor Armando Gonzaga. A privacidade da estrela estava garantida pelo mato, em volta, e pelo mar, na frente. Nada disso foi empecilho para a imprensa. O fotógrafo Sérgio Rosário, do jornal O Estado, conseguiu chegar de barco até perto do chalé e fez várias fotos de Liza Minelli de maiô preto, com o namorado e amigos, no deque da casa. Ela limitou-se a enrolar uma toalha branca na cintura e continuou a admirar a paisagem. No dia seguinte, uma sequência de fotos da diva, bem à vontade, estamparia uma página do jornal.

Vinte e cinco anos depois, o mesmo expediente – fazer campana de barco, a partir do mar, para conseguir fotos não autorizadas de uma estrela – seria usado pelos jornais catarinenses para retratar o descanso de outra diva mundial: a modelo gaúcha Gisele Bündchen, que passou a virada de 2004 para 2005 em uma casa emprestada pelo tenista Guga Kuerten.

Durante sua estada em Floripa, Liza em nada lembrava a grande estrela do cinema e dos musicais hollywoodianos. Passava os dias de jeans e havaianas. Comia feijão com arroz, banana, farofa e camarão ao bafo. De sobremesa, abacate e mamão papaia. Bebia Coca-Cola e uísque, ou, às vezes, os dois juntos. Fumava Marlboro.

A estrela conheceu a Lagoa da Conceição, a Praia Mole, passeou de barco até Canavieiras e visitou o centro da cidade. A manhã da Quarta-feira de Cinzas flagrou Liza em pleno Mercado Público, passeando entre as bancas, com Luiz Henrique Rosa e Mark Gero. Os grandes olhos negros atentos a tudo. “De sandálias havaianas, que não tirou desde que pisou em Floripa, e metida num jeans absolutamente comum, podia ser confundida como mais uma “sobrevivente” do baile do Lira ou do Clube Doze”, escreveu na época Sérgio da Costa Ramos.

:: O Carnaval

Liza Minelli e sua trupe acompanharam o desfile das escolas de samba no Aterro da Baía Sul. “Este Carnaval é mais natural e menos comercial do que o do Rio de Janeiro”, ela comentou. Quando a estrela chegou, começava o desfile da Copa Lord. O palanque estava lotado. Liza Minelli e os amigos aceitaram, então, o convite para assistir à apresentação do alto do caminhão de externas da TV Coligadas. Naquela época, o jornalista Marcelo Rech, hoje diretor-geral de produto do Grupo RBS, era repórter desta emissora. Em uma foto, encontrada em seus arquivos, Rech está sentado atrás da estrela e do namorado dela, ao lado do também jornalista Vânio Bossle.

? Naquele Carnaval, de certa forma, Liza Minelli inaugurou o desfile de celebridades internacionais no qual viria a se transformar o verão da Ilha quase três décadas depois. Como era uma cidade muito menor e mais provinciana, o tititi foi imenso ?  relembra Rech.

Quando anunciado pelo sistema de alto-falantes de que estava presente ao desfile das escolas de samba, Liza não foi muito aplaudida, escreveu Beto Stodieck na coluna no O Estado. Ela não deu importância ao fato.

? Eu não estava lá para ser ovacionada, mas sim para assistir e aplaudir ao desfile ?justificou. Segundo notinha apimentada do colunista, ela foi menos aplaudida do que a Mamãe Dolores, que apresentava um programa na Rede Tupi.

Muitas outras celebridades nacionais também vieram, naquele ano, conhecer o Carnaval de Floripa: Tereza Raquel, Stepan Nercessian, John Herbert, Moacir Franco e Carlos Imperial.

O país vivia uma época de mudanças. Um mês depois da vinda de Liza Minelli, o presidente da República Ernesto Geisel passava o cargo para o presidente João Baptista Figueiredo, e iniciava-se um lento e progressivo processo de redemocratização no Brasil, depois de 15 anos de ditadura. Na música, faziam sucesso artistas se firmaram durante os Anos de Chumbo, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

:: A coletiva

No último dia da visita, Liza Minelli cumpriu a promessa e concedeu uma entrevista coletiva à imprensa, no saguão do jornal O Estado, com a presença dos jornais, rádios e TVs da época, além de muitos curiosos e fãs. O jornalista Mário Medaglia era um deles. Trabalhava como editor de esportes, mas não resistiu à tentação de ver a musa frente a frente. Sentou perto de Liza, no sofá, mas não abriu a boca durante toda a entrevista. Ou melhor, não fechou a boca.

? Fiquei ali extasiado, embevecido, vendo a minha musa. Ela não era bonita, mas tinha um charme irresistível ? conta. Hoje, se arrepende de não ter aproveitado a chance para trocar algumas palavras com a estrela.

Para o colunista Cacau Menezes, o momento também foi marcante. Na época, ele fazia programa de rádio, festas, shows, campeonatos de surfe e tinha um jornalzinho underground chamado Rock, Surfe e Brotos. Era amigo de Luiz Henrique Rosa, que o apresentou a Liza.

? Ela me olhou, estendeu a mão, deu um baita sorriso. E, durante a entrevista, me olhou, sorriu e piscou algumas vezes, supercarinhosa ?  relembra.

Liza apareceu na coletiva trajando “um elegante pijama de jersey nas cores do arco-íris e sapatos vermelhos”, contou o colunista Beto Stodieck. Ganhou uma caixa de bordados da fábrica de rendas Hoepcke. “They are beautiful”, agradeceu. Questionada quanto à amizade com Fernando Henrique Rosa (havia rumores de que eles tinham um affair) disse que era apenas uma amizade antiga e sincera.

A estrela mostrou que tinha aprendido algumas gírias brasileiras: “manda brasa”, “barra limpa” e “tá ruço”, ditas com forte sotaque americano. Surgiu um boato na Ilha de que Liza teria comprado a praia inteira da Galheta. Ela desmentiu e disse que não tinha interesse em adquirir terras no Brasil.

Dia seguinte, 1º de março, a diva voltou para o Rio de Janeiro e, de lá, seguiu com o namorado para os Estados Unidos. A casa onde Liza Minelli e os amigos ficaram hospedados estava à venda. O imóvel, disse na época Beto Stodieck, deve ter valorizado muito depois da passagem de Liza por aqui, ainda mais que ela deixou gravado em uma das paredes um agradecimento pela hospitalidade recebida.

A presença de Liza Minelli foi o maior acontecimento da cidade, diz Cacau Menezes. O Luiz Henrique era idolatrado pelo ilhéu, e quando trouxe a Liza, parou Florianópolis. Só se falava nisso.

? Jatinho, casa na praia, som na rede, Carnaval na Paulo Fontes, jantares, fotos em jornais, passeios de barco, repercussão na mídia nacional… Aquele momento nos encheu de orgulho – lembra Cacau.

O amigo catarinense

Violonista, cantor, compositor e arranjador, Luiz Henrique Rosa nasceu em Tubarão, morou em São José e depois em Florianópolis, onde rapidamente se integrou ao ambiente musical, tocando em bares e bailes. Tornou-se um dos mais importantes músicos de Santa Catarina. Partiu para o Rio de Janeiro em busca de novos desafios, na efervescência da bossa nova. De alma inquieta, decidiu ir mais além e mudou-se para Nova York em 1964. Lá fez amizade com vários artistas importantes, entre eles Liza Minelli.

A professora Dete Piazza, vizinha e amiga da família de Luiz Henrique na infância e juventude, lembra que a casa dele era muito musical e ponto de encontro dos artistas da época. Entre as qualidades do músico, destaca a simplicidade.

? Ele era tão simples que não se valeu da amizade com uma estrela como Liza Minelli para se promover. Preferiu voltar para Florianópolis, apesar do sucesso nos Estados Unidos.

Luiz Henrique Rosa morreu em um acidente de carro, ao sair do Armazém Vieira, na Capital, dois meses antes de completar 47 anos, em 1985.

Jornalista e crítico de música e cinema, Aramis Millarch, do Estado do Paraná, publicou em 1975 matéria informando que Luiz Henrique estaria montando em Florianópolis um dos mais sofisticados laboratórios de som do país, com a ajuda financeira de Liza Minelli. Dizia também que não seria surpresa se a própria Liza viesse inaugurar o estúdio de som. Isso não aconteceu. Mas a grande estrela de Hollywood veio mesmo a Florianópolis, quatro anos depois, mas para descansar.

Em agosto de 2007 foi lançado na Capital o documentário de Ieda Beck Luiz Henrique – no Balanço do Mar. O filme resgata a memória do músico. Entre os depoimentos, está o de Liza Minelli. Neste mesmo ano a estrela voltou ao Brasil. Desta vez, para ser ovacionada pelo público.

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