Estudo liga pesticidas e outros produtos químicos a câncer de mama em jovens

Foto: Adriana Franciosi

O aumento de casos de câncer de mama em mulheres com menos de 50 anos vem intrigando oncologistas. No Brasil, 30% dos casos são diagnosticados antes desta idade. No México, o número sobe para a metade. A preocupação é tanta que o tema foi destaque no simpósio “Câncer de mama e países em desenvolvimento”, realizado no início do mês em Boston, nos Estados Unidos.

O que preocupa especialistas é que essas mulheres, além de não terem um histórico familiar da doença, muitas vezes também não apresentam outros fatores de risco como o sedentarismo, a maternidade tardia e a má alimentação. O fenômeno acontece principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil, o México e a China, reforçando a ligação entre câncer e fatores ambientais.

Uma pesquisa coordenada pelo epidemiologista Sergio Koifman, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, aponta para uma possível associação entre pesticidas e o câncer de mama em mulheres jovens sem histórico da doença.

– A discussão sobre pesticidas e câncer não é nova, é um tema controvertido que vem sendo debatido há muitos anos. Alguns estudos comprovam, outros não deixam claro se existe este impacto na saúde. Mas temos que tentar entender por que o câncer de mama, uma doença da mulher mais velha, está aparecendo em jovens – explica Koifman, pesquisador do Programa de Oncobiologia da UFRJ.

Pesticidas agem como hormônios

Segundo ele, alguns pesticidas e inseticidas muito usados no Brasil até os anos 90 podem ter uma substância química muito parecida com os hormônios esteroides encontrados no corpo. Moléculas como as do diclorodifeniltricloretano (DDT), pesticidas usado em lavouras e no combate a mosquitos; e o hexaclorociclohexano (HCH), inseticida conhecido como pó-de-broca; podem ter relação com uma série de doenças, entre elas leucemia, câncer da tireoide, mal de Parkinson e a má formação fetal.

O pesticida e o inseticida foram proibidos para uso agrícola no Brasil em 1985. Em maio deste ano, a fabricação, a exportação, a manutenção em estoque e a comercialização do DDT foi proibida em todo território nacional. Já o HCH ainda é usado no controle de pragas.

No Brasil, Koifman alerta que vem sendo observado um aumento na incidência de casos da doença em mulheres com menos de 40 anos sem história de agregação familiar de câncer de mama ou ovário. O médico avaliou 250 pacientes com menos de 36 anos diagnosticadas com a doença no Instituto Nacional do Câncer (Inca) e um número semelhante de jovens controles sem antecedentes pessoais de câncer.

Eliminando outros fatores de risco, foi possível chegar à conclusão que mulheres expostas aos pesticidas domésticos na infância ou na juventude corriam um risco 5,5 vezes maior de desenvolver este tipo de tumor.

A explicação, segundo Koifman, é que, no contato prologando com a substância, nossas células acabam percebendo estas moléculas como um outro hormônio e desencadeiam uma série de ações que podem desequilibrar o organismo e levam a doenças.

– A gama de efeitos dos pesticidas é muito amplo. Eles podem ter um efeito estrogênico, o mesmo efeito danoso que alguns tipos de plástico, como o bisfenol-A (BPA) e as resinas. Isto pode causar alterações hormonais ou celulares que deixam o organismo mais suscetível a disfunções.

Como os pesticidas são considerados um risco invisível, a recomendação de Koifman é tentar minimizar a exposição a substâncias químicas no dia a dia. O cuidado deve ser maior na gravidez e na lactação, já que as substâncias se acumulam no tecido adiposo e no leite materno e podem causar uma série de danos no bebê.

Para a oncologista Lizbeth Carrillo-López, pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Saúde Pú$do México, ainda é cedo determinar se agressores externos são responsáveis por estes tumores, mas nem por isso eles devem ser ignorados.

– Muitas mulheres na América Latina não se encaixam no grupo de risco, mas desenvolvem a doença. Temos que pensar em todas as possibilidades para entender como podemos salvar mais vidas.

A repórter viajou a convite da American Cancer Society

Leia mais
Comente

Hot no Donna