Ex-Miss Universo Ieda Maria Vargas Athanásio supera doença grave e renasce para uma nova vida

Gaúcha comemora no ano que vem os 50 anos de seu título de Miss Universo

Foto: Adriana Franciosi

Ieda Maria Vargas vive às vésperas de uma data histórica. Em julho do ano que vem, completam-se 50 anos de sua coroação como Miss Universo. Ingredientes de um best-seller compõem a trajetória desta porto-alegrense de 67 anos.

Se uma biografia fosse escrita, a primeira parte poderia incluir o reinado de mulher mais bonita do mundo – o que a levou a radicar-se nos Estados Unidos, a visitar 21 países, a ser reverenciada por duas dezenas de povos e receber convite para estrelar um filme em Hollywood.

Carreira cinematográfica internacional, no entanto, nunca esteve nos seus planos. Voltar para Porto Alegre, casar-se e ter filhos, sim. Por isso, nesta primeira parte da biografia, também poderia constar o casamento com o empresário José Carlos Athanásio em uma majestosa cerimônia realizada na Igreja São José, em 1968, o acréscimo do sobrenome do marido ao seu, o nascimento dos filhos, Rafael, 41 anos, e Fernanda, 38, e a chegada dos netos, Enzo, 10 anos, e Carmela, quatro.

A primeira parte da biografia de Ieda poderia terminar refletindo sobre a importante referência que ela se tornou para a sociedade gaúcha e para as mulheres em geral.
Poderia descrever sua rotina como apresentadora de tevê, representante de grifes internacionais, professora de etiqueta, além da temporada de cinco anos de trabalho na Galeria Bolsa de Arte, da expertise à frente de uma fábrica de camisas femininas e da desenvoltura com que circulou nas mais altas rodas da sociedade brasileira, levando-a a ser incluída entre os gaúchos que marcaram o século 20, ao lado de nomes como Mario Quintana, Elis Regina, João Goulart, Getúlio Vargas, Lya Luft e Erico Verissimo.

Se uma biografia fosse escrita, a segunda parte da vida de Ieda Maria Vargas Athanásio poderia começar nas primeiras horas do dia 11 de setembro de 2000, no quarto da mansão onde ela morava com a família, na Rua Jaraguá, no bairro Bela Vista.
Como acontecia todas as manhãs, José Carlos Athanásio levantou-se, vestiu-se e desceu as escadas para o desjejum antes de sair para o trabalho. Deixou a mulher no quarto, dormindo, à espera da funcionária do casal, que cumpria à risca a rotina de despertar Ieda com a bandeja de café-da-manhã na cama. E ela manteve o ritual. Preparou a taça de café com leite, as fatias de pão integral com manteiga e bateu na porta. Mas Ieda não acordou. De volta para o almoço, José Carlos estranhou a ausência da esposa. Perguntou por ela.

– Dona Ieda ainda não levantou – respondeu a funcionária.

Aos 55 anos, Ieda havia sido vítima de um acidente vascular encefálico isquêmico, que paralisou o lado esquerdo do seu corpo e atingiu a região fronto-temporal do cérebro, prejudicando a área de compreensão e expressão da linguagem. Perdeu a memória. Súbito, não sabia quem era, não sabia onde estava, não reconhecia ninguém.

– Ieda perdeu a noção do mundo, não reconhecia os próprios filhos – lembra a amiga Sheila Baron.

– Durante um ano e meio, não falei e não reconheci ninguém – recorda Ieda. – Sentia uma tristeza profunda. Fiquei perdida no escuro.
 
Dez anos se passaram desde aquela manhã de setembro em que Ieda despertou na escuridão.

Se uma biografia autorizada de Ieda Maria Vargas Athanásio fosse escrita, o novo e atual capítulo deveria começar em setembro de 2010 e teria Gramado como cenário. Após a morte do marido, em março de 2009, vítima de câncer, ela ainda tentou manter residência fixa na Capital, mas sucumbiu à tristeza e à solidão.

– Estava deprimida, me sentia dependente, insegura – conta. – Foi muito difícil deixar minhas amigas e meus filhos em Porto Alegre, mas eu precisava cuidar de mim, precisava recuperar minha autonomia e independência. Esta mudança foi a decisão mais acertada que tomei.

Proprietária de um apartamento no bairro Planalto, logo na entrada da cidade, é lá que mora sozinha no lar que ela mesma decorou, repleto de gravuras surrealistas e de quadros de Bianchetti, Roberto Feitosa e Pietrina Checcacci, entre outras assinaturas ilustres. O troféu de Miss Universo também está lá. Repousa em um recanto da sala.
Amiga há mais de 50 anos de Ieda, Marta Médici concorda com a mudança para a Serra.

– Ieda foi muito feliz nesta decisão – analisa. – É uma pessoa querida na cidade, acolhida por todos. As pessoas param Ieda na rua para celebrar sua presença, ela é festejada onde quer que vá. A vida em Gramado é mais saudável e está de acordo com este momento da vida dela.

O momento inclui sessões de fisioterapia para corrigir um problema no joelho e serve também como reeducação postural –  embora Ieda mantenha intacta a altivez
de miss.

O momento inclui, sobretudo, duas sessões semanais de fonoaudiologia com Aline Perobelli, que há sete meses dedica-se a melhorar a expressão linguística da paciente e percebe uma recuperação gradativa em sua capacidade de comunicação. Explicando de forma leiga, o que Ieda esforça-se para reconquistar é a capacidade de terminar certas frases, já que a lesão provocou danos em sua memória, o que a impede de lembrar os nomes das coisas.

– Ela já está com um discurso bem mais elaborado – comemora Aline. – A dificuldade que tem ainda é de nomeação e da memória recente, mas Ieda é uma pessoa extremamente comunicativa, o que ajuda muito.

Seria natural que, com a dificuldade de expressão, Ieda se transformasse em uma pessoa mais caseira, mais reclusa.  Ela trilhou caminho inverso. Não deixa de sair, de passear, de se divertir. A rotina começa às 9h, quando desperta para tomar o café da manhã e ouvir as notícias do rádio e da tevê. Prepara sua taça de café passado, duas fatias de pão sete grãos com manteiga, coloca a casa em ordem, toma banho e sai para a caminhada de uma hora diária pelas ruas do bairro.

Emenda o exercício com o almoço sempre em um dos dois restaurantes preferidos, onde possui cadeira cativa: o Divino, ao lado do Cine Embaixador, na rua principal, e o Bistrot Brillat, na rua coberta.

O cardápio não varia. No Bistrot, ela adora o risoto de camarão; no Divino, delicia-se com o bufê de saladas e grelhados. Tem paixão por salmão e nunca come sobremesa. Substitui o doce pelo cappuccino com chantilly do Café Clericot Dègouster, na Rua Borges de Medeiros, próximo à Praça do Moinho. Quando o clima está propício, adora sentar-se em uma das mesinhas da calçada, ao sol. Nos finais de semana, é lá que curte o happy hour com as amigas, regado a espumante acompanhado de bruschettas de tomate seco, mozzarella de búfala e manjericão.

É tão querida pelo proprietário do café, o empresário Márcio Braga, que ganhou uma homenagem impressa no menu: uma foto sua acompanhada de uma breve biografia que descreve o “cronograma de uma miss”.

Márcio atua como um verdadeiro guardião de Ieda, quase um anjo da guarda. Ao primeiro sinal de atraso da cliente famosa, telefona para saber onde ela está e se pretende demorar. Cumpre, ainda, um papel fundamental no processo de recuperação da amiga:

– Tem momentos em que ela quer lembrar de uma determinada palavra e me pede cola – conta. – Mas acho importante que se esforce e faça este exercício de memória.

Ieda aprecia a didática aplicada por Márcio, mas também gosta de receber a tal cola de vez em quando.

– Tem vezes em que a tentativa de lembrar de algo se torna muito angustiante para mim, então, prefiro que me ajudem – esclarece.

O nome de Ieda é onipresente na lista das celebridades VIPs da cidade, e ela não perde um único programa:coquetéis, inaugurações, lançamentos, festas, recepções, convescotes. Está sempre pronta e faceira para a vida em sociedade. Nos sábados de agenda livre, organiza com as amigas uma viagem de aproximadamente 30 quilômetros até o pub Liverpool, em Três Coroas, onde gosta de dançar.

– A dança tem um efeito terapêutico sobre mim – ela diz, emocionada. – Me traz alegria, disposição, me faz sentir viva.

Em Gramado, o endereço para extravasar é o Bill Bar e o Boteco do Bill.

– Não preciso de ninguém para dançar e gosto de todo tipo de música – diverte-se. – Ficar em casa vendo novela eu não fico. Gosto de estar na rua.

E está sempre impecável. Os óculos de grau com armações coloridas são sua marca registrada. O lenço no pescoço também.

– Ela é extremamente vaidosa e elegante – atesta a fonoaudióloga Aline Perobelli. -Nunca recebi Ieda nas consultas sem estar com tudo combinando, inclusive os óculos com a roupa.

– Ieda sempre teve um temperamento fantástico – conta a amiga Marta Médici. – Sempre alegre, espirituosa, engraçadíssima. Mesmo hoje em dia, com a falta de vocabulário que enfrenta, permanece com esse espírito maravilhoso.

– É uma pessoa alegre, cheia de vida e dona de um astral incomum – concorda Sheila Baron, contemporânea de Marta na amizade de mais de 50 anos com Ieda.
 
Ieda é uma mulher extremamente emotiva e sincera. Passa com facilidade do riso às lágrimas. Expressa-se com os olhos. No momento, eles dizem que ela vive um bom período, uma calmaria, passada a tempestade.

Uma médica que avaliou seu exame logo após o AVC contou ter ficado abismada com o tamanho da lesão.

– Qualquer médico que tenha visto a tomografia não entende como é que ela fala – confidenciou, na época.

Fernanda Athanásio, a filha caçula, endossa a lembrança:

– Nós, que estivemos muito próximos nos momentos difíceis, vimos o quanto minha mãe esteve mal, a ponto de os médicos acharem que não sobreviveria.

A força interior de Ieda, sua capacidade de superação, de transformação e o otimismo com que encara a vida são a melhor resposta para a superação.

– Sou uma pessoa extremamente positiva. Gosto da vida e acredito que é preciso aceitar de coração aberto o que ela nos oferece, gostando ou não.

– A mãe sempre teve esse jeito alto-astral, sempre valorizou a vida – analisa Fernanda. – Depois deste episódio, isso se tornou uma característica ainda mais forte da personalidade dela. Sabe a impressão que eu tenho? Que ela voltou ainda mais inteira, mais forte, mais apaixonada.

– Dentro das circunstâncias e de tudo o que aconteceu, pode-se afirmar sem ressalvas: Ieda deu a volta por cima – comemora a amiga Sheila Baron.

O estímulo da família e dos amigos mais chegados foi fundamental durante todo o tratamento, que teve início em 2004.  Na época, Ieda foi confiada à fonoaudióloga Deborah Levy, especialista em reabilitação da linguagem e deglutição.
Lembra Deborah:

– Ieda falava muito pouco, ficava travada porque não encontrava as palavras. A compreensão estava prejudicada, mas a expressão estava muito mais. Foi um período em que ela ficou praticamente alheia ao mundo.

A terapia e os estímulos do ambiente externo, aliados ao desejo de retomar a vida normal, contribuíram para sua recuperação. Algumas sessões eram feitas em cafés e restaurantes da Capital para forçá-la a enfrentar situações triviais do cotidiano. Deborah também trabalhava a interpretação de notícias publicadas em jornais e revistas.

– Iniciamos com sessões duas vezes por semana, e Ieda rapidamente respondeu ao tratamento. Sempre teve muita vontade de melhorar – conta.

Como todos os que se aproximam de Ieda, Deborah não resistiu aos encantos da paciente.

– Foi um prazer poder tratá-la. Ieda é maravilhosa, cativante e emotiva. Uma mulher muito simples, muito querida e dona de sentimentos nobres.

São valores que nasceram com ela. Ieda sempre foi uma irmã generosa, uma filha irrepreensível, de amor incondicional.  O episódio mais notório desta paixão remonta à sua coroação como Miss Universo, em 20 de julho de 1963, em Miami, nos Estados Unidos. Eleita a mulher mais bonita do mundo, interrompeu o desfile ao vislumbrar a figura do pai apoiado embaixo da passarela. Ajoelhou-se e beijou seu rosto.

– Ela quebrou o protocolo – lembra a amiga Marta Médici – , tamanho o amor que tinha por aqueles pais.

Foi uma adolescente tranquila e fumante inveterada. Vivia com um cigarro na mão.
O vício a acompanhou dos 16 aos 57 anos.  Assava um churrasco para as amigas em sua casa em Porto Alegre (“Fazia churrasco como muito homem não sabe fazer”, diverte-se Ieda) quando deu a última tragada, apagou a bituca no cinzeiro e disse em voz alta: “Não fumo mais”.

– E nunca mais fumei – lembra. – Vinte dias depois, me deu o troço – conta, referindo-se ao AVC.

No momento, reveza-se na leitura de dois livros, acomodados na cabeceira da cama: Doidas e Santas, de Martha Medeiros, e O Amanhã a Deus Pertence, de Zibia Gasparetto.

De Nossa Senhora Medianeira, que repousa no aparador próximo ao banheiro da suíte, recebe a bênção diária. Herdou a imagem do pai. Ieda tinha seis anos de idade quando ele fez uma promessa e foi atendido. Como agradecimento, construiu uma gruta para guardar a estátua da virgem. Antes de morrer, entregou-a à filha.

É em Nossa Senhora Medianeira que Ieda busca muitos de seus amparos. É para ela que repete todos os dias o mantra que a ajudou a renascer e a reaprender a viver:

– Acredita sempre em ti. Podes vencer, podes melhorar.

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