Ex-prostituta fala sobre adaptação de sua autobiografia para o cinema

Gabriela Leite, 59 anos, esteve em Porto Alegre e comentou sobre sua obra

Autobiografia de Gabriela Leite, fundadora da ONG Davida e da grife Daspu, vai virar filme
Autobiografia de Gabriela Leite, fundadora da ONG Davida e da grife Daspu, vai virar filme Foto: Tadeu Vilani

Em Porto Alegre para o 5º Encontro da Rede Brasileira de Prostitutas – o primeiro realizado fora do Rio de Janeiro -, a militante Gabriela Leite deu uma amostra da abrangência e do alcance de seu trabalho à frente da ONG Davida, promotora do evento, e da grife Daspu, originária dela.

Na mesma noite em que apresentou uma coleção da marca de roupas diante de uma multidão de curiosos na Casa de Cultura Mario Quintana, a ex-prostituta de 59 anos, candidata a deputada federal pelo PV do Rio, contou detalhes do projeto que transformará sua autobiografia, Filha, Mãe, Avó e Puta, em filme.

:: Saiba mais sobre a obra

Em entrevista a ZH, Gabriela comparou seu livro com o de outra ex-prostituta que também será levado ao cinema (O Doce Veneno do Escorpião, de Bruna Surfistinha). Ela, que já estivera na cidade na Feira do Livro, explicou a opção de só ceder os direitos autorais com a condição de aprovar o roteiro e, de um jeito simples, como diz, sem se “esconder atrás de eufemismos bonitos”, falou de seus atos em defesa da classe.

Zero Hora – Como se deu o processo de adaptação de sua biografia para o cinema?

Gabriela Leite – Vendi os direitos para um cineasta de São Paulo chamado Caco Souza e ele está preparando o roteiro. O projeto também está em fase de captação de recursos. Você sabe, os cineastas são todos uns duros e precisam captar. Mas já foi definida a atriz que vai interpretar a mim na juventude, a Vanessa Giácomo. Ainda não li a primeira sinopse – mas vou ler, porque isso está no contrato, eu tenho que aprovar a história. Não quero interferir muito no trabalho do artista, mas quero saber o que vai acontecer nesse período de dois anos que deve demorar para o filme estrear.

ZH – Outro filme em produção também é a biografia de uma ex-prostituta, Bruna Surfistinha, autora de O Doce Veneno do Escorpião. A senhora acredita que o público vai relacionar os dois projetos, em que pesem suas diferenças?

Gabriela – As pessoas podem fazer essa relação, já vi fazerem, inclusive. Mas são histórias muito diferentes. O livro da Bruna foca mais nas curiosidades que ela testemunhou, nas fantasias sexuais, e a minha história tem mais a ver com a minha trajetória dentro do movimento, da minha louca luta pela liberdade da mulher, pela liberdade do desejo. Sou uma pessoa que pensa na liberdade, no desejo, em seguir as palavras pelo que elas são e não me esconder atrás de eufemismos bonitos. Aprendi muito isso com Félix Guattari (filósofo francês).

ZH – A senhora comentou que tem, por contrato, o direito de aprovar a versão a ser filmada da história. Fez essa exigência para evitar a exploração de determinados aspectos, como o sexo?

Gabriela – Exato. Porque eu sei como é fácil você partir de uma coisa para outra. Às vezes não é nem por má intenção, mas pela própria ideia que as pessoas têm sobre a prostituição.

ZH – O que esse contrato diz sobre o título da biografia, Filha, Mãe, Avó e Puta? Ele deve ser preservado ou pode ser alterado?

Gabriela – O título pode ser alterado se o diretor quiser, embora ele esteja, por enquanto, aceitando o desafio de manter o mesmo nome. Mas isso vai depender muito da captação. De repente ele consegue um baita patrocínio, mas o investidor recua dizendo que não quer esse nome. E aí? Você sabe como se processam essas questões. Por isso não mencionamos no contrato essa história do título. Agora, não pode ser algo completamente descaracterizado.

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