Experts afirmam: ter filhos pode ajudar atletas a se superarem

Campeã do US Open, a tenista Kim Clijsters provou que ser mãe não é empecilho para conquistas esportivas

Kim Clijsters posa com o troféu do US Open e a filha, Jada, na quadra central do complexo de Flushing Meadows, em Nova York
Kim Clijsters posa com o troféu do US Open e a filha, Jada, na quadra central do complexo de Flushing Meadows, em Nova York Foto: Peter Foley, EFE

Com uma mão na taça de campeã do US Open e outra ao redor da cintura da filhinha Jada, Kim Clijsters entrou para o rol das Supermães dos nossos dias no último domingo. A belga está sendo merecidamente festejada pelo extraordinário feito esportivo, apenas dois anos após ter aberto mão do tênis profissional para construir uma família.

Clijsters é figura rara – a maioria das atletas de ponta não tem filhos –, mas está longe de ser única. Paula Radcliffe venceu a Maratona de Nova York em 2007 pouco mais de nove meses após dar à luz sua primeira filha, Isla. No mês passado, a golfista escocesa Catriona Matthew venceu o British Open feminino (sua primeira vitória em um grande torneio) somente 11 semanas depois do nascimento de sua segunda filha, Sophie. O time de futebol inglês para a final do Campeonato Europeu contava com Katie Chapman, mãe em tempo integral de duas crianças, e Darcey Bussell, talvez na mais exigente disciplina de todas, retornou a sua condição de primeira bailarina no Royal Ballet após ter duas filhas.

Para a maioria das mulheres que passou recentemente por uma gravidez, treinos físicos puxados são inimagináveis – todos os instintos parecem lhes dizer para sentar e tomar uma xícara de chá com outro pedaço de bolo. Mesmo assim, Radcliffe, que declarou em entrevista a um jornal que a atleta dentro dela não tinha gostado de estar grávida, estava fazendo jogging novamente 12 dias depois do nascimento de Isla e pouco depois já corria dia sim, dia não (apesar de ter pago o preço com uma pequena fratura na base da espinha, que a deixou de muletas).

Claro, a gravidez provoca mudanças físicas no corpo.

– A quantidade de sangue na circulação aumenta 50%, então a quantidade que o coração precisa bombar a cada batida aumenta em cerca de 40% – afirma o obstetra Patrick O’Brien, do University College Hospital, em Londres, e porta-voz da Royal College de Obstetrícia e Ginecologia. – Algumas pessoas defendem a teoria de que esse esforço extra do coração durante a gravidez pode seguir ajudando as mulheres no futuro. Mas se você acompanhar as mulheres após o parto, a maioria desses efeitos costuma voltar ao normal entre seis e oito semanas, e todos eles se normalizam completamente em até seis meses.

Isso põe em dúvida as teorias de que a gravidez pode realmente ajudar na performance de uma atleta. Antes da queda do Muro de Berlim, quando esportistas europeus homens e mulheres conquistavam todas as medalhas em meio a especulações sobre suas táticas de treinamento, dizia-se que as atletas chegavam a engravidar dos técnicos e depois eram obrigadas a realizar abortos, para conseguir os supostos benefícios dos primeiros meses de gravidez. Tais benefícios incluiriam não apenas uma melhor circulação sanguínea, mas também aumento nos níveis de hormônios do crescimento, substâncias proibidas para atletas por impulsionarem a performance.

Segundo O’Brien, é verdade que o corpo transborda de hormônios, especialmente estrogênio e progesterona, que “sustentam” a gravidez, mas a maioria dos efeitos disso desaparece com o parto da placenta que os produz. (Em parte, isso também é a causa de algumas mulheres passarem pela chamada “baby blues” nos primeiros dias após o parto.)

Se algumas atletas têm performances melhores após darem à luz, pode ser na verdade por elas não estarem treinando tão pesadamente. Quem fala é o Dr. David James, reitor adjunto na faculdade do esporte da Gloucester University, na Inglaterra:

– Provavelmente a maioria dos atletas exagera um pouco nos treinos. Quando outras prioridades aparecem e eles acabam necessariamente reduzindo um pouco os treinamentos, isso pode não ser totalmente uma má ideia.

E também podem haver contras para atletas que têm filhos. Durante a gravidez, os ligamentos e tendões ficam mais elásticos para permitir o parto, segundo explica Greg Whyte, professor de esporte aplicado e ciência do exercício na John Moores University, de Liverpool, que já foi diretor de pesquisas da Associação Olímpica Britânica.

– Para alguém que já é bastante flexível, isso pode ser um problema.

Mas a principal questão para atletas no pós-parto é a alimentação. Quem reduz a ingestão de calorias para tentar perder peso – o que pode ser uma questão para atletas de resistência – pode acabar diminuindo a densidade mineral dos ossos e, como Radcliffe, correr o risco de fraturas. Mas isso tende a não ser um problema em esportes como o tênis, em que massa muscular é necessária para força e poder de jogo.

A resposta, então, parece ser seguir um treinamento lento e cuidadoso após o parto – o que para um atleta de elite pode significar correr 16 quilômetros por semana em vez de 160 ou 240 quilômetros. Mas segundo O’Brien, no final das contas, não há razão para uma atleta não conseguir ter seu corpo de volta.

Resumindo, o que, afinal, leva as atletas com filhos de volta ao topo do pódio? Pode ser uma questão psicológica. De acordo com os especialistas, elas podem sentir-se mais relaxadas e confiantes, porque o esporte não é mais o único foco de suas vidas.

Elas vencem porque não têm medo de perder.

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