Exposição ao sol é essencial para a produção de vitamina D

Interferência do uso de protetor solar divide especialistas

Sombra pode evitar o câncer de pele, mas gera deficiência de vitamina D
Sombra pode evitar o câncer de pele, mas gera deficiência de vitamina D Foto: Divulgação

Novas evidências sobre a importância para a saúde da vitamina D, cuja produção no organismo é estimulada pelo sol, estão levando médicos a revisar prontuários. Antes associada exclusivamente ao fortalecimento dos ossos – sem ela, o organismo não consegue extrair e absorver o cálcio dos alimentos e fixá-lo no esqueleto – a substância ganhou um novo status depois que pesquisas mostraram sua estreita relação com a prevenção das mais variadas doenças. Pesquisadores de diferentes países observaram que pessoas com déficit de vitamina D têm mais chances de desenvolver 17 tipos de tumor, diabetes, tuberculose, esclerose múltipla e fibromialgia, entre outros. A descoberta levou os médicos a considerar a necessidade de suplementar a supervitamina.

A mais recente decisão foi tomada pela Academia Americana de Pediatria, que publicou neste mês, na revista Pediatrics, uma nova recomendação sobre a dose da substância que deve ser dada às crianças. A ordem é dobrar o consumo diário, até o início da adolescência. Para os idosos, população que está perigosamente mais sujeita à carência, a quantidade também deve ser reforçada após os 70 anos.

Segundo o geriatra Rodolfo Herberto Schneider, a necessidade de dar comprimidos se baseia em dois fatores que envolvem mudanças de hábitos e de cardápio. O primeiro é que, ao contrário das demais, a vitamina D não é facilmente obtida na alimentação. Comidas ricas na substância – como o atum, a sardinha e o óleo de peixe – não fazem parte da mesa tradicional do brasileiro. O segundo fator envolve a necessidade de se expor aos raios solares para turbinar sua produção no organismo. O preconizado por endocrinologistas e geriatras é tomar sol durante 20 minutos por dia.

Mas, nos últimos anos, campanhas de alerta sobre o risco do câncer de pele mudaram a rotina. Estudos da endocrinologista Marise Lazaretti Castro mostram que entre 30% e 50% das pessoas acima dos 70 anos e 20% dos adultos no país têm níveis inadequados de vitamina D. A fuga exagerada do sol é uma das explicações para a nova realidade.

– Estamos vendo uma epidemia de carência de vitamina D na população brasileira – avalia Marise.

Com ele ou sem ele?

Primeiro a alertar sobre a ligação entre exposição solar e câncer de pele, o biofísico americano Richard Setlow voltou à cena neste ano para anunciar que a falta de luz do sol poderia ser mais prejudicial do que o risco da exposição. A revelação não significa carta-branca ao sol. No artigo, publicado na prestigiada revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o próprio Setlow pondera que, para prevenir o câncer de pele e continuar produzindo vitamina D, é preciso sim expor-se aos raios, mas com protetor solar.

O uso do filtro, porém, continua controverso. Enquanto os dermatologistas acreditam que o produto não prejudica a síntese de vitamina D, endocrinologistas e geriatras defendem que seu uso contribui com a carência do micronutriente na população, detectada por pesquisas brasileiras. O tempo de exposição também é outro ponto polêmico. A Sociedade Brasileira de Dermatologia recomenda uma dose semanal de 15 minutos. Marise Lazaretti Castro, professora de Endocrinologia da Unifesp e pesquisadora do tema, aponta que o ideal seria manter, sem proteção, braços, face e colo em contato com o sol por 20 minutos ao dia.

– Essa recomendação deve ser seguida especialmente por idosos e pessoas de pele mais escura. O envelhecimento e o tom escuro da cútis dificultam a entrada dos raios solares. Como o Brasil é um país miscigenado e está em processo de envelhecimento, temos de estar atentos a isso – alerta.

O professor de dermatologia da PUCRS Sérgio Célia opina que 15 minutos por dia não comprometem a saúde. Mas observa que pessoas de pele muito clara e com histórico de câncer de pele na família, no entanto, devem tomar cuidados e seguir orientação médica. Quando há indícios de doenças relacionadas à deficiência da vitamina, é indicado também dosar seus níveis no sangue. Segundo a professora de endocrinologia da UFRGS Helena Schmid, estudos mostram que a obesidade está relacionada com déficit da vitamina. Pessoas com tendência a desenvolver osteoporose também são as mais propensas a apresentar a carência.

Quando é indicado recorrer à suplementação da vitamina D, o geriatra Rodolfo Schneider, do Instituto de Geriatria e Gerontologia (IGG) da PUCRS, alerta sobre a importância da avaliação médica prévia para saber a necessidade de iniciar o tratamento:

– Apesar de trazer inúmeros benefícios, é preciso consultar um especialista para saber quanto e como tomar a vitamina D. Como qualquer outra medicação, é passível de riscos.

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