Exposição na Fundação Vera Chaves Barcellos mostra a ironia na arte contemporânea

"Um Ponto de Ironia" será inaugurada neste sábado, das 11h às 16h, em Viamão

Foto: Stock.Xchng

No final do século 19, o francês Alcanter de Brahm propôs um sinal gráfico para indicar claramente a intenção de ironia na linguagem escrita. A marca – que se assemelha a um ponto de interrogação invertido – reapareceu no final da década de 1970 na revista de arte Le Point d’Ironie, publicada na Alemanha (não confundir com o periódico de nome praticamente idêntico, criado em 1997 por agnès b., Christian Boltanski, Hans-Ulrich Obrist e Carrie Pilto, também inspirado em Alcanter).

Desse cruzamento de referências surgiu o título da exposição Um Ponto de Ironia, que será inaugurada neste sábado, das 11h às 16h, na Sala dos Pomares da Fundação Vera Chaves Barcellos, em Viamão. São obras de cerca de 60 artistas em que a figura retórica faz parte da estratégia poética. A divulgação da mostra conta com uma reedição do cartaz Procuro-me (2001-2003), da artista paulista Lenora de Barros, cujas cópias serão coladas em muros nas ruas de Porto Alegre e de Viamão em duas rodadas, a primeira delas prevista para o dia 16. A obra também estará exposta ? emoldurada ? na Sala dos Pomares.

Na seleção das curadoras Ana Albani de Carvalho, Neiva Bohns e Vera Chaves Barcellos, estão trabalhos de artistas do Brasil, de outros países da América Latina e da Europa, produzidos principalmente a partir da década de 1970. Os suportes são variados: arte postal, fotografias, gravuras, objetos, instalações, vídeos, entre outras. Estão lá nomes como Lenir de Miranda, Antoni Muntadas e Regina Silveira.

Em comum entre eles, a herança da ruptura provocada no início do século 20, quando a arte aprendeu, por assim dizer, a rir de si mesma por meio de movimentos como o dadaísmo. Valendo-se de humor, crítica ou violência, os pontos de ironia em exposição na Sala dos Pomares se dirigem ao público de maneira direta, em uma aproximação que em nada lembra a reverência com que se costuma tratar a arte clássica ou mesmo parte da produção contemporânea. Com um olhar atento, pode-se identificar tendências no uso da figura de linguagem, como nota Vera Chaves Barcellos:

? Depois da ditadura, os artistas brasileiros abandonaram um pouco a ironia política, mas ela foi para outras mídias, como os programas humorísticos de televisão.

Vera, que também tem trabalhos na exposição, brinca de classificar os tipos de ironia: a ironia da identidade das distorções faciais de Gretta, a ironia humorística do homem conservado em um pote de vidro de Paulo Bruscky ou a ironia cruel da caixa de música com uma bailarina pregada e sangrando de Patricio Farías. Aqui, a função do recurso vai além de seu valor utilitário de expressar o contrário do que se está dizendo literalmente.

? A maior qualidade da ironia é refletir sobre questões ? diz Vera.

Assim, talvez o sinal gráfico proposto por Alcanter de Brahm não tenha vingado porque a ironia consiste justamente em abrir as possibilidades de significação, e não em encerrá-las a título de ponto final.

 

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