Febre mundial: pôquer atrai cada vez mais catarinenses

Jogo reúne profissionais ou amadores em casas e mesas virtuais

Estima-se que, hoje, no Brasil, 10% dos praticantes do pôquer sejam mulheres. Adriana Lima costuma jogar no BC Club, em Balneário Camboriú
Estima-se que, hoje, no Brasil, 10% dos praticantes do pôquer sejam mulheres. Adriana Lima costuma jogar no BC Club, em Balneário Camboriú Foto: Felipe Carneiro

Bem-vindo ao mundo do pôquer ? uma febre mundial que chega a reunir 200 mil pessoas simultaneamente ?  de qualquer canto do planeta, em torno de mesas virtuais de carteado. Um jogo em que, com duas cartas de baralho na mão, um canadense de 23 anos, Jonathan Duhamel, levou para casa US$ 8,9 milhões e um bracelete de ouro com diamantes, consagrando-se campeão mundial em 2010. O segundo colocado, o americano John Racener, 24 anos, deixou Las Vegas com US$ 5,5 milhões.

Para pisar neste universo, comece desfazendo a imagem do pôquer como um jogo de trapaças. Hoje, os torneios reúnem famílias. Há mulheres como a bela Adriana Lima, que estampa a capa desta edição, jovens como o já citado Jonathan Duhamel e pais de família. A Confederação Brasileira de Texa’s Hold’em (CBTH), a modalidade mais popular, estima que há no país 2 milhões de praticantes.

O jogo tem três revistas especializadas no Brasil ? a Flop é a mais famosa. O modismo no gênero criou celebridades como o brasileiro André Akkari( foto). Desde 2005, quando iniciou a carreira no esporte, acumulou R$ 4,5 milhões. Hoje é jogador profissional, comentarista da ESPN Brasil e um dos coordenadores da TV Poker Pro.

Outra celebridade é Chris Moneymaker. Em 2003, o simples contador conseguir se classificar para o campeonato mundial ao participar de mesas online. Além de vencer feras consagradas na final, ele se tornou campeão mundial. Largou a vida de contador e lançou uma autobiografia.

Catarinenses ocupam a mesa de jogos

Balneário Camboriú, com seus três clubes de pôquer, é uma das cidades onde mais se joga no Brasil. O Estado tem, desde o ano passado, a Federação Catarinense de Texas Hold’, com média de 130 jogadores por etapa do torneio catarinense. Em 2003, a ESPN passou a transmitir os campeonatos com uma ótica provocativa: microcâmeras mostravam as cartas de cada jogador.

? O telespectador podia entender o racional do jogo ?  comenta Leandro Vasconcelos Pimental, o Leandro Brasa, 33 anos.

Há sete anos, sua profissão é o pôquer. Além de sócio da BC Club, em Balneário Camboriú, ele é um dos 150 jogadores no mundo contratados pelo site Full Tilt Poker, o segundo maior do setor. O primeiro é o PokerStars, com valor de mercado estimado em US$ 9 bilhões e 42 milhões de usuários cadastrados. Brasa, que não diz quanto ganha, recebe por hora e tem salário compatível ao de um executivo de multinacional.

No Brasil, o primeiro canal aberto a apostar no tema foi a Band. Ano passado, a emissora veiculou o Poker das Estrelas, apresentado por Otávio Mesquita. O programa teve 2 pontos no Ibope e a emissora planeja a segunda temporada. Mais pop impossível.

Elas também sabem jogar

O domínio é masculino. Mas, ainda que timidamente, mulheres começam a aparecer nas mesas de jogo. Entre elas, quem foi mais longe é Renata Dutra, 28 anos. A policial rodoviária federal foi vice-campeã do torneio catarinense de 2010 e chegou a ganhar a etapa de Jaraguá do Sul, embolsando R$ 9,6 mil. Apesar do sucesso, ela prefere tratar o pôquer como um hobbie.

Em casa, no Bairro Córrego Grande, em Florianópolis, Renata tem livros sobre pôquer, que vão de técnica de jogo a ensinamentos sobre blefes e como identificar expressões corporais que podem revelar o jogo do adversário, além de coleções de revistas sobre o tema. A policial começou a jogar com o marido, João Farias, há dois anos. O casal joga duas vezes por mês em encontros com amigos

? Hoje, ela joga melhor que eu. Eu admito ? diz ele.

Entre as qualidade de Renata, está a concentração e a boa observação.

? Tem que ter coragem de fazer a jogada certa. Pode ser um blefe, apostar tudo ou simplesmente desistir da mão. Pôquer não tem nada a ver com sorte. É um jogo da mente.

Estima-se que, hoje, no Brasil, 10% dos praticantes do pôquer sejam mulheres.

>>> Saiba como encarar uma rodada de pôquer

:: Cartas virtuais

A TV iniciou a popularização do jogo e a internet o tornou mais acessível. A rede disponibiliza mesas 24h por dia e com jogadores do mundo inteiro. No dia em que a reportagem do Donna visitou o BC Club, Leandro Brasa, jogador profissional, participava de um jogo virtual. O site tinha, naquele momento, às 21h30min de uma segunda-feira, 113 mil pessoas conectadas e distribuídas em 35 mil mesas.

Existem diversas páginas na internet que disponibilizam partidas em rede. Pode-se escolher torneios com premiações que variam de US$ 10 a US$ 10 mil.

Para entrar em uma mesa de pôquer online, é preciso se cadastrar, criar um perfil e adquirir dólares virtuais, o que pode ser feito com um cartão de crédito internacional. Mas, na internet, o pôquer perde uma de suas características mais marcantes. Como os concorrentes não estão cara a cara, fica mais difícil blefar e é impossível observar as reações.

:: Famosos jogadores

O jogo fez a cabeça de muita gente famosa. O tenista Guga Kuerten virou notícia no país, no início de janeiro, ao participar do torneio mundial PokerStars Caribbean Adventures, nas Bahamas. Ganhou US$ 15 mil ao ficar na 197º colocação entre os 1.560 inscritos, e doou o prêmio às vítimas das chuvas no Rio de Janeiro.

Guga contou que começou a gostar de pôquer assistindo transmissões na televisão quando disputava campeonatos de tênis nos Estados Unidos. Depois disso, passou a jogar com os amigos em Florianópolis. Nas Bahamas, foi seu primeiro grande torneio ao vivo. O manezinho comparou o pôquer com uma partida de tênis:

? O ambiente competitivo e de estratégia é bem parecido. A sensação de desafiar o adversário e planejar uma estratégia para eliminá-lo são semelhantes.

Por aqui, são famosas as pizzas com pôquer na casa de Ronaldo Fenômeno, em São Paulo. Dizem que o cacife gira em torno de R$ 5 mil. Felipe Massa costuma jogar em um clube em São Paulo. Comenta-se que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também é adepto.

:: Na mesa de pôquer com Cartola

Esqueçam cartas e fichas. Pôquer é um jogo de pessoas. Ouvi isso algumas vezes e, com esse pensamento, entrei no BC Club, numa segunda-feira, em Balneário Camboriú. Cerca de 40 pessoas jogam pôquer, distribuídas em quatro mesas ou computadores. A maioria é de rapazes, mas há senhores de cabelos brancos e três mulheres.

Em uma outra mesa, os jogadores me chamam para apresentar Cartola, um senhor de 58 anos.

? Pode perguntar para qualquer um que vão sempre te dizer que o Cartola é quem mais ganha aqui ? diz Adriana Lima, uma das três mulheres da mesa.

Cartola havia me passado despercebido. Ele prefere assim. Não quer muita conversa. Diz que são décadas de jogo e que “eu não vou entender nada se ele tentar me explicar qualquer coisa.”

Depois, me deixa sentar ao seu lado enquanto joga e conversa por cinco minutos. Cartola não trabalha. Sustenta a esposa e filhos (seis) com o carteado. A esposa acende uma vela para os jogos dele. Joga um dia sim e o outro também, como ele mesmo diz. Nunca leu um livro de pôquer como os jovens profissionais. Por que joga?

? Porque, senão, ninguém come em casa.

Mas, naquela noite, ele não foi bem. Indigna-se por ter perdido quase todas as fichas para um jovem jogador:

? Foi sorte. Se fizer aquela jogada 100 vezes, vai perder 99. Pôquer é experiência e paciência. Tchau, menina!

Cartola se levanta, compra fichas e vai para uma mesa mais afastada.

:: Polêmica em torno das casas

A legislação brasileira não é clara sobre a legalidade do pôquer, o que gera interpretações polêmicas para a instalação de casas destinadas ao carteado. A Lei de Contravenções Penais proíbe a exploração de jogos de azar, definidos como aqueles em que o ganho e a perda dependem exclusiva ou principalmente da sorte. Para os jogadores, trata-se de um esporte que requer habilidade.

Ano passado, os defensores desta versão ganharam dois argumentos: uma resolução da Associação Internacional dos Esportes da Mente garantiu ao pôquer status de jogo da mente, como o xadrez; e um parecer técnico da Confederação Brasileira de Texas Holdem que o jurista Miguel Reale Jr. escreveu: Pode-se concluir que, no pôquer, na modalidade Texas Hold, prevalece a habilidade e não a sorte.

Há ainda a justificativa de que os jogadores não jogam contra a casa, mas entre eles. O clube seria apenas um organizador do evento.

Três clubes foram abertos em Balneário Camboriú. Há também em Blumenau, Jaraguá do Sul, Chapecó, Criciúma e Rio Negrinho.

Para abrir um clube de pôquer é necessário ter um alvará da Polícia Civil. O delegado Rodrigo Bortolini, que até ano passado era o responsável pela delegacia de jogos e diversões da Capital, interpreta a modalidade como um jogo de azar. Ele jamais autorizou a instalação de um clube em Florianópolis.

? Eles solicitam o alvará para abrir uma associação de carteado. Mas a atividade é desviada. Não se trata de um espaço entre amigos para jogar, mas uma casa onde os organizadores obtêm lucro explorando o jogo ? afirma.

Com a mudança de governo, o comando da delegacia passou para o delegado Adalberto Safanelli, que também classifica o pôquer como um jogo de azar. Ele promete analisar os pedidos de abertura de casas.

>>> Participe: para você, o pôquer é um jogo de azar?

:: A LEI

O Decreto Lei nº 3.688 (Lei das Contravenções Penais) de 3 de outubro de 1941, em seu artigo 50, prevê pena de detenção de três meses a um ano e multa para quem estabelecer ou explorar jogo de azar em lugar público ou acessível ao público

SITES MAIS POPULARES

? PokerStars – www.pokerstars.com

? Titan Poker – www.pokerstars.com/pt

? Full Tilt Poker – www.fulltiltpoker.com/pt

? Everest Poker – www.everestpoker.com/pt

? Party Poker – www.pt.partypoker.com

EM SC

? site da Federação Catarinense http://fctexas.com.br

? site do BC Club www.bcpoker.com.br

?  Contatos de quem organiza jogos por aqui www.floripaopendepoker.com

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