Felicidade não se compra, afirma o filósofo francês Gilles Lipovetsky

Intelectual diz que vivemos uma mistura de decepção, frustração e ansiedade

O pensador passou pelo Estado no fim de setembro
O pensador passou pelo Estado no fim de setembro Foto: Juan Barbosa

O que fazer com uma sociedade que tolhe o desejo, mas ao mesmo tempo alimenta o consumo sôfrega e vertiginosamente? O filósofo francês Gilles Lipovetsky olha para esse e outros paradoxos pensando no humanismo, apostando numa ética de formação, que salvaguarde um futuro mais equilibrado do planeta.

Um dos nomes fundamentais do pensamento contemporâneo, ao abordar questões em torno da política, psicologia, moda, luxo e comportamento, o filósofo francês Gilles Lipovetsky passou pelo Estado. No fim de setembro, ele esteve em Caxias do Sul.

Lipovetsky é autor de livros como Do Luxo Sagrado ao Luxo Democrático, Era do Vazio: Ensaios Sobre o Individualismo Contemporâneo, O Império do Efêmero: a Moda e Seu Destino nas Sociedades Modernas.

Pergunta – Por que vivemos na sociedade da decepção?
Gilles Lipovetsky – A decepção não é um fenômeno próprio só de nossa sociedade, ela acompanha a condição humana. As sociedades modernas individualistas possibilitaram um sonho de uma felicidade crescente para todos. A democracia abriu caminho para o mito da felicidade coletiva. A sociedade de consumo propõe, incessantemente, novos desejos. Podemos e queremos cada vez mais. Nas sociedades tradicionais, havia a infelicidade, claro, mas ela era ligada a Deus, à ordem das coisas. Agora, sofremos por não ter nossos desejos satisfeitos e não compreendemos por que não somos felizes. Não conseguimos alcançar tudo. A vida privada se tornou muito complicada. Antes, casamentos eram arranjados e casava-se para a vida toda. Isso não significava que as pessoas eram felizes, mas era assim. Hoje, você vive com alguém que escolheu. Numa sociedade que reconhece o amor como o princípio da vida em comum, temos aí um fator de decepção. Não podemos amar sempre. Há também a vida profissional, que exige coisas que você não pode cumprir. Ou, às vezes, essa vida profissional é uma rotina. E a globalização cria condições intensas de competição, exigências. Nem todos se saem bem. Assistimos então a uma mistura de decepção, frustração e ansiedade. Na sociedade individualista, cada um assume os seus fracassos.

Pergunta – O consumismo acirra isso?
Lipovetsky – A sociedade do consumo é uma lógica que penetra e reestrutura a economia, a vida social e profissional. O homem é um ser falante. Ouvir e falar são uma constante, utilizamos a linguagem permanentemente. Mas, hoje, com as psicoterapias, pagamos para falar e para que nos ouçam. A sociedade do hiperconsumo é a em que os gestos mais elementares são estimulados pela lógica mercantil nos setores mais variados. As pessoas compram muito. O crescimento hoje é impulsionado pelo consumo. Se não houver consumo, há um colapso da economia. Isso abalou, transtornou a sociedade.

Pergunta – Situação que deriva num individualismo exacerbado?
Lipovetsky – Sem dúvida, mas o individualismo não é produto único do consumo. A dinâmica individualista é filha da democracia. A sociedade de consumo tem como ideal a felicidade privada, as satisfações permanentes. Tudo isso mudou nossa visão da vida, derrubou os últimos vestígios das tradições. Cada um se toma o centro, cada um busca a felicidade, o bem-estar. Marx dizia que o capitalismo era revolucionário porque mudava o tempo todo a vida social. E ele tinha razão. Mas o capitalismo de consumo levou isso adiante, mudou a relação com a religião e a própria vida.

Pergunta – Como a moda e o consumo do luxo se inserem nesse contexto?
Lipovetsky – A moda, o luxo, o consumo e o lazer são a visão materialista da felicidade, como se ela pudesse nos ser proporcionada pelo mercado. Isso é parcialmente verdadeiro. Sem dúvida, proporciona prazeres. Mas esses prazeres são a felicidade? Não! Você pode viver num palácio, ter um carrão, mas ter problemas com os filhos, no trabalho, ser infeliz. Os objetos de consumo vão proporcionar algum sentimento de evasão, mas não trarão paz, harmonia. Consumir não basta. A felicidade exige outra coisa, principalmente na relação com os outros e consigo. Quem entendeu isso faz política, se engaja em associações. É possível ter satisfação ajudando os outros, as crianças, sentindo-se útil, lutando pela ecologia. Isso não é consumo. O homem não pode se reduzir a um consumidor.

Pergunta – Qual a nova ética possível?
Lipovetsky – O que esta sociedade exige, mas há um longo caminho para dar aos seres humanos instrumentos para que o consumo não seja tudo. Se você não tiver ferramentas culturais, profissionais, resta-lhe apenas o consumo. Se você não sabe o que fazer, liga a TV, vai ao supermercado comprar, não tem mais nada na vida. A ética que deveria ser desenvolvida é a da formação. É um ideal humanista, simplesmente. Os pais formam filhos para realizar algo. Precisamos oferecer uma formação melhor às pessoas e, talvez, também mudar a gestão das empresas para que a competitividade não destrua totalmente o ser humano. Ela pode ser uma ferramenta para o progresso, não uma finalidade. Devemos buscar equilíbrio entre mercado e estado, economia e ecologia, consumidor e produtor, vida privada e profissional.

Pergunta – As redes sociais contribuem para o espírito da solidariedade?
Lipovetsky – De fato, Internet, Facebook e redes sociais permitem uma conectividade entre pessoas que não se conhecem. Mas não devemos ser ingênuos. Esta comunicação planetária não elimina os conflitos. Se você é palestino, pode se conectar, encontrar um israelense que mora a dois quilômetros, mas que não vê o mundo do mesmo modo. Não devemos pensar que, com todo mundo comunicando, tudo irá se unificar. Existem conflitos que se mantêm. Sem formação, a comunicação é um simulacro. Não sou hostil à Internet, mas não devemos esperar tudo dela. Devemos investir na formação para termos uma humanidade mais rica, para que essa ferramenta seja utilizada ao máximo. (Dia desses) Olhei um site das notícias mais lidas. Era sobre o casamento da Beyoncé. Isso não é o melhor a se esperar da Internet. Ela terá toda sua potencialidade se as pessoas souberem utilizá-la.

Pergunta – Como fica o Brasil neste cenário de transformações?
Lipovetsky – O Brasil é uma enorme nação, tem um futuro considerável. Isso não é uma grande novidade. Ele faz parte das nações do futuro e, para enfrentar a globalização, o melhor é investir na formação. O Brasil tem enorme potencial, mas tem desigualdade econômicas e sociais excessivas. Estamos indo rumo a uma nação segura de si mesma quando há desigualdades demais? A resposta provavelmente é não. Voltamos às frustrações e insatisfações extremas. A sociedade brasileira poderia ser melhor. A harmonia é um ideal. As desigualdades não são condenáveis, mas, excessivas, criam o caos. Será que o Brasil caminha rumo à sociedade dos condomínios, em que só os ricos têm dinheiro, ficam seguros entrincheirados, e azar dos outros?! Este não é o ideal de uma sociedade, mostra que as pessoas não estão tranquilas e que o próximo é um perigo. Não é uma boa solução viver assim. A grande questão é perpetuar a competitividade que não destrua a solidariedade e reduza as desigualdades. Precisamos investir na formação para todos, não só para os que possam pagar.

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