Festas de divórcio viram mania nos Estados Unidos: será que a moda pega por aqui?

Armar um festão é moda lá fora, mas comemorar a separação também será assunto da próxima novela das nove

A confeiteira Mariana Boll e o bolo criado para uma festa de divórcio
A confeiteira Mariana Boll e o bolo criado para uma festa de divórcio Foto: Jean Schwarz

Tom Carling recebeu um presente inusitado, algo que vem se tornando mais comum em certos círculos: chá de divórcio.

– Na verdade, eles o chamam de chá dos descasados, que é como um chá de cozinha para divorciados – conta Carling, um designer gráfico de Manhattan. – Noivas ganham coisas para a casa, e eu ganhei uma festa para repor as coisas que minha ex havia levado embora.

Organizada por amigos íntimos, incluindo Elizabeth St. Clair, uma advogada de Manhattan, a festa encheu sua casa de utensílios básicos, como um novo jogo de tigelas, e lhe deu um livro de receitas “à prova de idiotas” que lhe permitirá alimentar sua filha adolescente ou impressionar uma namorada.

– Você pensa que isso é algo pequeno? Pois não – garante Carling. E explica: – A cozinha é um espaço íntimo, e se você foi casado por 25 anos como eu, você cria vínculos com os itens mais usados.

As refeições, acrescenta Carling, “eram os momentos em que eu me sentia um coitado solitário, e o chá de divórcio me deu essa sensação de que eu possuo a força para seguir em frente” – e também os jogos de pratos.

Não entenda mal: não é como se todos estivessem organizando divórcios como se fossem casamentos – embora exista uma loja em Londres, a Debenhams, que possui uma lista oficial de divórcio, e algumas pessoas abrem suas listas em sites normalmente reservados para casamentos.

A menos que Katie Holmes esteja planejando algo, há poucas chances de que um chá de divórcio de celebridades apareça na capa da US Weekly – embora a separação de Shanna Moakler e Travis Barker, e seu bolo com uma noiva loira segurando uma faca sangrenta sobre restos mutilados do noivo, tenha sido um texto interessante.

Organizadores de grandes festas vêm relatando um significativo aumento no número de pessoas que celebram o fim de um casamento não com lágrimas, mas com um estrondo (às vezes, literalmente: há uma empresa inglesa de fogos de artifício que pode ser contratada para festas de divórcio, escrevendo as palavras “finalmente livre” no céu noturno).

Existem especialistas em planejar festas de divórcio, e há também um site, o divorcepartysupply.com, onde se pode “celebrar sua nova liberdade” com tiaras de chifrezinhos que se acendem, rosas de caule longo – e, para aquelas tentando libertar um pouco da raiva, piñatas em formato de pênis.

– As pessoas não costumam chamar essas comemorações de chás ou festas de divórcio – afirma Marcy Blum, organizadora de eventos e autora de Weddings for Dummies. – A motivação é mais do tipo: “Venha celebrar minha nova vida (e talvez me dar um presente)”.

Por exemplo, Blum fez uma festa com tema “Alice no País das Maravilhas” nos Hamptons, para um cliente rico e idoso cujo terceiro casamento, com sua instrutora de yoga, havia saído dos trilhos. – Por que Alice no País das Maravilhas? – pergunta Blum. – Bem, era algo lúdico, e foi uma boa desculpa para convidar muitas jovens mães com seus filhos.

O cliente faleceu recentemente, mas não antes de se casar mais uma vez, disse Blum, “com uma mulher que tinha um décimo de sua idade.

Ela também apontou que, como agora homens e mulheres homossexuais já podem se casar em muitos Estados dos EUA, eles também terão o direito de se divorciar – podendo significar que os chás de divórcio se tornarão ainda mais frequentes.

De certa forma, o surgimento do chá de divórcio não é assim tão surpreendente. Com uma probabilidade de sucesso de apenas 50% para o primeiro casamento – e percentuais ainda piores para o segundo e terceiro, caso você esteja pensando que o amor é mais amoroso da segunda ou terceira vez -, parece haver um desejo social de comemorar, e até mesmo celebrar, o que vem se tornando uma etapa cada vez mais comum na vida das pessoas.

– Tradicionalmente, todo grande evento tem uma celebração: casamento, formatura, o que for. Mas quando você se divorcia, você está sozinho – diz Christine Gallagher, proprietária da empresa de eventos Divorce Party Planner, em Los Angeles. – Um chá de divórcio é uma maneira de criar um ritual onde você ganha o apoio de amigos e familiares. Vejo isso como algo bastante saudável.

Em nome de uma boa saúde mental, ela organiza festas com temas como Sobrevivente, onde ela monta a casa como uma ilha deserta (ajuda se você morar em Los Angeles e tiver uma piscina) e atores desempregados vestidos com sarongues servem drinques tropicais – enquanto 50 Ways to Leave Your Lover e Hit the Road, Jack tocam no sistema de som.

– Acabo de fazer uma festa de Dia dos Mortos para um amigo que queria homenagear a morte de um casamento – disse Gallagher. – Tínhamos velas em caveiras por toda parte. E achamos uma piñata de bolo de casamento, o que foi fantástico.

Mesmo assim, nem todos estão convencidos de que festas de divórcio são uma boa ideia.

– Como terapeuta, minha opinião é que as pessoas devem fazer o que for necessário, guardadas as devidas proporções – argumenta a escritora e ex-psicoterapeuta Amy Bloom. – Como ser humano, minha opinião é: o que há de errado com essas pessoas? Certo, se você tinha um cônjuge que todos odiavam, tudo bem, alugue uma suíte no Ritz-Carlton. Mas se você estiver sendo honesto consigo mesmo, o divórcio é um período bem ambivalente. Seria mesmo o momento de jogar confete rosa pelo ar? As pessoas estão um pouco desesperadas demais por rituais e comemorações.

O judaísmo possui uma cerimônia religiosa para o divórcio: o get, que é uma maneira de santificar o final de um relacionamento.

E segundo o site beliefnet.com, muitas comunidades cristãs vêm lutando com formas para incorporar o divórcio no ritual religioso (imagino que a cerimônia cristã seria similar à judaica, mas com caçarolas em vez de peixe defumado). Se os rituais não são definidos em nossas igrejas e comunidades, talvez desejemos criá-los nós mesmos.

Esse parece ser o caso de Martha Torres, de Thousand Oaks, na Califórnia – que, após 30 anos de casamento, perdeu 13 quilos e organizou uma festa de “renascimento” imediatamente após pedir o divórcio. Um ano depois houve uma continuação, com uma festa “Ainda estou de pé”, para celebrar sua independência financeira.

– Quando algo fora de seu controle acontece em sua vida, você pode decidir pesar 150 quilos e andar com um rosário, ou você pode fazer algo para retomar sua vida. Uma festa nem sempre é apenas uma festa. Ela pode servir como uma ponte para uma nova vida – analisa Martha Torres.

Será que a moda pega por aqui?

Por Gabrieli Chanas

Novela dita moda em roupa, corte de cabelo e até nome de bebê. Salve Jorge, que vai suceder Avenida Brasil, promete lançar por aqui – ou pelo menos colocar nas rodas de conversa – a moda da festa de divórcio. Já na terceira semana no ar, a personagem de Cléo Pires irá promover um festão para celebrar a separação. Ousada, vai aparecer de vestido de noiva e gritando aos quatro ventos a felicidade com a vida nova. Os mais recatados vão arrepiar os cabelos: as cenas prometem doideiras dignas de Carminha.

Por aqui ainda não existem profissionais especializados em comemorar o descasamento, como acontece nos Estados Unidos. O assunto, quando aparece, até surpreende. A confeiteira Mariana Boll, que todo mês entrega dezenas de bolos para casaizinhos felizes, teve que usar a imaginação para criar um bolo de divórcio, atendendo pedido de Donna. Deixou de lado o marido esfaqueado e o sangue escorrendo – como fez Shanna Moakler – e apostou num bolo colorido, que celebra a nova fase da dona da festa. Ele traz uma mulher bonita, segura de si, muito disputada e pronta para iniciar a busca por um novo amor.

Festa de divórcio ainda pode parecer uma coisa de outro mundo, mas se você puxar pela memória, provavelmente vai lembrar de já ter ido a uma. Por estas bandas, a separação não costuma ser brindada com pompa – até porque nem sempre há motivo para comemorar um divórcio – mas com um chope num barzinho com as amigas mais próximas. Daí para uma festa de arromba ficam faltando apenas o convite, o bolo, contratar uma banda, providenciar as lembrancinhas, encomendar fogos de artifício…

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