“Fico maravilhada com a energia e vitalidade das mulheres brasileiras”, diz Camille Paglia

Historiador Gunter Axt entrevista a amiga para o Dia Internacional da Mulher

Foto: Alexandre Rezende

“Uma mulher em público está sempre deslocada”, disse Pitágoras, há cerca de 2.500 anos, condensando uma das mais perenes formas de dominação conhecidas. Homem público: sucesso! Mulher pública: vergonha!

Ao longo dos séculos, houve enorme transformação na identidade feminina, mas permanece o desequilíbrio. E é sobre ele e a ansiedade que promove que Camille Paglia, uma das mais potentes vozes feministas do planeta, se debruça.

Nascida em Endicott, Nova York, em 1947, Camille doutorou-se em Yale e é professora na University of the Arts, da Filadélfia. Desde seu grande livro de estreia, Personas Sexuais (1990), é conhecida pela combatividade.

Provocou a ira das feministas ao propor que o ser humano é mais do que trabalho e que nem toda tensão pode ser reduzida ao machismo. As emoções de homens e mulheres, sustenta, diferem, pois os hormônios impactam o cérebro diferentemente. Ela argumenta que as mulheres devem respeitar o relógio biológico e, quando têm esta vocação, priorizar a maternidade enquanto jovens.

O feminismo de Camille é receptivo às múltiplas escolhas de cada um e não prescreve receitas genéricas. Ela também percebe os homens sob forte pressão social para se adaptar a um novo ambiente, no qual o patriarcalismo está em crise e a agressividade primitiva para enfrentar um entorno hostil é cada vez mais inútil.

Enquanto muitos se preocupam com a banalização do sexo, Camille se inquieta com a supressão da sensualidade numa contemporaneidade esterilizada. A grotesca exposição do corpo por Lady Gaga, longe de sensual, lhe sugere mais o sintoma de uma neurose alienada com relação ao próprio corpo. É a languidez sensual dos movimentos de Daniela Mercury ou a autenticidade da beleza madura de Catherine Deneuve, sem plásticas, que a sensibiliza.

Camille abraçou teses polêmicas: foi a favor da legalização da prostituição, dos direitos civis para homossexuais, da liberalização do aborto e da liberalização das drogas. Para ela, o Estado não pode interferir na vida privada, tampouco como as pessoas gerem seu corpo.

Camille Paglia visitou sete vezes o Brasil, país que adora. Em 2007, esteve em Porto Alegre participando do seminário Fronteiras do Pensamento. Suas ideias lhe parecem ser mais facilmente compreendidas pelos brasileiros. Sua gesticulação profusa e a personalidade enérgica, intui, são por aqui aceitas com naturalidade.

Ela adora provar os pratos típicos regionais e é fã do nosso chope. Incorporou a farofa e o queijo-minas aos seus hábitos. Tornou-se apreciadora da música brasileira e está estudando português.

Atualmente, anda ocupadíssima, devotando cada minuto à conclusão de seu novo livro. Mas aceitou fazer uma pausa para responder a três perguntas de Donna, que dedica essa reflexão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado na próxima quinta-feira, 8 de março.

Donna – Você afirmou em um artigo do New York Times de 1990 que “Madonna é o futuro do feminismo”. O Times recentemente o chamou de um dos editoriais mais influentes dos últimos 40 anos. Você acha que foi profético?
Camille Paglia – As pessoas ficaram chocadas quando eu escrevi isso, mas, sim, minha profecia se tornou realidade. A sexualidade assertiva de Madonna, assim como seu envolvimento com a moda e a beleza, revolucionou o feminismo.
No início de 1990, antes de eu me tornar conhecida, assisti a uma palestra sobre moda na Universidade da Pensilvânia que estava sendo dada por uma proeminente feminista da Universidade de Princeton. Fiquei horrorizada com a maneira como a professora mal interpretou e abusou das belas imagens que ela estava mostrando nas revistas de moda. Um anúncio de cosméticos do rosto de uma mulher emergindo de uma maravilhosa piscina de água azul era chamado de “decapitação”. A forma pictória da uma mulher negra usando óculos de aviador e vestida com um suéter de gola vermelha era chamado de “cegueira” e “estrangulamento”. Não foi apenas incompetente. Foi psicótico!

Donna – Como você vê as mulheres brasileiras?
Camille – Eu estou sempre maravilhada pela energia, vitalidade e humor das mulheres brasileiras. Eu ainda estou tentando entender as dinâmicas sexuais do Brasil. Do ponto de vista de um estranho, elas aparecem como se os homens brasileiros exalassem um magnetismo animal glorioso e atlético quando são jovens. Mas, conforme as décadas passam, eles parecem ficar de lado, à margem, e deixam seus corpos e seu estilo relaxar e obscurecer. É como se eles estivessem se submetendo às mulheres, que se tornam mais e mais teatrais e assertivas. O Brasil é famoso pela beleza das jovens mulheres, mas também é preciso entender que suas mulheres maduras são forças da natureza. Elas têm a cor e o amor de belas aves tropicais. E até mesmo suas vozes parecem se tornar mais profundas e ressoantes, como se os homens tivessem se rendido a elas também. Sempre que retorno do Brasil, as mulheres norte-americanas me parecem tímidas e estúpidas. Então, conto os dias até que possa voltar ao país de vocês.

Donna – No que você está trabalhando atualmente?
Camille – Há cinco anos tenho escrito um livro sobre as artes visuais. É uma parceria com o meu último livro, Break, Blow, Burn (Quebrar, Assoprar, Queimar), que era um estudo da poesia destinada ao público em geral. Meu novo livro, que será publicado em outubro, começa no Egito e percorre os séculos até a arte digital nos dias de hoje. Nesta área dominada pelos meios de comunicação, somos atacados por imagens constantes e ininterruptas, fragmentadas e desconectadas. A cor tornou-se berrante e extravagante, e fotos podem ser facilmente manipuladas pelo PhotoShop. O que eu estou tentando fazer é ensinar as pessoas como desacelerar e observar. A serenidade espiritual vem de deixar o olho demorar-se na grande arte.

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