Ficou barato ser fashion? Parcerias tornam grifadas acessíveis à massa

A onda do "fast fashion" agrada a quem antes não tinha acesso a tantos produtos

Moderna flagship da C&A conta com espaços exclusivos e comercialização de produtos assinados por designers
Moderna flagship da C&A conta com espaços exclusivos e comercialização de produtos assinados por designers Foto: Divulgação

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O que faz estilistas como Oskar Metsavaht, Alexandre Herchcovitch e Reinaldo Lourenço figurarem na mesma matéria? Se você está na dúvida, aí vai uma pista: fast fashion.

Agora, se mesmo com essa dica está difícil saber do que estamos falando, você certamente está por fora da nova mania que tomou conta do mundo da moda. Trata-se das parcerias entre lojas de departamentos (as chamadas redes de fast fashion) e grandes estilistas.

O resultado são peças “de grife” acessíveis à camada que representa a maior parte da população brasileira, a classe C, e a todos que curtem comprar uma roupa legal sem gerar um rombo no orçamento.

Na parte superior do globo, a prática já está consolidada, e cada lançamento de uma coleção causa um burburinho danado. Também, pudera! A sueca H&M, por exemplo, já contou com peças exclusivas assinadas por Stella McCartney, Karl Lagerfeld e Roberto Cavalli nas araras de suas lojas espalhadas pelo mundo. Agora é a coleção com o nome de Alber Elbaz, estilista da Lanvin, que está causando frisson (a previsão é de que as peças cheguem às lojas no final de novembro).

Já a britânica Topshop é case de sucesso pela dobradinha com a top Kate Moss (sim, celebridades também entraram na onda). No lançamento da parceria, há três anos, milhares de pessoas fizeram fila na loja da Oxford Street, em Londres, e o episódio foi chamado de “Moss mania” pelos jornais. Para tristeza de muitos fashionistas, nesta terça ocorre o lançamento da última coleção fixa da modelo para a marca (o fim da dupla de sucesso foi anunciado no final de agosto).

Por aqui, é a parceria entre um caxiense, o festejado Oskar Metsavaht (da Osklen), e a Riachuelo que está dando o que falar. O anúncio da coleção criada pelo estilista para a gigante do varejo foi um dos assuntos mais comentados pelos blogs de moda do país nas últimas semanas.

A edição da revista Vogue de outubro, antecipando a notícia, dedicou meia página à boa nova. “A gula pantagruélica dos fashionistas por design de primeira classe a valores camaradas receberá em breve um senhor estímulo…” resume a matéria que fala da coleção limitada, inspirada no Rio de Janeiro, e que chega no dia 16 de novembro às 114 lojas da rede no Brasil.

? O Brasil vive um momento maravilhoso, em que a classe C passou a ser classe média. Mas a democratização da informação foi ainda maior. Isso mudou a bipolaridade da moda e criou um terceiro setor, que é aquele que não tem condições de consumir o melhor da moda, mas que já foi picado pela mosca-azul. Agora essas pessoas também podem se expressar por meio da moda ? disse Flávio Rocha, presidente da Riachuelo, no lançamento da coleção do caxiense.

Para o estilista Mário Queiroz, que atua como diretor de moda do Instituto Europeu de Design em São Paulo, a democratização da moda beneficia a todos.

? Esse processo começou com o surgimento do pret-à-porter, mas se intensificou quando o público jovem “surgiu” no final dos anos 1950 e se concretizou quando o estilo das ruas passou a ditar as tendências. Nos anos 1990, a moda saiu das páginas das colunas sociais e foi para o caderno de cultura e, com o surgimento da internet, todos passaram a ter acesso às informações ? contextualiza.

Embora acredite que a democratização passe pela preocupação dos designers em criar coleções mais acessíveis e dos lojistas em diminuírem suas porcentagens de lucro, Queiroz tem uma opinião particular sobre o assunto:

? Não gosto de fast fashion. Acho uma história muito perigosa que pode acabar com a moda. A inovação precisa de um tempo para pesquisa e criação. Fast fashion me lembra aquele provérbio popular “quem tem pressa come cru”.

Controvérsias à parte, a parceria entre Metsavaht e a Riachuelo não é a única a movimentar fashionistas ávidos pelo BBB (bom, bonito e barato). Na mesma semana em que era lançada a coleção do gaúcho, a C&A abria as portas da primeira flagship da marca. Localizada no badalado Shopping Iguatemi de São Paulo, a loja reúne em suas araras linhas exclusivas de designers como Gloria Coelho e Isabela Capeto, entre outros, e a Soul Unique Denim, marca de jeans premium que teve a consultoria do estilista Renato Kherlakian (ex-Zoomp).

? Cada vez mais a consumidora tem muito mais acesso à informação de moda, por isso exige cada vez mais peças fashion, que ela vê em revistas, sites e TV. As semanas de moda no Brasil e no Exterior também são referências para essas clientes. Por isso, a C&A é patrocinadora oficial de eventos como o São Paulo Fashion Week ? diz Élio França, diretor de marketing da empresa.

E para quem pensa que as parcerias ficam só nas roupas e acessórios, a Renner lança em parceria com a estilista Carolina Herrera uma edição limitada da fragrância CH. A rede venderá com exclusividade 2 mil frascos do perfume, chamado CHSer, com renda revertida para o combate ao câncer de mama.

PRÁTICA FESTEJADA

Para a coordenadora do curso de Moda e Estilo da UCS, Adriana Job Ferreira Conte, essas parcerias são extremamente positivas, uma vez que fazem com que a moda não fique restrita a um grupo de pessoas. Adriana credita o sucesso do fenômeno ao fato de que as peças assinadas, mesmo vendidas em massa, estão embutidas de uma ideia de personalização:

? O estilista agrega valor ao produto. É como uma obra assinada, ela leva o conceito de quem a fez. Isso tira um pouco o caráter da produção em massa. E como hoje em dia as pessoas têm buscado essa personalização da moda, poder consumir uma roupa que foi feita por um grande criador gera essa sensação de diferenciação no consumidor, por mais que a peça seja feita em série.

Outro fator que agrega valor à prática, na opinião de Adriana, é o ineditismo:

? O apelo ao novo faz parte do universo da moda. Enquanto algo é novo, tem um apelo maior. Talvez quando essas parcerias se tornarem de praxe, não seja mais novidade. Tudo muda muito rápido.

Mário Queiroz, que é a favor da prática, torce para que os estilistas possam apresentar continuamente essas linhas em parceria com lojas mais populares.

? Pena que tais iniciativas ? que acontecem há algum tempo ? são temporais e passageiras. Fico torcendo para que as grandes magazines abram corners com as coleções do estilista que permaneçam e se renovem ? diz.

Enfim, dá pra ser fashion gastando pouco?

? Sim, principalmente porque hoje nos vestimos misturando peças antigas com novas, a ditadura da moda é muito menor e permite mais criatividade ? sentencia Queiroz, dando uma dica para quem não tem muito orçamento para gastar com roupas mas curte andar na moda: ? Quando tiver dinheiro, invista em peças de qualidade, que poderão ser usadas com peças baratas.

ESTILO DEMOCRATIZADO

Para Oskar Metsavaht, que saiu de Caxias do Sul para criar uma das grifes mais badaladas no mundo, é um desafio muito interessante criar roupas com um design bacana para um público com renda menor.

? Já me perguntaram em entrevistas: “Tu te rendeu ao fast fashion?” Não me rendi, mas acho que a gente está dando a oportunidade de outras classes terem peças assinadas legítimas ? diz o estilista, que participou de todo o processo de criação da coleção e construção de imagem (a campanha, fotografada por Bob Wolfenson, teve direção de arte dele e o fi lme, com fotografia de Sion Michel, foi dirigido por Duto Sperry).

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