Filhas contam a herança que receberam de suas mães

Vera Bublitz deixa herança da dança para a filha Carlla
Vera Bublitz deixa herança da dança para a filha Carlla Foto: Mauro Vieira

Mães dão o que podem, o que têm, o que são. Com variações de intensidade, necessidade e emoção.

Clarissa Jaffe, filha do escritor Erico Verissimo, lembra de uma infância com casa cheia, amigos, movimento, e da mãe Mafalda manuseando agulhas e linhas.

- Ela fazia tricô, crochê e bordava muito bem, talentos que, infelizmente, não herdei. Sempre que eu ia a Porto Alegre ou ela vinha a Washington, eu ganhava um guardanapo para bandeja ou uma toalhinha bordada por ela – conta a irmã mais velha (apenas um ano) do escritor Luis Fernando, 75 anos.

E é nos Estados Unidos, onde Clarissa vive desde 1956, que estão espalhados, em pontos nobres da casa, as toalhinhas e os guardanapos bordados pelas mãos da mãe. Ameniza a saudade. Até 2003, quando Mafalda morreu, aos 90 anos, o telefone ajudava.

- Todos os domingos eu ligava para ela e ficávamos conversando. Eu contando histórias dos meus três filhos e da minha vida aqui em Washington, ela me contando da família e dos amigos em Porto Alegre. Durante esses minutos, era como se não houvesse grande distância entre nós – recorda Clarissa, que conheceu Dave, o marido americano, num grupo de teatro amador, durante temporada dos Verissimo em Washington.

Na época, lembra Clarissa, a única exigência dos pais em relação ao casamento com Dave, falecido em 2006, era que a cerimônia ocorresse em Porto Alegre. Ela veio embora com Erico e Mafalda, e Dave apareceu meses depois para o casamento. O casal voltou então para os Estados Unidos, onde Clarissa construiu sua vida, virou mãe e avó:

- Tento conviver o máximo de tempo possível com os netos, são três meninos e uma menina. Todos, felizmente, moram aqui.

As lembranças de uma infância feliz, passeando no fusca amarelo da mãe pelo Bom Fim, também são a herança que a psicóloga Luciane Stangler, 37 anos, guarda da professora Marisa, que a escolheu como filha.

- Ela adotou a mim e a minha irmã e é uma mãe amorosa e cuidadosa. Nos passou a lição de que devemos ser independentes, como ela, que, na década de 60, já era formada em biologia, dava aulas e tinha seu próprio carro – conta Luciane, acrescentando que, se quisesse, teria a chance de conhecer a mãe biológica.

- Nunca quis, nunca pensei em outra, tenho a melhor – garante Luciane, que mora em São Paulo, enquanto a motorista do fusca amarelo, vendido há mais de 15 anos, vive na Capital.

Nos passos maternos

Carlla tinha dois anos quando a mãe, Vera Bublitz, começou a ensinar balé em Cruz Alta, no noroeste gaúcho. E como não havia turmas para meninas tão pequenas na escola da mãe – que chegou a funcionar nos fundos da casa da família -, Carlla frequentava aulas o dia inteiro, com colegas de todas as idades.

- Fui do cercadinho para a barra. Não precisei escolher, o balé estava ali, à disposição. E não tive nenhum problema em me assumir bailarina – conta Carlla, 47 anos, que hoje é professora nas duas escolas de balé Vera Bublitz na Capital, após temporadas de estudos na Argentina, nos Estados Unidos e na França.

Estudos e aprimoramento que orgulham Vera, que aprendeu balé na cidade natal, Florianópolis, dos quatro aos 16 anos, com uma professora russa, até se apaixonar e casar-se com um jovem dentista, filho de agricultores de Ibirubá, e vir de mudança para o Estado.

- Carlla foi mais fundo do que eu. Estudou mais e me ajudou a trazer muita gente de projeção internacional para dançar aqui – justifica a mãe, lembrando que uma das brincadeiras favoritas de Carlla e do irmão Nicolas, e que já dava pistas do talento da filha, era um espetáculo montado na sala da casa, com o menino tocando gaita e Carlla dançando.

Uma coreografia infantil com início, meio e fim, garante Vera, que recorda outro dos passatempos da filha: ensinar as bonecas.

- Eu seria uma professora de qualquer forma, e as escolas são uma herança que desfruto em vida – explica Carlla, mãe de Patrick, 17 anos, que ganhou também da mãe a casa onde mora.

Foi lá que ela encontrou, escondidas e quase esquecidas, as fotos do casamento dos pais:

- Herdei também uma linda história de amor.

Bicho de estimação

Com oito anos, Marilda Oliveira, a caçula de Lindoia e João Carlos, escolheu seu caminho:

- Quero ser doutora dos bichos.

E assim foi. Herdou a paixão da mãe Lindoia, 72 anos, filha mais nova de um delegado de polícia que peregrinou por várias cidades do Estado com a família. A cada casa, novos gatos e cachorros recolhidos das ruas apareciam no colo do pai, para agradar Lindoia.

- Eu também tinha peixes, passarinhos e uma ovelha que participava do presépio de Natal. Em Rio Grande, eu ganhei um pinguim de um pescador. Esse eu tive de devolver, não ia saber cuidar – recorda Lindoia.

A veterinária Marilda, 34 anos, não teve ovelha nem pinguim, mas já fez parto de vaca e recolheu tantos animais nas ruas que perdeu as contas. No apartamento que divide com o pai e a mãe no Bom Fim, já moraram ninhadas inteiras. Que Marilda e a mãe alimentam, às vezes até de mamadeira, tratam e doam.

- O presente de casamento da minha irmã foi o Mandolate, um vira-latas de rua que tinha sarna e eu tratei. Aqui em casa, a Uli veio para ficar uma semana, para castrar e tirar os pontos, e está há nove anos. Temos três gatos e dois cachorros – conta Marilda, que trabalha num canil de Gravataí e em uma clínica da Capital, e ainda faz trabalho voluntário de castração em Viamão.

Para dar conta de tudo, ela madruga. Afinal, ainda é maratonista e tem um namorado, estatístico, que a ajuda com os animais:

- Ele tem três cães e dois gatos na casa dele, todos de rua.

O dilema atual reside justamente no binômio casa da mãe/casa própria, que ela mantém sem dramas, apesar dos pedidos de casamento do namorado:

- Não consigo desgrudar dela, dessa vida aqui no Bom Fim. Além disso, Lindoia faz uma comidinha maravilhosa.

Vestido de renda

Quando decidiu casar, em 2004, a fisioterapeuta Daniela Britto Da Poian decidiu também que queria um vestido para chamar de seu. Experimentar antes, guardar depois. Afinal, a mãe Ana Luiza Da Poian tinha feito isso com o dela, um lindo modelo de renda em estilo princesa usado para o casamento na Igreja Santa Terezinha, na Capital, em 1970.

- Lembro direitinho quando comprei essa renda, junto com a minha mãe, na Casa das Sedas da Rua da Praia. Chovia naquele dia, e o dono da loja, extremamente gentil, nos levou para casa de carro – recorda Ana Luiza.

E foi o vestido feito com essa renda cheia de lembranças que Ana Luiza tirou do alto do roupeiro do apartamento onde vive, em Porto Alegre, desenrolou do papel de seda e ofereceu à única filha mulher. Não havia como recusar. Aí foi só fazer alguns ajustes, já que a noiva Maria Luiza era mais magra e mais baixa do que Daniela, e adaptar a roupa ao gosto da nova noiva, missão para o estilista Marco Tarragô, que, a pedido de Daniela, bordou cristais swarovski da saia do vestido.

- Meu pai, que morreu no ano passado, se emocionou ao entrar comigo na igreja. Ele lembrou do próprio casamento, disse que eu estava parecida com a mãe – afirma Daniela, que tem um filho de três anos batizado de Francisco em homenagem ao pai, Lauro Francisco.

E que faz questão de estar perto da mãe todos os dias, apesar de morar no outro lado da cidade, na zona norte da Capital. E que também planeja mais um filho, uma menina, para herdar, novamente, o vestido de renda da família.

Livro de receitas

A cozinha da gerente comercial Andréia Saccol tem um problema. Para a Andréia – e talvez só para ela.

- Viu que não tem mesa?

Não tinha notado. A cozinha do apartamento na Capital tem todos os apetrechos necessários a um casal que trabalha muito, e que compartilha, em casa, só o café com leite, bem cedinho, e o jantar, na sala, perto do noticiário da TV. E que tem na gaveta do armário a relíquia das relíquias.

- É o livro de receitas da minha mãe, as comidas que ela fazia quando eu era pequena, minha maior herança – conta Andréia, que trouxe o caderno de Santa Maria, onde mora a sua dona, a artesã Iedamar.

São daquelas páginas salpicadas por manchas de ingredientes de outras épocas que Andréia retira as fórmulas que povoam a casa com aromas de bolos, cucas e bolinhos. Cheiros e sabor de uma infância vivida entre panelas, em volta da mesa e da mãe, entre estripulias com os irmãos, provando e lambendo restos de ovos moles e sobras de coco, bolachas de nata, salpicando de açúcar o bolo de chuva. É natural que Andréia sinta falta da mesa.

- Vai chegar o dia em que vou fazer tudo isso para os meus filhos. É muito importante. Aliás, é o mais importante.

Hoje, Iedamar vai receber de volta o livro de receitas que a caçula carregou na bagagem há quatro anos, sem contar a ninguém. Mas não vai ser o mesmo livro.

- As receitas que ela copiou ali da mãe dela eu copiei novamente, num caderno novo. Esse eu vou dar hoje. Espero que ela aceite a troca, porque quero muito ficar com o original, esse com a letra dela.

Futuro de vida

A professora Marilce Fattore, 55 anos, carrega consigo, 24 horas por dia, a sua maior herança: o rim da mãe, Lygia, 78 anos, que enfrentou a resistência da própria filha para conseguir fazer o transplante.

- Ela não queria que eu doasse. É teimosa, teimosa – explica Lygia.

Marilce garante que não foi teimosia, mas excesso de zelo:

- Queria poupar minha mãe. Não queria que ela se mutilasse, não queria mesmo. É claro que foi o maior presente que recebi na vida.

Um presente que Lygia nunca imaginou deixar de dar. Ela fez todos os exames de compatibilidade sem alardes, ignorou os alertas médicos de que a idade avançada poderia representar um risco (ela tinha 69 anos na época da doação) e voou para Porto Alegre quando o aviso de um familiar interrompeu seu veraneio de 2001 em Camboriú (SC):

- Volta que a Marilce só tem 20 dias.

Ela veio. Tinha chegado a hora de acabar com o sofrimento da filha, com problemas renais graves decorrentes de um erro médico no parto do único filho, Diogo, 28 anos. O transplante que salvou a vida de Marilce teve também um efeito colateral positivo: uniu mãe e filha.

- Agora ela tá sempre aqui, vem muito – alegra-se Lygia, acrescentando que a maior felicidade de sua vida inclui uma casa cheia, com os dois filhos e os quatro netos por perto.

E o outro filho, se precisasse de um rim também?

- Doava o outro, óbvio, e aí ia fazer hemodiálise – garante a mãe Lygia, estranhando a pergunta.

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