Fora dos padrões de beleza que marcam as soberanas da Festa da Uva, Valdnéia Abreu disputa o título de rainha na Serra

A estudante já cativou uma legião de fãs em Caxias do Sul

Foto: Odacir Scalco

Às vésperas da escolha das soberanas da próxima edição da Festa da Uva, em Caxias do Sul, uma candidata em especial está tomando conta das conversas na Serra. Ela se destaca por exibir um perfil bem diferente das interessadas em concursos de beleza. Valdnéia Borges de Abreu, 26 anos, 1m50cm e quase 90 quilos, pode até não ser coroada, mas já é a mais comentada entre as candidatas a ocupar o trono da Uva.

Desde o início de uma enquete feita pelo jornal Pioneiro, do Grupo RBS, em maio, ela arrebata a preferência dos internautas. Até o fechamento desta edição, a caxiense havia conquistado mais de 30 mil votos (dos 50 mil já contabilizados), o que é cerca de 10 vezes mais do que a segunda colocada.

Ao longo de seus 82 anos, a Festa da Uva já coroou diferentes perfis de mulher, desde os portes tradicionais, de silhueta alongada, até as de alturas modestas e manequins encorpados. De Adélia Eberle, a primeira, a Roberta Veber Toscan, em 2012, 26 mulheres ostentaram, desde 1933, o título de rainha. Nunca, no entanto, houve candidata com as medidas e os propósitos de Valdnéia. Ela sabe que está acima do peso, mas se ama do jeito que é. E, apesar da popularidade, afirma que a coroa e o cetro da realeza não são seu objetivo final.

? Eu quero é aumentar a autoestima da mulher gordinha. Se eu conseguir fazer a diferença para quatro ou cinco mulheres, já ganhei o concurso. Entrei para mudar o perfil e mexer com a opinião das pessoas – diz a representante da Associação de Moradores do Bairro Mariani.

Val vai logo avisando que não tem vergonha de nada. Não ter papas na língua a ajudou a construir a popularidade dentro e fora da competição.

? Quando fui me inscrever, não imaginei que haveria tanta adesão. Falei a verdade, que sou gordinha e que a mulher italiana não é magra. Acho que algumas pessoas gostaram – destaca.

Entretanto, Val não ignora o fato de que alguns podem ter votado nela na enquete online apenas por acharem seu perfil engraçado, irreverente. De novo, ela tira de letra.

? Viva a diversidade, né? Acho que tem mesmo quem está votando pensando dessa maneira, mas agradeço a essas pessoas. Falem mal, mas falem de mim.

Consciente e segura com o próprio corpo, Val garante que não deseja mudar de manequim. Da adolescência até a segurança de hoje, as coisas mudaram bastante. Quando ainda cursava Magistério, incomodava-se por não ser magra como as colegas. Depois de anos, a preocupação passou. Resolveu assumir o porte e parou de chorar a cada vez que a chamavam de gorda.

? Hoje eu não ligo e não quero emagrecer. Se não me achar bonita, como vou querer que as pessoas me achem?

Até pouco tempo, a candidata era professora do 5° ano de uma escola estadual. Mas como também está cursando Relações Internacionais, agora imagina-se trabalhando em uma missão de paz. Não sabe em qual país, mas deseja atuar em defesa dos animais. Na casa que divide com a mãe, Maria Clélia, e o irmão Cristiano, ela cria 20 bichos (entre cachorros, gatos e patos).

? Sou muito solidária e sei que tem muita criança que precisa de cuidados. Mas quem vai ajudar os animais? Se pudesse, recolheria todos os bichos de rua – diz a caxiense.

Durante a semana, Val participa do projeto Persucata com a família. Eles transformam sucata em instrumentos musicais e, com isso, incluem crianças no mundo musical. A jovem, fã de Metallica e Evanescence, toca violino há um ano e meio e tem a música como passatempo. Não se considera vaidosa, pois dispensa maquiagem, mas nunca se descuida dos cremes para o cuidado com a pele. Saltos altos não fazem parte dos looks, em função de seus problemas nos joelhos. E, no guarda-roupa, o preto é a cor dominante.

Até nos sonhos e na personalidade forte, esta é uma candidata que passa longe de padrões estabelecidos. Val quer ser mãe, mas não quer se casar.

Valdnéia Borges de Abreu: “Eu me acho linda”


Donna – Por que você se inscreveu no concurso?

Valdnéia Borges de Abreu – Porque sentia falta de ter uma representante gordinha no concurso. A colonização da nossa cidade é italiana, e as italianas são mais gordinhas. Por que não me inscrever?

Donna – Tinha ideia que causaria essa repercussão toda?

Valdnéia – Quando me inscrevi, esperava por uma repercussão negativa. Achei que receberia mais críticas do que elogios. Mas hoje percebo que está acontecendo exatamente o contrário.

Donna – Recebe muitos elogios?

Valdnéia – Sim, e muito incentivo também. Elogios de pessoas que nem conheço, inclusive. Me param na rua e dizem: “Parabéns pela tua atitude”. Fico espantada com o carinho das pessoas. Não esperava por isso.

Donna – A família te apoiou?

Valdnéia – Minha mãe foi pega de surpresa. Ela sabia que eu queria participar, mas não imaginou que fosse sério. Todos me apoiam em tudo.

Donna – Você sofre com algum preconceito?

Valdnéia – Claro! Aquela coisa de ser gordinha, de ponto de referência, de apelidos, sabe? Quando estou com as outras embaixatrizes em um evento, sempre tem aquele que fica me olhando e rindo. Já ouvi coisas do tipo: “O que tu queres no meio delas?”

Donna – De que forma você lida com isso?

Valdnéia – Tento explicar para as pessoas que, no concurso para Rainha da Festa da Uva, não é somente a beleza que conta. A cultura vale muito.

Donna – Você se acha bonita?

Valdnéia – Eu me acho linda!

Donna – Você se importa com o julgamento das pessoas?

Valdnéia – Não, nem um pouco. Faz parte. Eu entrei no concurso sabendo que as pessoas poderiam me julgar.

Donna – Alguém, antes ou durante o pré-concurso, disse para você desistir?

Valdnéia – As pessoas envolvidas com a Festa da Uva, embaixatrizes e a comissão organizadora, nunca me disseram nada. Mas já ouvi de amigos: “Val, pega esse dinheiro que tu estás gastando e vai para um spa!”. Mas não me importo. Vejo esses comentários como críticas construtivas.

Donna – O que você espera com a sua participação?

Valdnéia – O que eu quero é que as mulheres, principalmente as gordinhas, se sintam bem. Que elas não se sintam mal por usar uma calça justa, uma saia curta… Quero elevar a autoestima das pessoas. Não me importo com a coroa, penso na minha autoestima.

Donna – Se ganhar, além de divulgar a Festa da Uva, vai levantar a bandeira das gordinhas?

Valdnéia – Sim. Quero que as pessoas não se importem com o biotipo, mas com as suas vontades.

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